Por Pedro Alexandre Franco
Sou professor de Educação Musical no 2.º ciclo do Ensino Básico há mais de duas décadas e já lecionei em quase trinta escolas diferentes. Dizer isto em voz alta é quase tão estranho como confessar que já tive alunos que agora têm filhos, e alguns desses filhos até já tocam flauta, coitados.
Durante todo este tempo, houve uma constante: mudava de escola todos os anos. Era quase ritual. Chegava, dava o meu melhor, envolvia-me com as turmas, decorava os nomes (às vezes com mnemónicas duvidosas), e no final do ano… lá ia eu para outra escola, com novo código da fotocopiadora, nova sala, e novos desafios — incluindo encontrar uma tomada que funcionasse à primeira.
Mas este ano, pela primeira vez, vou continuar na mesma escola. Não mudo de lugar, nem de colegas, nem sequer de secretária, que já range de um lado, mas tem personalidade. E esta novidade muda tudo.
É também a primeira vez que vou ter continuidade com as turmas. Os alunos que me ouviram este ano a explicar, com entusiasmo digno de festival, o que é uma síncopa ou uma clave, voltam para o ano. Já sabem os meus trocadilhos, as minhas expressões, e aquele olhar que diz “sim, eu sei que isso não estava no plano, mas vamos fingir que estava”.
E mesmo os que seguem para o 3.º ciclo ou para o secundário… continuarão a passar por mim todos os dias. A escola secundária é mesmo em frente da básica, e ali vão andar eles: mais altos, mais sérios, com mochilas que parecem malas de viagem, mas ainda com aquele brilho no olhar de quem, há pouco tempo, ainda pedia para tocar triângulo “porque é mais fácil”.
Já sei os ritmos, os rostos e, claro, as sopas da cantina. Todas excelentes. À quinta-feira, por exemplo, é a imperdível sopa de peixe, um clássico que já deveria ter estatuto de património alimentar da escola.
E lá está também a velha guitarra da escola. Aquela companheira que já sobreviveu a afinações apressadas, palhetas desaparecidas e alunos que pensam que “sol maior” é uma coisa que se apanha na praia. Não é uma guitarra de luxo, mas dá luta e, mais importante, ainda me dá “pica”. É com ela que se criam momentos, alguns quase musicais, outros apenas divertidos, e todos absolutamente genuínos.
É estranho, bonito, e inesperadamente reconfortante. Ver os alunos a crescerem, a mudarem, a construírem-se, e eu ali… sempre por perto. Como um marco. Ou como aquela cadeira que já ninguém tira da sala porque faz parte da paisagem e que, apesar de ter um parafuso solto, ainda cumpre bem a sua função.
De vez em quando, um passará por mim, sorrirá e dirá: “Olha, o prof de Música… ainda cá anda.”
Pois ando. E ainda bem. Porque, ao fim de bem mais de vinte anos, descobri que ficar pode ser tão marcante como começar.




3 comentários
Pois eu descobri que ficar pode ser muito mau. Estive na mesma escola quase 10 anos. E depois de muita pancada, finalmente saí. Os concursos devem existir todos os anos. Estar numa escola para sofrer nunca mais.
Devemos poder mudar.
É o mais saudável para a escola e, sobretudo, para nós.
Concordo consigo! O problema está precisamente no “abuso de poder” existente nas escolas e nos lobbies (colegas intocáveis, ainda que uma nulidade)… Daí eu defender eleições para os Diretores (mandato nunca superior a 2 anos e a ser rotativo) cujo peso na eleição seja de 90% validada apenas por professores, 5% do pessoal não docente e restantes 5% dos alunos. Na Terra NÃO HÁ DEUSES! Nós não podemos compactuar com essas situações deploráveis. Há sempre que consiga contornar a Lei e fugir por entre os pingos da chuva, deixando muitos professores com problemas ao nível da saúde mental! BASTA de lambões! Há que mudar o sistema instaurado!
nos próximos anos vais descobrir o lado lunar de ficar e depois o lado solar de sair…