A ansiedade antes da ansiedade antes da ansiedade, a mãe da ansiedade e a avó da ansiedade, gerações inteiras de angústia debaixo da pele e a pele uma casa velha a ranger, a tremer, a ameaçar cair e cair de verdade, e a alma lá dentro a olhar pelas janelas como se alguém viesse salvar, alguém, quem, ninguém.
Antes do exame: os olhos em ti, os olhos dos outros em ti, os teus olhos em ti, os olhos no chão, a tropeçar no chão, a enrolarem-se no chão e o chão uma cama e tu um corpo sem força, sem chão. O corpo derrotado antes de lutar. A cabeça rendida antes da guerra. A vontade como um balão furado, a esvaziar-se devagar e sem barulho e desistir é tão natural como respirar.
E se estudámos. Dias, noites, horas coladas umas às outras como as peças de um puzzle por acabar, e a memória um espelho embaciado a repetir, a repetir, a repetir, como um papagaio a imitar sem saber quanto diz, sem saber porquê e a papaguear se fez o ensino Secundário.
Então porquê o medo, porquê a taquicardia nos corredores gelados da escola, porquê o suor nas palmas das mãos, porquê os dedos crispados e na verdade cada exame é uma guerra e cada pergunta uma bala.
Porque falhar é cair. Porque cair é desiludir. Porque desiludir é deixar de merecer amor.
E tudo isto antes dos dezoito anos. Ainda criança e já culpado, curvado e empurrado para uma glória sem glória. Os pais, coitados, a exigirem sem saber. A amar com culpa. A pressionar com medo. A quererem para nós quanto não tiveram. Uma vida melhor, dizem. E esta vida melhor é esta? Esta prisão de papel? Este campo de batalha de silêncio e dor e cotovelos apertados contra o peito para não chorar?
Brincar quando se cresce foi sempre uma perda de tempo e a felicidade é para os ignorantes e pobres de espírito se o principal objetivo é vencer e ser alguém.
Mas nós já somos alguém, repetimos entre clamores e apelos em vão e as mochilas pesam mais para além dos corpos e os corações cansam-se de arrastar as pernas. Fomos crianças com olheiras de adulto e rugas no pensamento. E a ansiedade a crescer como um fungo, invisível, pegajosa, mortal.
E antes de cada exame morremos um bocadinho, enterrados no medo e o epitáfio escrito a caneta azul no canto do caderno.
E ninguém fala disto. Só se fala do resultado, do número, da média, da nota, da estatística e nunca da dor, nunca da solidão, nunca da vergonha de não ser perfeito mais a raiva de quem tenta e falha. E a vontade de fugir para sempre.
E se crescemos entre promessas de nunca mais, nunca mais exames, nunca mais testes, nunca mais aquela humilhação, depois e uma vez adultos, repetimos, fazemos igual, exigimos igual.
O ensino é uma máquina e cada um de nós parte da engrenagem e para quê se não se derrubam governos e formas de pensar para a melhoria do bem-estar geral?
E de caminho admoestamos com a mesma régua e castigamos na mesma medida ou não continuassem os exames inamovíveis, seculares, desta feita não para nós mas para os outros num altar pagão onde se sacrificam os mais novos, os mais frágeis, os Zé-ninguém cheios de esperança, a mesma esperança, a nossa esperança apesar das eras passadas.
E eu, um dos sacrificados, fiquei pelo caminho, ainda a tremer com o cheiro do papel do exame enquanto olho para trás e não me lembro de quanto aprendi, só a dor, só o peso, só a ansiedade e eu não quero isto para os meus nem quero ser o carrasco de ninguém.
E se os exames medem alguma coisa, não é o saber, é a capacidade de sofrer para sempre e em silêncio.
João André Costa