Afinal o Serviço Nacional de Saúde funciona muito bem… Mas só às vezes…

Tem-se assistido nos últimos dias a um frenesim televisivo, tendo como protagonista André Ventura, Presidente do Partido Chega, depois de o mesmo se ter sentido indisposto em duas ocasiões e de, alegadamente, ter necessitado de cuidados médicos urgentes…

Como tem sido sobejamente noticiado, essa assistência médica ocorreu em quatro entidades públicas de Saúde, em dois dias consecutivos: Hospital de Faro, Centro de Saúde de Odemira, Hospital do Litoral Alentejano em Santiago do Cacém e Hospital de São Bernardo em Setúbal, onde terá sido sujeito a vários exames médicos, de diversa natureza…

Durante esses dois dias, não faltaram ambulâncias do INEM, nem pessoal médico adequado, para avaliar e monitorizar os sintomas apresentados por André Ventura… Em poucas horas, nas quatro entidades referidas, o líder do Chega foi sujeito a vários procedimentos médicos, todos realizados com uma celeridade fora do normal, para o comum dos cidadãos…

Como é fácil de comprovar pelas notícias veiculadas pelos meios de comunicação social, André Ventura foi atendido rapidamente e, ao que se conhece, foram accionados todos os meios técnicos e humanos necessários para lhe poderem ser prestados os devidos cuidados médicos…

E isto nada teria de extraordinário não fosse o caos em que está mergulhado o Serviço Nacional de Saúde, nomeadamente as Urgências Hospitalares, como é do conhecimento público…

Em resumo, o cidadão comum espera nas Urgências Hospitalares horas infinitas para ser atendido, mas o cidadão André Ventura teve o direito e o privilégio de poder usufruir de cuidados médicos efectivamente urgentes…

Obviamente, o que aqui se contesta não é a celeridade e a competência com que André Ventura terá sido tratado, de resto, isso é exactamente o que se espera para qualquer cidadão, em condições semelhantes… Ou seja, todos os cidadãos deveriam poder usufruir das mesmas prerrogativas, independentemente de serem ou não figuras públicas…

Ainda bem que André Ventura, enquanto cidadão, foi bem, e rapidamente, tratado…

Não é isso que se contesta…

O que se contesta é a vergonhosa, escandalosa e inaceitável disparidade entre tratamentos, consoante se trate de “cidadãos de primeira” ou de “cidadãos de segunda”, estes últimos, obviamente, sem direito a “tratamento VIP”…

Ficou inequivocamente demonstrado que existem “cidadãos de primeira” e “cidadãos de segunda”, no que respeita à prestação de cuidados médicos urgentes…

Os primeiros são devidamente tratados, com toda a celeridade; os segundos, esperam, e desesperam, por serem tratados em tempo útil…

Conclusão: Somos, efectivamente, um país terceiro-mundista, com uma mentalidade provinciana e tacanha…

Nunca, como agora, foi tão verdade, esta afirmação de George Orwell: “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros”…

O 25 de Abril de 1974 já tem mais de 50 anos, mas, e passado tanto tempo, os Direitos e as Garantias dos Cidadãos ainda não são universais…

Os Princípios da Universalidade e da Igualdade, previstos na Constituição da República Portuguesa, ainda estão longe de ser uma realidade… No papel ficam muito bonitos, mas na prática, muitas vezes, não se vislumbram, não se concretizam…

Que raio de Democracia esta!

Afinal o Serviço Nacional de Saúde funciona muito bem… Mas só às vezes…

Nota Final:
Presto aqui a minha homenagem a todos os utentes do Serviço Nacional de Saúde que esperaram, e continuam a esperar, incontáveis horas nas Urgências Hospitalares pelo devido atendimento médico e, sobretudo, àqueles que acabaram por morrer à espera dessa assistência…

Paula Dias

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/05/afinal-o-servico-nacional-de-saude-funciona-muito-bem-mas-so-as-vezes/

8 comentários

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    • Olá olá on 16 de Maio de 2025 at 11:01
    • Responder

    “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros” – comprovadíssimo que o Ventura é uma besta.

