A filha da Isabel vai para o estrangeiro – João André Costa

 

A Isabel apareceu-me no ecrã como quem bate à porta sem avisar, um rectângulo luminoso a abrir-se ao fim do dia, e lá estava a fotografia: a filha, ainda com aquele ar de quem não decidiu se é criança ou já outra coisa qualquer, encostada a um balcão cheio de folhetos coloridos, bandeiras minúsculas espetadas em mapas a prometer mundos e fundos.

E a legenda: treze anos e já a aprender a partir.

Lembro-me da Isabel na escola secundária, o cabelo preso com uma caneta, os cadernos desarrumados, a rir-se de tudo como se o futuro fosse uma coisa vaga, um rumor demasiado distante para incomodar.

Se nenhum de nós pensava em cursos, escolhas, decisões, preocupações, universidades, responsabilidades, muito menos pensávamos em países cujos nomes nem sequer sabíamos pronunciar.

Para quê? Os pais estavam presentes, a família providenciaria e o futuro não era apenas risonho, era confortável e tranquilo.

E a vida, um descanso.

Um regalo.

Era bom viver.

E agora a filha, com treze anos apenas e já a percorrer corredores de luz branca, a aceitar panfletos de universidades com nomes em inglês, alemão, nomes para dizer com a boca cheia num trava-línguas.

Imagino-a a pegar nos papéis com cuidado, como quem recolhe provas de uma vida possível, dobrando-os depois na mochila ao lado do estojo e dos cadernos de matemática. Uma infância de panfletos, uma adolescência de mapas.

E a Isabel, do outro lado da fotografia, fora do enquadramento, a olhar para a filha como quem vê um comboio a partir devagar enquanto diz para si mesma ainda haver tempo.

Tempo para um último beijo.

Tempo para um último abraço.

O último abraço.

Quando voltares, já não serás a minha filha, dizes.

E nada disto está a acontecer, nada disto vai acontecer, isto é uma grande patranha, a última patranha.

Um país sem vergonha nenhuma de ver os filhos partir. Os nossos filhos, não os filhos dos outros, entenda-se.

Sempre os nossos filhos, os primeiros na linha da frente contra os canhões, marchar.

E os canhões ficam na mesma…

Uma mãe a ver a casa esvaziar-se por antecipação, e a distância já não é uma hipótese, mas uma disciplina.

Talvez haja um orgulho tímido, envergonhado até, a crescer no meio do peito, misturado com um medo incapaz de confessar nas redes.

Porque a minha filha vai para o estrangeiro, a minha filha vai ser alguém na vida e o sucesso é para partilhar.

Ao contrário do silêncio de um quarto intacto, incólume, parado no tempo, e o silêncio ninguém fotografa, a solidão ninguém partilha.

Penso na rapariga, na filha da Isabel, a atravessar stands como quem atravessa fronteiras invisíveis. Há ali uma curiosidade, claro, um fascínio quase turístico: as imagens de cidades limpas, bibliotecas infinitas, campus a parecerem jardins.

Mas também há uma aprendizagem discreta da ausência, uma preparação para não pertencer completamente a lado nenhum. Nem daqui, nem de lá.

A Isabel partilhou a publicação com um coração e um emoji sorridente no fim, como quem procura simplificar não apenas palavras, mas emoções.

A Isabel a reduzir o mundo a um par de símbolos enquanto se engana a si mesma e está tudo bem, mesmo quando não está completamente.

Porque o verdadeiro estrangeiro começa muito antes da viagem, começa ali, naquele instante no qual uma rapariga de treze anos aprende a imaginar-se longe.

E o difícil não é partir, até porque partir é inevitável. O difícil é o ensaio para a partida. O difícil é este primeiro panfleto guardado na mochila, seguido de tantos outros.

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