29 de Novembro de 2025 archive

O Desgaste Oculto e o Engano da Idade Cronológica na Reforma dos Professores

A discussão sobre o aumento da idade legal para a reforma tem ignorado um factor crucial e cientificamente comprovado a idade biológica da população que trabalha. Enquanto os critérios actuais se baseiam estritamente na esperança média de vida e na consequente idade cronológica o corpo humano está a apresentar um envelhecimento acelerado em comparação com os anos que celebramos o que torna o adiamento contínuo da reforma insustentável e injusto.

O caso dos professores serve como um exemplo paradigmático deste desfasamento. Estes profissionais estão sujeitos a um stress cognitivo e emocional elevado ao longo de décadas de serviço que se manifesta não só em problemas de saúde mental mas também num desgaste físico evidente. A idade biológica destes indivíduos muitas vezes ultrapassa significativamente a idade cronológica devido a fatores como as longas horas de trabalho a correção noturna de testes o esforço vocal constante e o ambiente de trabalho por vezes exigente. Forçar um professor a prolongar o seu tempo de serviço apenas porque a idade cronológica legal aumentou ignora a realidade da sua capacidade funcional e o esgotamento acumulado.

Estudos recentes na área da epigenética utilizando ferramentas como os relógios epigenéticos têm demonstrado que o ritmo a que as células envelhecem é altamente variável. Estes relógios que medem a metilação do ADN um marcador molecular do envelhecimento fornecem uma estimativa mais precisa da idade biológica de um indivíduo do que o simples número de aniversários. A investigação aponta para o facto de que fatores como o stress crónico a exposição ambiental e o estilo de vida aceleram este relógio biológico. O prolongamento da vida útil da população não significa necessariamente um aumento de anos saudáveis. Viver mais tempo com mais doenças e menor capacidade funcional é o que a ciência está a indicar para muitos profissionais. Por exemplo artigos científicos demonstram que altos níveis de stress ocupacional têm um impacto negativo direto nos biomarcadores de envelhecimento celular.

Defender que a idade da reforma deve ser revista tendo como referência a diminuição da idade biológica em vez do aumento da idade cronológica é uma questão de justiça social e racionalidade económica. Manter trabalhadores altamente desgastados em funções por mais tempo conduz a uma diminuição da produtividade a um aumento do absentismo e a custos significativos para o Serviço Nacional de Saúde devido ao agravamento de doenças crónicas. A lei deveria reconhecer o desgaste diferenciado de cada profissão e de cada indivíduo. A introdução de um Fator de Desgaste Biológico no cálculo da idade de acesso à reforma seria um mecanismo justo que permitiria a reforma antecipada sem penalização para aqueles cujo corpo já atingiu um nível de envelhecimento biológico que compromete a sua qualidade de vida e capacidade de trabalho. A reforma deve ser uma recompensa pelo serviço prestado e pelo desgaste inerente não um alvo móvel ditado por uma estatística cega.

Venham mais uns anos… Quem tem, hoje, 50 anos, se fizer uma simulação simples no site da CGA, descobrirá que só se poderá reformar aos 68,5 anos… por agora!

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FNE Exige Resposta Urgente do MECI Sobre a Falta de Vagas para a Profissionalização em Serviço

Falta de vagas na Profissionalização em Serviço exige resposta urgente do MECI

 

A Federação Nacional da Educação (FNE) tem recebido várias manifestações de preocupação de professores candidatos à Profissionalização em Serviço, que se deparam com a ausência de vagas suficientes para darem continuidade ao seu percurso profissional. Esta situação está a gerar compreensível apreensão e incerteza num conjunto de docentes que, de boa-fé e cumprindo todos os requisitos, se vê agora sem respostas claras sobre o seu futuro.

A falta de vagas deixa os candidatos sem saber quais os passos seguintes, sem informação sobre alternativas e sem garantias quanto à sua situação profissional imediata e futura. Para a FNE, esta ausência de orientação é inaceitável e contraria os princípios de transparência, previsibilidade e estabilidade que devem nortear a política de recursos humanos na educação.

A FNE considera urgente e indispensável que o Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) esclareça, com carácter de urgência, como pretende resolver este problema e quais as medidas previstas para garantir a abertura das vagas necessárias para assegurar a profissionalização de todos os candidatos que reúnem as condições exigidas, a definição de um calendário claro e público, que permita aos interessados tomar decisões informadas, e a garantia de que nenhum docente será prejudicado pela insuficiência de resposta administrativa.

Estes docentes têm desempenhado funções nas escolas, contribuindo diariamente para o funcionamento do sistema educativo e para a aprendizagem dos alunos. Não podem agora ser confrontados com um vazio de informação e com o risco de ficarem numa situação profissional indefinida.

