Redução Que Não Reduz: Deixem-nos Jogar

A redução da componente letiva prevista no artigo 79.º do Estatuto da Carreira Docente deveria ser, em teoria, um justo reconhecimento pelo desgaste acumulado ao longo dos anos. Um prémio, sim — mas um prémio que libertasse verdadeiramente tempo. No entanto, na prática, o que me foi aplicado está longe de ser uma redução: foi apenas uma substituição. Retiraram-me tempo de sala de aula, onde me realizo e sou mais útil, para me atribuírem tarefas de outra natureza, fora da minha área e muitas vezes desligadas da vertente pedagógica.
Aquilo que me deram, chamando-lhe “redução”, foi apenas mais uma forma de redistribuição. Em vez de estar com os alunos, fui deslocado para tutorias e tarefas administrativas. E se é para continuar a cumprir o mesmo número de horas na escola — mas afastado da docência — então prefiro, com toda a sinceridade, que não me deem essa “redução”. Prefiro continuar a dar aulas. Prefiro a fadiga de uma aula bem dada ao vazio das tarefas que não me dizem nada.
Foi para explicar esta frustração que recorri à metáfora do futebol. Porque, no fundo, o que sinto é que fui tirado do relvado e mandado para o bar, com um ar de favor institucional, como quem diz: “Isto é um direito teu!”. Mas, na prática, esse “direito” veio com sabor a castigo. E o que me apetece dizer é: deixem-me jogar.
Há jogadores que, ao chegar aos 50, ainda respiram futebol. Sabem o relvado de cor, pressentem o jogo antes de ele acontecer e têm aquela calma de quem já viu todos os cantos do campo. São úteis, experientes, apaixonados. Mas há uma regra, inscrita em ata, que dita outra coisa. Um artigo, o 79.º, aplicado com zelo e sem apelo.
Diz a regra que é altura de reduzir o tempo em campo. Menos minutos, menos esforço. Uma espécie de prémio. Não por um grande golo, nem por uma assistência decisiva, mas por se ter resistido ao desgaste do calendário. E então, em vez de tocarem na bola, os veteranos são colocados noutras funções. Nada contra a logística — o bar precisa de alguém que tire bicas com mestria — mas talvez não seja isso que o camisola 10 sonhava quando calçava as chuteiras todos os domingos.
Na verdade, ninguém lhe perguntou se ainda queria jogar. Tiraram-no de campo com um sorriso institucional e disseram-lhe: “Isto é um direito teu!” Um direito que não se pode recusar. Como aquelas chicotadas matinais que alguém, um iluminado qualquer, decide que são ótimas para a saúde. E quando se diz “não quero”, respondem: “Mas isto é um direito!” E lá vai o veterano, de volta ao bar, a servir cafés e a ver o jogo pela televisão do balcão.
No mundo da Educação, o relvado é a sala de aula. O jogo é o contacto com os alunos. E há professores que ainda vibram com o apito inicial, que entram em cada aula como se fosse um dérbi. Mas o artigo 79.º, esse substituto automático, tira-lhes a bola e dá-lhes reuniões, tutorias, apoios, vigilâncias e o equivalente burocrático a tirar cafés para o corpo técnico.
O mais estranho é que, ao comentar isto com colegas, poucos percebem. Parece que a maioria já prefere o banco. Ou o bar. Ou a bancada VIP. Tudo menos jogar. E isso, mais do que a regra, é o que dói. Ver que se perdeu o gosto pelo jogo, como se dar aulas fosse um suplício do qual se foge com qualquer papel assinado.
Mas há quem ainda queira entrar em campo. Mesmo com as pernas a protestar, mesmo que o regulamento diga o contrário. Porque há paixões que não se metem em prateleiras, nem se reformam por decreto. Há professores que querem continuar a jogar.
E talvez esteja na altura de os deixarem jogar.
Texto enviado por Pedro Alexandre Franco

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13 comentários

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    • Prof. Azedo on 14 de Maio de 2025 at 20:04
    • Responder

    Preso por ter cão, preso por não ter.
    Com testemunhos deste calibre, qualquer dia, até isto nos tiram. A malta sente-se bem é a reclamar, a verborreia não conhece limites, a falta de noção não tem limites… Aliás, este CR7 do Ensino é o verdadeiro artista… Um jogador caduco, com ideia pré-feitas, preconceitos, ensimesmado e com um argumentário pobre.
    Que continue a tirar bons cafés!

