O ofício do cansaço: heróis do queixume e mártires silenciosos – José Manuel Alho

O cansaço verdadeiro é silencioso.
O falso cansaço é barulhento, teatral, dramático. O autovitimismo, chamemos-lhe assim, é uma forma muito conveniente de esconder a preguiça e a lei do menor esforço com um verniz de “sou tão dedicado que até fico exausto”.
Não são exaustos. São é pouco dados ao trabalho e muito dados à narrativa.

O ofício do cansaço: heróis do queixume e mártires silenciosos

A epidemia do cansaço performativo: quando o lamento suplanta o esforço

Há por aí uma nova epidemia, daquelas que não passa nos telejornais: a pandemia do cansaço performativo. Gente fresca, rosadinha, com ar de quem dorme oito horas, faz sestas ao fim de semana, vai ao brunch e ainda tem tempo para séries e ginásio, mas que abre a boca sempre com o mesmo refrão: “Estou tão cansado… Nem imagina…”

Cansadas de quê, exatamente? De mandar dois emails, ir a uma reunião e carregar no “enviar” do Teams? De terem um dia “cheio” porque tiveram de abrir três fichas em PDF e carregar num link? É um cansaço muito curioso: não lhes pesa no corpo, só no discurso. O cansaço virou credencial, crachá, cartão de visita. Não trabalham muito, mas cansam-se imenso… de falar sobre o quanto trabalham.

Depois há o outro lado. Os tipos que andam a funcionar à base de comprimidos para dormir, comprimidos para não desmaiar, cafés em série e uma agenda que não cabe em lado nenhum. Gente que trabalha até cair, que chega a casa arrastada, que passa noites a preparar coisas, a pensar em problemas, a resolver o que ninguém vê. Gente que, no dia seguinte, aparece: faz o que tem de ser feito, aguenta, segura o barco. Esses, regra geral, dizem só: “Vamos andando”.

É fascinante ver como o mundo aplaude os mártires de cartão. Os que dramatizam cada tarefa: “Foi um dia puxado…”, “Nem tive tempo para respirar…”, “Isto está impossível…”. Depois vamos a ver, e o “dia puxado” cabia num horário de part-time. A produtividade é baixa, o ruído é altíssimo. Trabalham pouco, mas cansam muito o ambiente à volta. Mas, curiosamente, são vistos como dedicados, empenhados, quase heróis do esforço.

O silêncio dos que seguram o mundo: os verdadeiramente exaustos não têm tempo para dramatizar

Já os que se levantam cedo, voltam tarde, vivem carregados de responsabilidades, carregam a casa às costas, a escola às costas, os miúdos às costas, o trabalho às costas, esses não têm tempo para espetáculo. Não se vendem como mártires, não se autofotografam em modo sofrimento, não fazem conferências de imprensa sobre o seu esgotamento. Engolem, em seco, tomam a medicação, respiram fundo e seguem. Sem medalha. Sem palmas. Sem post motivacional.

No fim, o que se vê é isto: o cansaço verdadeiro é silencioso.
O falso cansaço é barulhento, teatral, dramático. O autovitimismo, chamemos-lhe assim, é uma forma muito conveniente de esconder a preguiça e a lei do menor esforço com um verniz de “sou tão dedicado que até fico exausto”.
Não são exaustos. São é pouco dados ao trabalho e muito dados à narrativa.

Talvez um dia se aprenda a diferença entre estar cansado de fazer e estar cansado de existir.
Até lá, os que realmente se sacrificam vão continuar invisíveis, sem condecorações, sem discursos, sem palco.
Os outros continuarão a desfilar o seu cansaço cor de rosa, muito bem penteado, muito bem ensaiado.
E o mais irónico é isto: quando, um dia, os verdadeiramente cansados caírem, o mundo vai perguntar, muito surpreendido: “Mas estava assim tão mal?”

Estava. Só não andava aí a fazer disso profissão.

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