Há muitos anos que os professores sabem uma coisa que raramente dizem em voz alta, ao fim de algum tempo de carreira, ensinam menos as crianças do que educam os pais. Não por vocação. Por necessidade.
As “espécies”, como lhes chama o professor Ernesto com a ironia cansada de quem já passou pelo jardim de infância, pelo primeiro ciclo e por duas direções de turma no básico, dividem-se em famílias bem definidas.
Há os Interessados Totais, aqueles que comparecem a todas as reuniões, que sublinham o caderno de recados com caneta vermelha, que enviam emails às onze da noite a perguntar se o filho se portou bem. São bons pais, ou querem sê-lo tanto que às vezes sufocam o filho sem perceber.
Há os Desaparecidos. Esses nunca vêm. O número de telefone está sempre desligado. A morada no processo é de há três anos. A criança chegou em setembro com o cabelo por lavar e uma mochila rasgada, e ninguém perguntou nada. Ernesto já os conhece pelo silêncio. É o silêncio mais barulhento que existe numa escola.
Há os Delegados Permanentes, os que delegam tudo: a alimentação na cantina, a socialização no intervalo, a moralidade nos professores. Chegam ao fim do ano convictos de que cumpriram o seu papel de pais porque pagaram as propinas do ATL e assinaram as autorizações.
E há, cada vez em maior número, os Advogados dos Filhos. Esses são os mais difíceis. Não vêm à escola para perceber, vêm para contestar. Cada nota é uma injustiça. Cada chamada de atenção é um trauma potencial. Cada professor que ousa dizer “não” é um adversário a abater.
O professor Ernesto tem uma teoria, estas espécies não existiram sempre assim. Foram-se formando. Foram sendo criadas, pelo tempo, pelas circunstâncias, por uma sociedade que, progressivamente, foi dizendo aos pais que o amor se mede pela ausência de limites.
E as crianças cresceram.



