Num tempo em que alguns apontam o dedo ao que chamo “as peripécias” dos que ocupam os corredores da gestão escolar, impõe-se uma pergunta que ressoa com particular gravidade: quem quer, hoje, ser diretor escolar?
Concordo com grande parte do diagnóstico traçado no artigo ( https://www.publico.pt/2025/04/18/opiniao/opiniao/pais-desistiu-professor-abriu-portas-tiranetes-2130196 ) recentemente publicado no Público, pelo meu colega Paulo Prudêncio. Num tom crítico e preocupado, ele defende que o nosso país (eu diria antes a generalidade dos nossos políticos) abandonou os professores, tanto do ponto de vista institucional como simbólico. Durante décadas, foi-lhes retirada autoridade, ao mesmo tempo que se lhes impunham cada vez mais tarefas burocráticas e responsabilidades que extravasam o ensino. Esta “desistência” abriu espaço a uma série de figuras que o autor apelida de “tiranetes”, que interferem de forma autoritária e despropositada no funcionamento das escolas, contribuindo (também) para a desvalorização do papel do professor.
O texto aponta ainda para algo que merece reflexão: a captura do sistema educativo pelos partidos políticos. Trata-se de uma crítica que tem vindo a ganhar maior eco (apesar de não ser nova), e que se materializa na presença crescente de lógicas e lealdades partidárias nas estruturas intermédias e de gestão do sistema escolar. A escola pública, enquanto espaço plural e democrático, deve estar protegida desses constrangimentos externos. A defesa da autonomia profissional dos docente e da independência das escolas face a agendas político-partidárias é essencial para a sua credibilidade.
Contudo, e embora reconheça a enorme pertinência desta análise, discordo que o problema resida apenas – ou sobretudo – no atual modelo de gestão. Ele deve ser mudado, é uma facto. A limitação de mandatos faz todo o sentido, e o regresso a um modelo colegial é indiscutivelmente desejável. Mas convém não esquecer que muitos dos chamados “tiranetes” de hoje já estavam à frente das escolas no modelo anterior. E isto tem uma explicação simples: não são os modelos que erram – erram as pessoas que ocupam os cargos. O risco de autoritarismo, de afastamento da missão pedagógica e de abuso de poder, já existia antes do atual modelo e não desaparecerá apenas com uma mudança estrutural.
Além disso, importa dizer que não é clara nem conhecida a real dimensão dessa alegada “partidarização” da vida escolar. Não existem estudos consistentes e representativos que demonstrem, de forma inequívoca, que as escolas se transformaram em ambientes regidos por hierarquias partidárias ou por uma cultura de tirania institucionalizada. Conhecem-se, sim, diversos casos de abusos – e é inegável a sua existência – mas qual será a sua representatividade no universo escolar? Esta é uma questão que exige mais investigação e menos generalização. O risco de extrapolação pode comprometer a compreensão justa do sistema.
O que nos deve inquietar, no meu entender, é algo mais profundo: o “silêncio” que se instala sempre que se abre um concurso para diretor. O que verdadeiramente preocupa-me é o desinteresse, quase generalizado, dos professores em assumir essa função – apesar de ser compreensível que assim seja. Foram décadas seguidas de políticas que contribuíram para o desprestígio social e profissional, que provocaram um compreensível desânimo e cansaço na classe docente. Mais, ser diretor, atualmente, é estar sobrecarregado com tarefas que pouco têm a ver com a vertente pedagógica; é ocupar um cargo de enorme responsabilidade, sob o olhar desconfiado de muitos e com uma remuneração que roça o desrespeito. A função perdeu o brilho e, com ele, perdeu quem ainda a podia dignificar.
E é precisamente aí que reside o perigo. Quando os mais capazes desistem, outros avançam – e nem sempre movidos pelas melhores intenções. Não é apenas o modelo que abre portas aos tais “tiranetes”: é a nossa ausência, a nossa desistência. Sempre que um professor competente recua, cede espaço a quem procura poder, e não servir.
É, por isso, urgente resgatar o papel de quem lidera uma escola ou agrupamento. Não para o manter tal como está, mas para o transformar. Com menos tarefas administrativas e maior enfoque pedagógico. Com uma remuneração condigna. Com apoios. Com tempo. E com a devida valorização.
A escola pública merece mais. Muito mais. Merece lideranças pedagógicas, comprometidas e legitimadas pelos seus pares. Mas para que isso aconteça, não basta alterar o modelo de gestão: é essencial que os professores voltem a acreditar que vale a pena assumir esse papel. E, para isso, é preciso mudar as condições e o reconhecimento. Porque só quando os mais capazes quiserem liderar, é que a nossa escola poderá verdadeiramente avançar.




16 comentários
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Há quem tente, incluindo eu, mas o sistema utilizado para a eleição não permite que lá cheguemos.
Há quem concorde com o que diretores domo Filinto Lima fizeram. Para isso, mais-valia eternizá-los nas suas atuais escolas.
Eu discordo e assumo a minha posição. SE não posso aqui, também não devia poder ali.
E situações como a que aconteceu em Paredes, são uma vergonha para as escolas públicas e respetivos conselhos gerais.
É preciso ética, valores, rigor. Coisas raras nos nossos Concelhos Gerais.
Fica o desabafo, pois sei que não vou mudar o mundo.
Fiquem bem.
Meu caro, não o conheço e até podw ser bia pessoa.
O meu conselho é que não o faça.
Neste país só vai para diretir quem é mal-formado, sacana e fdp.
Não conheço nenhum (e conheci dezenas) que assim não o fosse.
