A necessária revolução silenciosa do Ensino Profissional

Há frases que não precisam de ser longas para abalar certezas. Daniela Braga, na Web Summit, atirou uma dessas pedras ao lago: “definitivamente, tudo o que envolva trabalho manual será, acredite-se ou não, muito mais valioso em remuneração na próxima década do que o trabalho intelectual.” O choque não está na previsão. Está no facto de, apesar de evidente, o país continuar a viver como se nada tivesse mudado.

Portugal insiste em olhar para o ensino profissional com o mesmo olhar cansado de sempre. Uma espécie de trilho alternativo, quase clandestino, reservado a quem não brilhou nos testes, a quem não convenceu no ensino básico, a quem o sistema empurra para a sombra. É uma teimosia cultural que nos custa caro. O país move-se devagar porque continua a acreditar que o sucesso só mora no ensino dito “regular”, enquanto despreza o valor económico e social de quem faz, constrói, repara, inova com as mãos e com o engenho.

Mas o mundo não espera pela nossa lentidão. As empresas procuram técnicos competentes, operacionais precisos, criadores que dominem processos, máquinas, ferramentas, softwares e realidades concretas. E procuram-nos com urgência. Enquanto isso, continuamos a formar milhares de jovens em vias que pouco dialogam com o futuro que os espera. Pedimos-lhes raciocínio abstrato quando o mercado pede capacidade de execução. Pedimos-lhes memorização quando o país precisa de solução.

É por isso que defender o ensino profissional, hoje, é um ato de coragem. É recusar a ideia absurda de que só o trabalho intelectual é digno e perceber que uma sociedade equilibrada precisa, tanto quanto de académicos, de técnicos altamente qualificados. É compreender que um eletromecânico pode ganhar mais do que um licenciado, que um cozinheiro talentoso pode transformar a economia local, que um programador de sistemas pode valer mais do que um currículo cheio de disciplinas teóricas. É aceitar que o mérito não se mede apenas por médias, mas também por competências, talento e utilidade social.

Valorizar o ensino profissional exige investimento real e não apenas discursos para calendário. Exige oficinas equipadas, professores especializados, estágios dignos e parcerias sólidas com empresas que não tratem os alunos como mão-de-obra barata. Exige respeito, sobretudo. Respeito por jovens que querem aprender fazendo e que merecem ser vistos como protagonistas e não como sobras de um sistema elitista.

A próxima década não será dos que acumulam papéis, mas dos que acumulam competência. Não será dos que decoram, mas dos que resolvem. E Portugal só terá futuro se for capaz de compreender isto a tempo. Defender o ensino profissional não é uma alternativa. É um imperativo. É escolher um país mais justo, mais moderno e mais preparado para enfrentar um mundo que já existe, mesmo que muitos ainda finjam não o ver.

O país tem de decidir se quer continuar a viver de ilusões ou se está finalmente disposto a reconhecer a dignidade, a inteligência e o futuro que habitam nas mãos que constroem. Porque o ensino profissional não é um plano B. É o plano certo para quem quer um país que funcione. E que avance.

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18 comentários

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    • Mic on 18 de Novembro de 2025 at 10:23
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    Muito bem!

    • Maria on 18 de Novembro de 2025 at 10:47
    • Responder

    Nada a acrescentar, tem toda a razão.

    • Dejá vu on 18 de Novembro de 2025 at 12:44
    • Responder

    Parabéns ao autor/ a. Há muito que não lia um texto tão bom sobre o ensino profissional.

    É pena que grande parte das escolas portuguesas, o desvirtuem na prática. Pois é um ótimo modelo de formação. Fui professor/ a nesse ensino durante alguns anos por escolha própria. Não receio os estigmas nem os preconceitos dos ignorantes da minha classe.

    Em vez dos psicólogos vocacionais e os Dts trabalharem as vocações dos miúdos no 9 o ano e esclarecerem os pais, a escola enfia os a todos no ensino geral de prosseguimento de estudos, porque os professores gostam mais dessa modalidade. Saindo os miúdos no final do 12o ano sem ferramentas d para enfrentar vo mundo do trabalho . Enviados aos bichos para o mercado de trabalho competitivo onde tornam mais uns trabalhadores indiferenciados explorados.
    Depois, desiludidos, emigram, claro. Para o Luxemburgo, para as limpezas, para serem ainda mais pobres que cá. E votarem Chega nas eleições.
    Caríssimos, as nossas escolas enganam os alunos. Não fazem verdadeiro despiste vocacional.
    E temos a cultura dos doutores. Burros, mas doutores.

    • Zé das Couves on 18 de Novembro de 2025 at 12:54
    • Responder

    mais um lírico que nunca abriu uma empresa e que pensa que algum empresario no seu perfeito juízo vai contratar está escvmalha que a única coisa que sabem fazer é scrol no telemóvel, como ouvi alguns empresários queixarem-se…! Deixem-se de histórias da carochinha e de dar lições de moral sobre flores … acordem para o mundo altamente competitivo que já está ai, esse é o campeonato que interessa, o resto é música para boi dormir..!!!!!