    • André on 16 de Maio de 2025 at 11:05
    • Responder

    Excetuando talvez o fato de ter ficado internado num quarto de CI em Faro, provavelmente o tratamento terá sido igual a um cigano, ou um sem-abrigo imigrante do Bangladesh. Urgência é urgência, não a confundamos com necessidade de consultas, ou cirurgias programadas que demoram. O SNS tem lacunas? Sim, e muitas, mas por aqui nesta comparação não vamos no bom caminho. Quando muito serve para a direita engolir o bom que é o SNS. Porque razão não terá ido para um hospital privado?
    Nota: Abomino o partido racista e fascista que é o CHEGA, mas não vamos misturar coisas…

    • Duarte on 16 de Maio de 2025 at 15:02
    • Responder

    Grande artigo…muito bem!

    1. O artigo, lá grande, é.

      Mas enviesado, também. Como a maioria dos textos deste(a) artista escrevinhador(a). Palpita-me ser pseudo…

      Por exemplo, a “via aberta coronária”, é acionada para TODOS, TODOS, TODOS. Já assisti, estando numa situação de pós-cateterismo, à preparação e prontidão da unidade, em Coimbra, para um doente vítima de AVC, que vinha a chegar de ambulância , via INEM.
      De certeza que o socorreram e não viram se era Manuel, José ou “Paulo” Dias!

      Eu não sou VIP, uso o SNS e não tenho razões de queixa. (E não voto no partido dos colecionadores de malas).

      Lembrem-se que asnos são, simplesmente, uns burros mais sofisticados.

        • Paula Dias on 16 de Maio de 2025 at 16:27
        • Responder

        Que bom para si, essa sua experiência tão positiva… Ainda assim, sugiro, a título de exemplo, uma vez que poderia aqui colocar dezenas de outros “links” de notícias sobre problemas no funcionamento do INEM e das Urgências Hospitalares, a leitura destes dois reportes:

        https://www.noticiasaominuto.com/pais/2666846/mau-atendimento-motiva-685-das-reclamacoes-ao-inem-e-o-resto

        https://executivedigest.sapo.pt/noticias/caos-no-sns-urgencias-hospitalares-da-grande-lisboa-com-tempos-de-espera-acima-de-nove-horas-para-pulseiras-amarelas/

        Paula Dias não é, nem nunca foi, um pseudónimo.

        Ninguém é obrigado a concordar com as minhas opiniões.

        Efectivamente “enviesado”, e intelectualmente desonesto, é o seu juízo acerca do funcionamento do INEM e das Urgências Hospitalares, feito a partir de UMA experiência que, por acaso, parece ter corrido muito bem.

        Nisto concordo plenamente consigo: “… asnos são, simplesmente, uns burros mais sofisticados.”

    • anonimo on 16 de Maio de 2025 at 20:44
    • Responder

    Pois cá eu só gostaria de ter tido ambulância conforme foi requisitada, para o atendimento urgente a nível hospitalar, após ter sido atendida no centro de saúde, mas, infelizmente há os que nascem com o c* para baixo e outros com ele para o ar.

    • João on 17 de Maio de 2025 at 11:23
    • Responder

    O que eu acho estranho é que se indignem tanto com as suposta “discriminação na saúde” , mas que apreciem tanta discriminação na educação: uns ganham 1500 euros e outros 4000, por toda a exitência. Sendo que os que ganham 4000, muito frequentemente, são os que menos trabalham e os que escolhem o que querem fazer. E esta? Muito PSD’s, certo?

    • Maria Estafada on 18 de Maio de 2025 at 18:11
    • Responder

    Concordo totalmente com o seu texto Paula Dias.
    Bem haja.

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