Porque é que eu tenho de ir à escola? – João André Costa

Porque é que eu tenho de ir à escola?

Perguntou a minha sobrinha, agora que o 1.º ano se aproxima e, de repente, a angústia nos seus grandes olhos negros era a minha, a nossa angústia nos nossos grandes olhos negros, dias antes e muitos anos atrás, antes do nosso primeiro dia de aulas.

Porque é que eu tenho de ir à escola? A resposta é impossível para quem ainda tem seis anos. Tão impossível como o porquê de termos de aprender matemática. Não, o porquê da matemática é ainda mais impossível, só lá cheguei depois de fazer 30 anos.

Porque é que tens de ir à escola? Para fazer amigos, comecemos pelo mais fácil, pelas coisas boas, para brincar e correr, jogar e saltar, mas também partilhar e ajudar que a amizade não é só brincadeira, é também estar para os outros.

Vais para a escola para crescer, para conheceres alunos e professores de outras origens, de outras terras e outros países, com modos de pensar e agir diferentes dos teus, mas concordantes, porque no princípio e no fim somos todos iguais.

Entretanto, é preciso ler e escrever, aprender a contar, tomar o gosto aos livros e esquecer o telemóvel, o telemóvel não, desculpa, o “kudu”, como lhe chamas desde sempre, mesmo se o sempre não é assim há tanto tempo.

E aprender a viajar entre o português, as ciências, a geografia, o desporto, a arte, a música e descobrir um mundo belo e cheio de cor, um mundo ainda a tempo de ser salvo e onde podes ter um futuro.

Um futuro pelo qual vais ter de lutar. E para lutar precisas, primeiro de tudo, de conhecimento. Por isso é que tens de ir à escola. Para aprender como se ganha uma bandeira e a liberdade é vermelha, sim, como o Benfica, isso já sabes, mas é preciso mais, é preciso aprender sobre Abril e saber de cor os nomes de quantos morreram para que hoje possas ir à escola — e o porquê de antes não ser assim.

Adriano Miranda

Quando esse dia chegar já seremos velhinhos, ou para lá caminharemos. Mas ainda lá estaremos, a outra rede, aquela que nunca viste por debaixo da tua, a rede pronta para te segurar sempre que for preciso.

Até lá, vive a escola, os amigos, o primeiro beijo, as férias, o Verão, os novos cadernos, os professores, o recreio, as visitas de estudo, as viagens, a escola tão curta, são só 12 anos, vive-os intensamente, não voltam atrás, não se repetem, passam num instante, como os nossos e, no entanto, ficam para sempre.

 

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1 comentário

    • Ana on 14 de Setembro de 2019 at 15:13
    • Responder

    Sim, boas respostas.

    Mas eu também fazia a mesma pergunta aos meus pais (sei que faço parte de uma enorme minoria).

    Mas, e os quase 3 meses seguidos de escola nos 1º e 2º períodos? Trazem assim tanta felicidade? E, mais tarde ,a transição do 1ºpara o 2º ciclo e depois para o 3º? E levantar-se tão cedo? E passar quase todo o dia na escola?
    Na minha opinião, isto não é normal.

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