Consequências do envelhecimento da classe docente…

 

Não haverá um efeito Benjamin Button: notas sobre o envelhecimento da classe docente

O envelhecimento da classe docente envolve desafios imediatos, alguns menos óbvios, mas todos eles com um potencial de dano considerável.

Cândida repassa os olhos pela sala. Detém-se um pouco mais no seu flanco sombrio, debatendo-se, como se a penumbra fosse menos inclemente que o vazio que sente. Por entre as mesas rectangulares, filas sucessivas de fórmica verde esmagada, intersectam-se os cheiros do chão encerado, do medo impenitente dos alunos, à espera daquele último grupo do exame que lhes estragará a média e o futuro para sempre, e até do giz branco, não obstante o seu pó fino e áspero há muito se ter dissipado daquela e de todas as outras salas. Por fim, confidencia-me, sem hesitações:

— No final do mês, já cá não estarei.

Ainda não contrapus e ela já insiste para que reconsidere a minha conclusão. Existe outra versão bem distinta para o que chego a pensar. À beira dos sessenta anos, ela não desistiu da escola. Com as mãos apoiadas na secretária, renuncia, pelo menos, a enumerar pelos dedos. Limita-se a discorrer, a voz embargada por uma certa incompreensão: perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória, autonomia e flexibilidade curricular, educação inclusiva, uma sucessão de alguns decretos e dos mais variados acrónimos. Temo ainda contrariá-la, sobretudo na substância, mas talvez seja o tempo de abdicar um pouco dos meus princípios. E com isso não me rendo ao cinismo. Apenas aceito outro ângulo possível para aquele desfecho, reduzindo-o a um número: 41%. É essa a percentagem de professores com idade superior a 50 anos, em Portugal, segundo o relatório Education at Glance, produzido pela OCDE. No extremo oposto, ressoa ainda mais o facto de apenas 1% dos professores portugueses ter menos de 30 anos.

Pensarão alguns, esses sim com cinismo, que o envelhecimento da classe docente é um não-problema, porque a evolução demográfica também implica termos cada vez menos alunos. Portanto, num arrojo de programação tecnocrática, daqui a uns anos bastará aumentar o rácio de alunos por professor, diminuir o número de turmas, prever menos horários disponíveis por preencher, enfim, nivelar as coisas. Os arautos do pós-humanismo desdramatizarão, sugerindo que não faltará muito para os professores serem substituídos por máquinas. Esses utilizarão até à exaustão exemplos de aprendizagem auto-dirigida, como o da escola na nuvem, de Sugata Mitra, em que o papel do adulto na aprendizagem dos mais novos se reduzirá ao mero incentivo, se tanto.

A curto prazo, a programação acéfala, meramente economicista, não nos salvará, mesmo que um maior número de alunos por turma esteja longe de ser o factor mais determinante para a qualidade de ensino ou para o rendimento dos alunos. Por outro lado, o dia em que capitularemos, cedendo à desumanização total dos processos educativos, também ainda não se vislumbra. Até lá, o envelhecimento da classe docente envolve desafios imediatos, alguns menos óbvios, mas todos eles com um potencial de dano considerável.

Estudos bem recentes, como aquele coordenado por Raquel Varela, indicam como os professores portugueses estão expostos ao desgaste. Cerca de 80% dos participantes nesse estudo reconhece estar em exaustão emocional. Metade queixa-se da profissão não os realizar.

A longevidade pode ser um desígnio das sociedades, mas carreiras profissionais mais longas envolvem riscos de desgaste acrescidos, em especial na docência. Acresce que uma grande massa de professores mais desgastados e mais envelhecidos traduz-se numa classe com menor abertura à mudança. Se a maioria dos professores se encontra numa faixa etária em que a flexibilidade diminui, menor será a capacidade para incorporar os ajustamentos didácticos ou pedagógicos, sejam eles sustentados pela investigação ou a concretização de conveniências ideológicas, ao ritmo de cada governo

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4 comentários

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    • Nem mais! on 25 de Setembro de 2019 at 12:46
    • Responder

    À parte aqueles que têm os melhores horários e as melhores turmas, à parte os que se metem em especializações para fugir ao caos diário das escolas, à parte os experts no domínio das baixas médicas…
    Os professores que trabalham no terreno sem artimanhas padecem de um desgaste muito mais rápido do que aquele que é causado pela maioria das outras profissões. Os professores são submetidos a uma pressão que os destrói, por vezes, em pouco tempo ou os afasta pela via do pânico, do pavor, da fobia e por vezes até do medo.

    Recomenda-se aos políticos que sejam honestos na forma como apresentam ao país o dia a dia nas escolas, que não escondam o ambiente brutal que lá se vive. Que se deixem de sorrisos para a televisão quando passeiam pelas escolas porque dentro da “jaula” a cena é de tal forma escandalosa que nem no campo da ficção se explicaria.

    CHEIOS DE TEÓRICOS ESTAMOS NÓS! Estão todos convidados a dar 1 dia de aulas e depois falamos!

    • mm on 26 de Setembro de 2019 at 9:26
    • Responder

    Qual é a cena? O envelhecimento é em todas as classes.. se todos lutassem contra isso, é q seria de valor..
    Agora fazer dos professores os coitadinhos, escolheram essa área, o envelhecimento é igual em todas as áreas

    1. Mal informado, a precisares de ler e pensar sobre a realidade da profissão docente. Mas deve ser difícil para ti, tendo em conta a forma ligeira como começaste o teu comentário.

    • Matilde on 26 de Setembro de 2019 at 23:42
    • Responder

    Não façam dos professores bodes expiatórios mais uma vez….
    Não se deixem ludibriar pelo chavão-
    “envelhecimento da classe docente”
    Convém não esquecer que temos docentes contratados com uma média de idades por volta dos 40-45 anos de idade.O que vai acontecer com eles??????
    Convém não esquecer também que, sempre foram os mais velhos que ensinaram os mais novos!!!!!
    Os jovens que trabalham actualmente noutras áreas, trabalham até à exaustão , são explorados, também se cansam e não vão manter o ritmo por muito tempo!Quando não aguentarem vão ser descartados sem dó nem piedade!
    Cuidado com o discurso “consumista” que dizia e está a continuar a fazê-lo que” ser jovem é que é bom”!Apesar de ser jovem poder ser agradável,ser maduro não é pior!

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