Gente de compadrios, aldrabices, golpes baixos aos colegas e alguns que até metem a mão na massa.
Alguns fazem de tudo para prejudicar os colegas, sobretudo os que mais trabalham e trabalham a sério com os alunos.
A Escola Pública está entregue aos amigos dos políticos e os colégios privados aos graxistas de serviço.
A Educação está a colapsar por dentro. Agradeçam à Maria de Lurdes Rodrigues e aos pulhas que se seguiram até agora. Agradeçam também aos sacanas que transformaram os colégios em fábricas de fazer dinheiro.
O futuro é uma distopia. E já começou.
POWER+ MONEY=TRUMPAS
Money is the goal 3000 Eurápios and to mutch power to carrascos da educação.
Será difícil haver diretores com ética, quando a maior parte dos professores não a tem.
Digo-o honestamente, porque o que tenho visto é vergonhoso. Especialmente daqueles que chegam à profissção vindos de empresas ou que estiveram até há poucos anos em empresas. São uma lástima eticamente.
Sem valores não há professores. O que há é artistas. E isso não falta no sistema e cada vez a aumentarem mais.
Não se pense que é só no público. Também no privado aparecem cada vez mais destes e destas.
A Educação em Portugal está uma lástima. E a tendência é piorar.
O resultado será visto em poucos anos.
Os diretores são os lambe-botas do sistema educativo por excelência. Lambem as botas aos diretores regionais, aos secretários de estado e aos ministros.
Basta ver onde esta gentalha política vai, para aparecer na televisão. Vejam onde têm ido mais, desde a sinistra Milú.
Há escolas onde estão lá sempre, independentemente do partido que está no poder.
É onde os diretores mais fazem show-off. É onde se calam perante os problemas, não dizendo as dificuldades reais.
É onde a fantasia prevalece sobre a realidade. e onde tudo se finge para fazer ver que está tudo bem.
Abram os olhos.
“ Mas convém não esquecer que muitos dos chamados “tiranetes” de hoje já estavam à frente das escolas no modelo anterior. E isto tem uma explicação simples: não são os modelos que erram…”
ERRADO, caro Maurício, e você sabe. Ficaram assim desde que DEIXARAM de ser escrutinados democraticamente.
Quanto à interferência partidária nas escolas, é óbvia, e cada vez maior. Você também sabe…
No seu todo, o post parece uma tentativa de fazer a quadratura do círculo! Agradar aos professores e ao Filinto (isso é inconciliável). Por que será???
Porque também o postador sabe que se passa assim.
Este modelo veio introduzir a política nas escolas, com as relações tóxicas que as autarquias (o mais corrupto que existe neste país) tem a entrar pela porta das escolas dentro.
E juntamente com isto, as associações de pais com os seus interesses mesquinhos e nada pedagógicos.
Tudo isto rebentou com a Escola Democrática que hoje é apenas uma fantasia como tantas outras que se falam, mas que, na realidade, já não existem.
A Democracia constrói-se
A Inclusão Responsabiliza todos e cada um
A politiquice subverte tudo, e os pequenos e mesquinhos destroem com falsidades e facilitimos
Muito bom!👏👏👏
o miguel gonçalves também dizia que era preciso bater punho
Era ele e o Joaquim Barreiros.
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Ui tantos é tipo droga o vício de mandar show me the power.
Há sempre alguém que defende os tiranetes. Quando não têm as características éticas nem morais minímamente exigivéis para o cargo que ocupam, valem-se dos pequenos poderes que o Estatuto Institucional confere ao referido papél tornando-se, então, “proprietários” de pequenas quintas, que, afinal, são propriedade de todos nós.
O mais grave é que estão em plena consonância uns com os outros, pois são farinha do mesmo saco. Refiro-me como já devem ter percebido a alguns diretores de escola : feios, porcos e maus, adequados a um filme que todos bem conhecemos. Não servem a ESCOLA, não servem os alunos e não servem o País.
Simplesmente, lamentável. Mas continuam…
Tenho 56 anos a caminho dos 57 anos. Presentemente estou dispensado da componente letiva e tenho um atestado de incapacidade multiusos permanente de 62%. Para além da licenciatura e de um mestrado pré-bolonha, tenho um pós graduação com especialização em Gestão e Administração de Estabelecimentos de Ensino, o que está reconhecido e acreditado na área da Administração Escolar e Educacional desde 2004. Tudo fizeram para que nunca viesse a fazer parte de direções escolares ou de outros serviços do ministério da educação, que era ao tempo meu desejo de progressão profissional. Tentaram me assassinar, caluniaram-me entre escolas, tentaram assaltar a minha residência, fizeram-me perseguições em plena autoestrada e chegaram ao ponto de me arquitetarem um processo disciplinar falso para que fosse suspenso e assim nunca pudesse concorrer a um cargo numa direção. Isto é a mais pura verdade e só sinto ódio dentro de mim, por esta profissão e pelos canalhas que continuam impunes. A minha esposa tem sofrido na pele situação idêntica e até o meu filho foi vítima de trauma emoci0nal e psicológico no pré-escolar a mando de uma subdiretora de uma agrupamento de escolas do Porto. Não existe justiça, a polícia é amiga dos criminosos e a lei tem demasiados buracos que deixam ao critério de cada um fazer como quer. Portugal não é um estado de direito e muito menos aquilo que pensamos de uma democracia (liberdade, igualdade, fraternidade), não, é apenas o reino do medo e da impunudade onde apenas o ódio se vai acumulando dia após dia até um dia…