A FNE reitera a sua total disponibilidade para colaborar na construção de uma solução que respeite os direitos destes profissionais e assegure a estabilidade necessária ao sistema educativo. O MECI deve, sem demora, prestar uma resposta cabal e responsável que dê segurança aos docentes e garanta que nenhum fica para trás.

Porto, 28 de novembro de 2025

A Comissão Executiva
Federação Nacional da Educação

Ofício enviado ao MECI – PDF 

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Às vezes esqueces-te todos os dias do porquê de ser professor – João André Costa

 

Por ser Sexta-feira à tarde e à Sexta-feira à tarde a Directora pega na pastinha e vai para casa toda laroca à hora de almoço.

Diz ser o seu dia livre, o dia de ir ao mercado e, por conseguinte, a sua mera presença na escola é em si um grande e excelso favor pelo qual o povo e os súbditos devem estar eternamente agradecidos, incluindo o Luís.

O Luís ao fim do dia por sua conta e sozinho de vigia à paragem de autocarro e a razão é simples quando se quer garantir um fim-de-semana com um mínimo de paz, a começar logo pela Sexta-feira.

O contrário mais a sua ausência de plantão à paragem de autocarro não é senão o catalisador para a pancadaria geral da populaça estudantil, resultado directo da aridez vocabular quando as emoções estão à flor da pele.

E com a pancadaria e pela pancadaria a certeza de ficar para trás a trabalhar na escola até às tantas enquanto se separam alunos e contendas mais os primeiros-socorros da praxe e os telefonemas para os pais imediatamente acusatórios da falta de vigilância da escola e a culpa é do Luís.

E, portanto, lá vai o Luís feito emplastro para a paragem de autocarro, uma delas pelo menos, até porque os alunos não moram todos no mesmo lugar e essa é a ordem natural das coisas.

O pior é tentar explicar isto à Directora já em casa de pantufas e vinho branco na mão, e não literalmente na mão caso contrário era para sorver mas no copo e o copo na mão, enquanto vê as tardes da Tânia e a vida é bela.

Isto porque a porrada pode mesmo ser o verbo do dia, ou da tarde, na outra paragem distante de oitocentos metros e a obrigação do Luís é a de ser omnipresente ou então partir-se em dois enquanto corre de uma paragem para a outra com a mesma celeridade das mensagens de texto enviadas para o telemóvel da Directora.

Hoje a missão do Luís é simples: garantir a ida para casa de dois alunos desavindos em autocarros separados e já lá vem o primeiro cachopo a atravessar a estrada a caminho da paragem mais distante.

O segundo aluno ainda está na escola e tudo estaria bem caso o Luís soubesse de cor onde cada aluno mora e como o primeiro já vai a caminho, o Luís indica por telefone à Luísa na escola estar o caminho não apenas livre mas seguro.

Sete minutos depois chega o segundo cachopo e o galo do Luís ao vê-lo atravessar a mesma estrada em direção à paragem mais distante.

E o Luís no seu encalço enquanto no telemóvel chovem ameaças e condenações e a certeza de um processo disciplinar na Segunda-feira.

A culpa é do Luís e o Luís devia saber de cor cada morada, cada rua, cada porta, a cor de cada casa e se tem um cão ou um gato.

E sim, o fim-de-semana inevitavelmente perdido enquanto o Luís deita os bofes pela boca mesmo a tempo de chegar à outra paragem onde os dois rapazes não só estão juntos como se preparam para entrar no mesmo autocarro daqui por dois minutos.

A ordem no telefone é só uma e aqui vai o Luís para dentro do autocarro a caminho da Picheleira.

Mas o autocarro está à pinha e o Luís não tem onde se agarrar, a porta não fecha, o motorista tenta uma, duas, três vezes, o Luís empurra uma, duas, três caneladas e o Luís aos pulinhos de dor para fora do autocarro mesmo a tempo de ver fechar as portas e o Luís para trás a chuchar de dedo na boca.

E agora explicar isto à Directora? De paralítico do cérebro para baixo, a Directora chamou-lhe de tudo entre raios, relâmpagos e trovões, e não só os raios, relâmpagos e trovões do lado de lá do telefone mas deste lado também numa daquelas bátegas de água impossíveis, e como o Luís não trouxe o guarda-chuva a certeza é só uma e esta é, definitivamente, uma Sexta-feira memorável.

E se a vontade de chegar ao fim da semana já era pouca, ainda para mais quando se tem o emprego de pai e a catraiada toda em casa à espera, agora é zero.

A pancadaria a bordo do autocarro foi épica, rapidamente alastrando-se pelo bairro da Picheleira fora mais os bombeiros, policia e jornalistas e a tromba do Luís no Pasquim da Manhã do dia seguinte: “Professor tresloucado incita batalha campal”.

O Luís acorda de repente, ainda a suar e como de costume a suar quando o Luís se esquece de tirar as meias.

E quando o Luís se esquece de tirar as meias, a noite é como o dia e recheada de pesadelos.

O Luís pega no jornal.

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