Não é só nos regimes ditatoriais que se está a apagar a história e a tentar reescrevê-la. Um pouco por toda a parte isto está a acontecer quando se oculta ou desvalorizam partes da nossa história.
E isto já acontece com os jovens que desconhecem o que significou a ditadura em Portugal, porque nos programas de História pouco se aprofunda esta matéria e se perde demasiado tempo com história antiga.
Quando, para os nossos jovens, o significado de uma palavra se resume a um conjunto de outras palavras descritas na wikipedia à distância de um clique que se pode copiar e colar sem trabalho a ler e, muito menos, a analisar e a interpretar, algo vai muito mal.
As novas gerações desconhecem por completo programas eleitorais, ideologias, o impacto que as propostas eleitorais podem ter nas suas vidas, não assistem a um debate ou a um programa sobre política, não veem/ouvem/leem notícias e limitam-se a determinar a sua escolha partidária pelo show-off que aparece nos média e na internet onde se distribuem gostos de forma irrefletida e infantil.
Como resultado de toda a nossa distração foi que, passados poucos anos, os adolescentes inconscientes (e cada vez mais infantis) de «ontem» tornaram-se votantes de hoje, sem que lhes fosse dada uma preparação e contextualização histórica. A sua falta de consciência sobre a importância do voto tornou-se num dos maiores perigos para a democracia. Os seus pais passaram por algumas dificuldades e iam dando valor aos direitos que tinham e na melhoria da sua qualidade de vida. Os seus avós passaram por muitas dificuldades na vida, sentiram o que é viver com privação de quase tudo, desde bens materiais à alimentação, do direito à educação, ao acesso à saúde, a um trabalho e a uma aposentação digna e, sobretudo, a falta da liberdade, tendo sido perseguidos, presos e torturados por defenderem tudo aquilo que esta juventude inconsciente está hoje a usufruir, tomando isso por garantido e desconhecendo o seu valor.
Enquanto as gerações anteriores nem sequer tinham direito ao acesso ao ensino e viam-se obrigadas a percorrer quilómetros a pé para poderem chegar à escola, estes principezinhos são levados até ao portão da escola por «pais-helicóptero» que não deixam que os filhos passem por nenhuma dificuldade, não conheçam o valor das coisas, nem sejam privados de nada.
Uma geração mimada e superprotegida que não dá valor a nada e desconhece o valor de tudo quanto existe. Uma geração que cresceu agarrada a um telemóvel a brincar e a jogar, que nunca viu um noticiário, nunca se interessou nem se preocupou com problemas de privação seja do que for, porque uma geração de pais irresponsáveis fez questão de responder no imediato aos seus desejos, presenteando-os com tudo sem lhes explicar a importância das coisas, sobretudo da liberdade. Uma geração que, de repente, se viu no direito a votar, a maioria sem nunca ter percebido o que significa a liberdade ou o valor do voto e o que ele representa na vida das pessoas, incluindo na sua e na daqueles que lhes pagam as contas. Limitam-se a fazer o que sempre fizeram durante toda a vida – vão a correr para o telemóvel e deixam-se condicionar pelos «bonecos» mais engraçados que lhes «vendem» e que recolhem mais gostos. Nem que sejam mentiras, pouco lhes importa, porque o que interessa é embarcar na corrente populista, como se a própria vida se transformasse num simples jogo virtual à distância de um clique para se entreterem, respondendo a uma indústria do entretenimento que, desde o berço, fez questão de viciar as novas gerações com o único fim mercantilista do aumento do lucro.
Enquanto os menos jovens se voltam para a comunicação social, para as análises e debates, para as ideias programáticas e ideológicas para se decidirem quanto ao voto, os jovens vão em direção ao telemóvel para saberem o que deverão fazer. Se, no futuro, ambas as opões terão de conviver, a redução do voto às tendências das redes sociais, repletas de fake news e altamente manipuladas por grupos de interesse, torna-se muito perigosa por colocar em causa a verdade dos factos e a própria democracia.
Sabendo disso, grupos políticos organizados conseguiram manipular facilmente votantes «virgens» de ideologias, que facilmente se deixam influenciar por propaganda.
A juventude, que nada entende do que é a privação, dificuldades ou do simples significado de «democracia» e «ditadura», votam inconscientemente por modas e slogans de apreensão fácil. Esta é a decadência total de uma estrutura social que falhou em toda a linha na formação da próxima geração à qual, pensavam, bastava-lhe dar um telemóvel para as mãos e distribuírem computadores, numa cegueira pomposa denominada transição digital, para se formar a melhor geração de sempre. E o resultado está aí à vista e, agora, estamos a colher aquilo que semeámos.
Só posso mesmo dizer que, de tanto pouparmos em educação, ficámos ricos em ignorância!
Carlos Santos