Os estudos mais diversos repetem a conclusão: os professores desesperam pelo dia da reforma e os mais jovens equacionam mudar de profissão. Identifica-se repetidamente “uma organização de trabalho que os adoece”. Mas apesar desta evidência ter quase duas décadas, não há um relatório dos serviços centrais do Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) que o detecte e nem sequer os governantes o identificam tal o grau de insensibilidade e de ineficiência.
Há “uma organização de trabalho que adoece os professores” e nada acontece
De facto, “reformam-se este ano mais 3600 professores, o segundo valor mais alto da última década,” diz o Público, e percebe-se que, em regra, a minoria privilegiada que prolonga o exercício não fez parte da maioria que foi, há muito, identificada pelos estudos do cansaço e da exaustão (números acima dos 70%). Desde 2021, e pelo menos até 2030, que o número de professores que se reforma se situa entre os 3500 e os 4000 por ano.
Acima de tudo, a burocracia não pára de crescer e é um dos flagelos identificados. Uma das componentes críticas descreve-se assim: todas as escolas e agrupamentos pagam licenças a empresas privadas para a gestão de diversas áreas, onde se incluem os dados dos alunos, da gestão pedagógica e da avaliação interna das organizações. Seria moderno e sensato que o MECI, que licencia o software e sempre que cria nova legislação que exige esses dados, indicasse às empresas a “nova” informação a obter, e a relacionar e automatizar, nas plataformas digitais. Como não o faz, as escolas e agrupamentos entram, com mais ou menos “criatividade”, numa infernal circulação de ficheiros excel e word por email. Origina o doentio lançamento de dados inúteis e a realização de reuniões de agenda repetida, cujos registos são ainda inúmeras vezes impressos e arquivados em quilómetros (literalmente) de prateleiras.
Agravou-se porque os serviços centrais do MECI impuseram, há mais de uma década, mega-agrupamentos de escolas, num modelo testado e veementemente desaconselhado já no século passado. Apesar de mal-desenhado para uma escola, os serviços centrais generalizaram-no (agrupando a eito dez, vinte ou trinta escolas das mais variadas tipologias) ampliando o fenómeno da má burocracia que sustenta a ilusão do controlo. Mas, repita-se, quem ler os relatórios dos avaliadores externos, convence-se que tudo funciona na perfeição e a tragédia parece não ter fim.




10 comentários
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É um facto incontestável!
Finalmente alguém que diz o que deve ser dito.
Os merdagrupamentos são um cancro.
pois há…os DIRETORES adoecem a escola!
As ultrapassagens, as avaliações de desempenho, os ditadores, as subidas de escalão que nunca mais chegam, os salátioa de porcaria de quem está abaixo do 8o escalão e faz o trabalho que faz, os que andam a brincar que são priveligiados face a quem trabalha ou trabalhou a sério anos e anos… isso adoece tudo.
Toda a razão! O que mais adoece é a CNL com atropelos à lei, desrespeito pelo 79, ruído, tarefas de papelada, stress a mais e até funções de limpa cus de deficientes por parte de quem não tem formação para tal! Também servir de saco de boxe para os lacaios do diretor e de alunos agressivos ou deficientes e, por vezes, tarefas de auxiliares com estes a gozar e a observar de fininho. Vale tudo para cansar e humilhar professores!
Z prioridade da acção dos professores tem que ser esta, a gestão autoritário e a regionalização/municipalização à força!. Não é a estrutura da carreira!
E fazer uma greve de uma semana? Algo ao estilo do que se faz em Espanha ou em França? Acham que não seríamos ouvidos?
É por isso que continuamos a ser um país fraco: quando aqueles que ensinam não têm coragem de dar o exemplo e mostrar, na prática, como se luta pelos direitos.
E depois o país chega a esta miséria intelectual e a este grau de corrupção…Culpa fos professores por não darem murro na mesa antes de ser tarde demais!
A indigência dos ministros de hoje é culpa nossa. Era. os nossos alunos de ontem que se habituaram a amesquinhar, copiar, aldrabar num sistema que permitimos chegar a isgo!
tal e qual
Concordo em absoluto com o que foi dito. Acrescento que uma profissão tão bonita e que era considerada um pilar da sociedade, onde o professor era respeitado por esse trabalho que fazia e faz, vê-se agora desrespeitado, ignorado, humilhado, como alguém referiu, e que só quer a reforma para se ver “livre” do desrespeito, cansaço, burocracia, parco ordenado e inúmeras mais situações. E, com muita mágoa, deixa a sua profissão que tanto gosta.