    • Agnelo on 14 de Maio de 2025 at 20:08
    • Responder

    Foi o PS, com Maria de Lurdes Rodrigues, que introduziu esta alteração.
    No entanto, o problema radica num fenómeno muito mais antigo, e, que, na altura foi muito celebrado pelos sindicatos: a aprovação do ECD!!!
    E o que está no ECD?
    Que os professores trabalham 35 horas por semana!
    E isto é que é o problema. As 35 horas.
    Quando comecei a lecionar, em 1975, dava as minhas 22 horas e mais nada. Nem reuniões havia. Era uma beleza.
    Depois… vieram os sindicatos e lixaram tudo.
    Portanto, não se queixem…

    1. Faço minhas as suas palavras, o PS e os sindicatos criaram o caos na educação. Imperdoável.

    2. Ó Agnelo
      Só uma questão: ainda lecionas na escola?
      Como começaste em 1975…
      Ou és um aldrabão que te foge a boca sempre da verdade?

    • Carla C. on 14 de Maio de 2025 at 20:09
    • Responder

    O artigo 79 devia ser uma real redução…
    Aplaudo o texto!

  1. Dever-se-ia deixar o docente escolher se deseja, ou não, benefeciar do 79 nestes termos. Conheço muitos colegas, para além da minha pessoa, que prefeririam dar aulas. [Não é em Portugal que existe falta de professores a e alunos sem aulas…?]

      • Mainada on 14 de Maio de 2025 at 22:51
      • Responder

      O 79 deveria corresponder a uma redução efetiva. Infelizmente vai para apoios que se estendem a turmas inteiras, o que é ilegal visto que legalmente não poderiam ser a mais do que um aluno. O país da balda à solta, mesmo dentro do atual ECD… Se quer dar aulas, dê, mas não chateie os colegas.

    • zéi tóxico on 15 de Maio de 2025 at 8:43
    • Responder

    79 ou 69?

    Ré_tor(o) manda chuva dá benesses aos lambe cus mais novos e F… os mais velhos. Assim se vê a força da escumalha que tomou de assalto a Escola.

  2. Antigamente o artigo 79 não obrigava a estar na escola. Isso sim é redução.
    Aliás este artigo foi legislado originalmente para poupar desgaste de sala da aula. Em que 4h de sala equivale a 8 de um trabalho normal administrativo.

    Artistas destes … tipo o autor do artigo são aventesmas que se armam ao pingarelho. Quer dar mais aulas concorra para uma escola privada dos neoliberais…

    Em vez de a sociedade evoluir para semanas de trabalho de 4 dias , temos artistas destes a exaltar pela sala de aula.

    Vai-te catar pá

    • Zé das Couves on 15 de Maio de 2025 at 11:38
    • Responder

    Ministério da Lavagem Cerebral

    • mario silva on 15 de Maio de 2025 at 22:14
    • Responder

    O 79 não tem efetividade: em muitas disciplinas corresponde a ter menos uma turma apenas. Além disso, as horas são ocupadas com tarefas não letivas que absorvem tempo para trabalho pedagógico e didático. O 79 devia ser integralmente adstrito à componente não letiva de trabalho individual, como era no ECD pré-2005.

    • Canguru obnóxio on 16 de Maio de 2025 at 9:25
    • Responder

    O trabalho liberta deduz-se destacargumentação

    • Idalina Silva on 17 de Maio de 2025 at 19:31
    • Responder

    E isto acontece aos 60 anos para quem tem monodocência. A idade rica em sabedoria mas também com muitos e muitos anos de docência em cima do lombo e que poucos superiores hierárquicos respeitam por esse pais fora ou alguns mais conscientes do desgaste da idade são capazes de dizer ” Não, estes meus professores e educadores precisam de uma pausa para descansar e ficam um dia em casa por semana. Não lhe vamos tirar o direito a que chegaram por mérito”. Haja coragem para tal e senhores do ME e dos sindicatos acabem de vez com esta injustiça.
    Um desabafo

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