Há momentos na vida de uma profissão em que é preciso olhar ao espelho. Não para ver as rugas do tempo, nem o cansaço acumulado de anos a dar mais do que se tem. Mas para ver o que, como classe, nos tornámos. E a imagem que hoje devolvemos ao país é dura, desconfortável e, sobretudo, injusta para aquilo que poderíamos ser.
Enquanto continuarmos a fingir que não vemos, nada mudará.
Enquanto continuarmos a aceitar em silêncio, nada mudará.
Enquanto continuarmos a esperar que outros façam por nós, nada mudará.
A triste verdade é esta: o governo faz o que quer porque sabe exatamente quem tem à frente. Uma classe grande, mas desunida. Qualificada, mas silenciosa. Indignada, mas acomodada. Capaz de exigir justiça, mas com medo de pagar o preço da coragem.
Durante demasiado tempo ficámos sentados no sofá, a comentar, a desabafar, a lamentar. Até temos a ousadia de dizer que já não vale a pena. Mas vale, sempre vale! O que não vale é a pena de nos continuarmos a resignar. Porque enquanto nos resignamos, o governo avança. E avança porque conhece a nossa fragilidade coletiva. Sabe que somos muitos, mas também sabe que estamos divididos. Sabe que temos força, mas também sabe que raramente a usamos.
E não pensamos apenas no governo. Há um outro dedo, tão silencioso quanto eficaz, que pesa sobre nós: o de algumas direções escolares. Um dedo que aponta, que controla, que vigia. Um dedo que amedronta e condiciona. Há colegas que já nem ousam dizer o que pensam. Há professores que evitam contrariar uma decisão injusta. Há quem se cale mesmo quando sabe que deveria falar. E porquê? Porque teme a avaliação, o rótulo, a marca. Teme a represália que nunca é assumida, mas que todos conhecem.
E eu pergunto: onde está o espírito crítico que ensinamos aos nossos alunos?
Onde está o exemplo de cidadania que queremos que eles sigam?
Onde está o professor livre, autónomo e pensador que a escola pública diz defender?
Quando uma classe inteira escolhe o silêncio para evitar aborrecimentos, não estamos apenas a perder direitos. Estamos a perder a alma da profissão.
Somos educadores. Não somos figurantes de um sistema.
Somos profissionais. Não somos súbditos de ninguém.
Somos voz. Não somos eco.
E por isso, não podemos continuar eternamente à espera que alguém resolva. Não podemos aceitar as migalhas como se fossem um banquete. Não podemos continuar a achar que estar do lado certo dá trabalho, complica ou fica mal na fotografia. Complica sim. Dá trabalho sim. Mas a dignidade nunca se conquistou sem esforço.
Que futuro estamos a construir assim?
Que mensagem estamos a passar?
Como podemos ensinar coragem se nós próprios temos medo?
Como podemos ensinar justiça se aceitamos a injustiça quando nos chega às mãos?
A questão deixou há muito de ser o que o governo nos faz.
A questão agora é: até quando vamos permitir?
A hora é de despertar.
Despertar mesmo. Sem desculpas, sem receios, sem sombras de silêncio.
É hora de levantar a cabeça, unir forças e mostrar que a profissão docente não é um corpo amorfo, passivo e obediente. É uma classe de cidadãos pensantes, livres e com uma responsabilidade social enorme.
A verdade é simples: a dignidade não se pede.
A dignidade conquista-se.
E conquista-se com união, na rua, na ação, na insistência, na convicção inabalável de que estamos do lado certo.
A história não muda com espectadores, mas com protagonistas.
E está na hora de sermos protagonistas da nossa própria história.
José Pereira da Silva




12 comentários
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Nunca li tão perfeitas verdades.
Contudo, irá ser sempre mais do mesmo…
Vamos acreditar que esta nova geração de professores possa fazer o que os “antigos” não têm tido coragem de o fazer.
Faltam-me 8 anos para a tão desejosa reforma. Não tenho esperança que a vida de um professor mude…
Resta-me desejar as maiores felicidades para a geração vindoura.
Um bem haja para quem escreveu o texto que li.
A nova geração de professores, não propriamente de idade mas de tempo de serviço, ainda é pior.
Mesquinhos, aldrabões, não querem fazer nada mas fingem que fazem muito. Os que vieram de emoresas ou do privado, desde há uns anos para cá, são uns biltres.
Salvam-se meia-dúzia que nunca serão suficientes e vão acabar por se faetar desta porcaria e desta gente.
No entanto, seria capaz de jurar que estava tudo bem! Sempre aqui venho, mal consigo respirar, com o aroma a cravos vermelhos e imprecações ao “Ventrulha”!
Caro amigo Jose pereira da Silva concordo com tudo o que diz.enquanto se andar a fazer manifes ao sabado pra nao aleijar os alunos. Enquanto se mantover o principal problema da profissao. Aquele que ninguem se atreve a falar. Os 90% para 10% tudo ficará como está.
Num universo de 300 professores só uma franja de corajosos, uns 10%, se tanto, integraram a “infantaria” das grandes convulsões de 2023/24.
Viu-se de tudo, mas a cobardia de alguns foi alarmante! Proclamavam-se os mais combativos e na hora H meteram o rabo entre as pernas e tiraram o tapete aos verdadeiros e íntegros indignados.
Depois da longa contenda, reclamaram a si os louros das conquistas.!
É hora de não pensar em desunião . Nunca houve um atentado tão grande aos direitos de quem trabalha como como hoje!
É preciso trabalhar, divulgar, esclarecer, mostrar o que muda. Só dessa forma se mexe com o desânimo!
Todos no mesmo rumo apartidariamente!
O que aí vem vai ser mesmo muito mau.
Muito bem! Já lá vão 20 anos disso que fala! Chegou ao ponto miserável em que estamos. Eu bem tenho berrado mas à minha volta só silêncio , o pantano como lhe chamo! Todos os temas são tabus!!
Por me revoltar por certas coisas já recebi as miseráveis consequências…
Mas a mim ninguém me cala com injustiças e mediocridade!!!
👏👏👏👏👏
FOI UM PROFESSOR PRIMÁRIO QUE LIMPOU O REI. MANSOS ATÉ UM DIA.
“Limpou” o Rei e até agora temos tido:
-1ª República, da Carbonária e dos assassinatos e da perseguição política, dafome e do caos.
– Estado Novo.
– Regime cleptocrático abrileiro, teatro das tesouras PS/PSD, com o maravilhoso PREC no início, Portugal sempre na cauda da Europa, Colónias entregues ao Comunismo e à guerra civil.
Trabalho há 10 anos a recibos verdes. Estou de saída com muita pena minha. Será que preciso de dizer mais alguma coisa? Dignidade, respeito, valorização são tudo valores que esperei ao longo destes anos e nada vi. Só o oposto. É o fim de um sistema, o fim de uma era. A partir daqui só burros, grosseiros, incultos e maus.