Há momentos em que a sociedade, perante um problema complexo, procura uma explicação simples. É, quase sempre, mais fácil encontrar um culpado do que compreender as causas e encontrar soluções.
É exatamente o que parece estar a acontecer com os professores.
Perante a falta de docentes, o envelhecimento da classe, as dificuldades de recrutamento e a crescente incapacidade de preencher horários, vai ganhando espaço uma narrativa perigosa, a de que o problema estará nos próprios professores.
Professores que faltam, estão cansados, adoecem e que já não têm a mesma disponibilidade de outros tempos.
Mas será assim tão simples?
Será que estamos perante uma profissão que deixou de querer trabalhar ou perante uma profissão que foi, durante anos, perdendo as condições para trabalhar?
Há uma diferença enorme entre estas duas coisas.
Um professor não deixa de ser profissional porque está cansado. Não deixa de ter sentido de responsabilidade porque está doente. Não deixa de gostar dos seus alunos porque, em determinado momento, já não consegue suportar física ou emocionalmente aquilo que lhe é exigido.
Talvez seja importante dizer aquilo que nem sempre se quer ouvir,
as pessoas não adoecem apenas porque querem.
Há professores que enfrentam efetivamente graves problemas de saúde, como tantos outros cidadãos. Há professores desgastados por décadas de profissão. Há professores submetidos a uma enorme pressão. Há quem viva diariamente com cargas de trabalho difíceis de conciliar com a vida pessoal e familiar. Há quem enfrente ambientes profissionais tóxicos, conflitos, falta de reconhecimento ou lideranças que, em vez de unir, dividem.
Há uma realidade particularmente importante, a escola pode ser um lugar extraordinário quando existe uma liderança que sabe liderar.
Um diretor que respeita e ouve, que não confunde autoridade com autoritarismo. Que não favorece uns nem penaliza outros.
Que aceita a divergência e responsabiliza sem humilhar. Aquele
que reconhece o trabalho de quem todos os dias dá o seu melhor. Numa escola assim, é muito mais fácil um professor sentir-se valorizado, motivado e comprometido.
Infelizmente, nem todas as escolas conseguem proporcionar esse ambiente.
E quando juntamos a isso horários difíceis, burocracia crescente, falta de recursos, turmas complexas, responsabilidades acrescidas e uma carreira que durante anos perdeu atratividade, talvez a pergunta devesse ser outra:
O que estamos a fazer aos professores?
Porque é demasiado fácil olhar para o resultado e ignorar o processo.
É fácil dizer que faltam professores.
Muito mais difícil é perguntar porque é que os jovens não escolhem esta profissão como escolhiam no passado.
É fácil lamentar que os professores abandonem a carreira.
Muito mais difícil é perguntar o que fizemos para que aqueles que nela permanecem queiram continuar.
É fácil falar de absentismo.
Muito mais difícil é olhar para uma classe profissional envelhecida, desgastada e desvalorizada, bem como perceber que, quando as pessoas chegam ao limite, alguma coisa falhou muito antes de aparecer uma baixa médica.
E mesmo que, por absurdo, nenhum professor adoecesse, o problema estrutural continuaria lá.
Continuariam a faltar professores em determinadas áreas. Continuaria a existir dificuldade em atrair novos profissionais. Continuaria a existir uma carreira que precisa de ser valorizada e uma profissão que precisa de recuperar o reconhecimento social que já teve.
Não se resolve uma crise estrutural culpabilizando quem nela trabalha.
Resolve-se tornando a profissão novamente atrativa, com melhores condições de trabalho, respeito, estabilidade, liderança democrática, reconhecimento profissional, valorização da carreira e salários compatíveis com a responsabilidade e exigência da profissão…
Um professor valorizado não é apenas um professor mais satisfeito, é um professor que permanece, se entrega e recomenda a profissão. A valorização sobretudo é a condição fundamental para que os nossos jovens queiram ser professores amanhã.
Talvez esteja na altura de deixarmos de perguntar, o que há de errado com os professores e começarmos a perguntar:
O que é que estamos a fazer de errado com a profissão docente?
A resposta a esta pergunta talvez explique muito melhor a crise que hoje atravessa a Educação…
Pode-se adiar o investimento na Educação, mas nenhum país pode escapar às consequências de não o fazer. Porque antes de haver médicos, engenheiros, cientistas ou governantes, houve sempre um professor.
José Pereira da Silva