      • Luluzinha! on 18 de Novembro de 2025 at 18:38
      • Responder

      Embora não me reveja no estilo, concordo, plenamente, com o conteúdo.

    • Injustiça on 18 de Novembro de 2025 at 14:13
    • Responder

    Sou a favor de um ensino profissional de qualidade. E até vou mais longe, penso que essa opção deveria ser dada logo a partir do terceiro ciclo. Não é preciso chegar ao ensino secundário pelo ensaio regular.
    Haja coragem para apostar e apoiar o ensino profissional.

    • Lurdes on 18 de Novembro de 2025 at 16:21
    • Responder

    nos paises de onde este tipo de ensino foi inspirado no tempo da Lurdinhas, tipo Alemanha, as empresas recebem do estado para terem alunos a estagiar.

    As responsabilidades sao outras, mais rigor e durante o ano letivo 2 terços do tempo é passado nas empresas.

      • Zé das Couves on 18 de Novembro de 2025 at 17:45
      • Responder

      A Alemanha já não é exemplo para ninguém nos dias que correm… fabricas a fechar! Anda muita gente iludida e a enganar-se a si próprio com o profissional, mas não vai ser isso quem vai tirar o pé da lama da Europa, os outros blocos vem cá buscar os nossos jovens que seguem a via do regular, nem os Chineses vem para cá, anda muita gente distraída e pouco atenta aos sinais dos tempos, os Chineses deixaram de enviar os filhos para as universidades europeias e americana! Comigo não contaram, não contam e não vão contar para essas ladainhas, já era para ontem acordarem e deixarem de acreditar no pai natal!!!!!

    • TOP on 18 de Novembro de 2025 at 17:40
    • Responder

    O ensino profissional nas escolas é uma treta.
    Não têm condições para dar esses cursos.
    E preciso muita pasta para criar bons cursos profissionais.
    Nao é so cursos de papel e caneta como se vê: desporto, acao educativa, saude, vendas, multimédia, etc
    Nem as escolas têm qudros para isso…
    Passa pelas empresas e centros de formação articulados.
    As escolas estão a cair de podre….

    As escolas publicas não têm power para isso…

    • A hugo on 18 de Novembro de 2025 at 23:06
    • Responder

    Mas a propria escola desvaloriza o ensino profissional, os proprios docentes…a propria entidade que rege o ensino profissional é o IEFP…o ensino profissional espanha egerido totalemnte pelo um setor à parte do ministerio da educação. Não existe qualquer tipo de credibilidade no ensino técnico, visto ainda como uma área para ser frequentado por alunos com menos capacidades….e o ensino técnico é mais exigente por vezes, que o ensino regular. Derivado a ter a componete técnica e intelectual.

    • CM on 19 de Novembro de 2025 at 11:07
    • Responder

    Top!!

    • L on 19 de Novembro de 2025 at 12:31
    • Responder

    Tem é de voltar as oficinas e o campo. Há que os ensinar cedo!

    • Mainada on 19 de Novembro de 2025 at 16:31
    • Responder

    Vê-se mesmo que nunca “ensinaste” cursos profissionais. Ou isso ou “ensinas” demais e estás a defender a tua dama. Numa palavra, a maioria dos alunos dos profissionais são calaceiros e arruaceiros de baixo nível e não os iria querer nuna empresa minha.

    • Dejá vu on 19 de Novembro de 2025 at 18:11
    • Responder

    Realmente as pessoas têm experiências diferentes. O país é grande.
    Quem dera que muitos alunos do ensino dito regular tivessem as qualidade humanas e técnicas dos alunos do ensino profissional .
    Cambada de gente retrógrada e escolástica.
    Vocês gostariam de ensinar ainda como nos conventos. Do alto do púlpito.

      • Mainada on 20 de Novembro de 2025 at 22:56
      • Responder

      Ah ah! Espero que não estejas a falar da gunada delinquentada, cujo verdadeiro lugar seria em Custóias (sem desprimor para os presos “normais”)! Quando um deles te mandar para o caralho ou te der um sopapo ou mesmo uma facada, quero ver essa conversa toda sobre excelentes qualidades humanas…

    • Pombo branco on 24 de Novembro de 2025 at 22:54
    • Responder

    Todos os comentadores têm experiências do ensino profissional como formadores, empresários, argumentitas ou encenadores. Devem ter tido experiências demasiado más para estarem tão pessimistas. Já pensaram, anslisaram ou aferiram que os meninos do ensino regular não são em nada diferentes dos alunos do EP. Ai, ai…

    • Manuela on 23 de Dezembro de 2025 at 9:17
    • Responder

    Talvez o país devesse apostar na formação de caracteres no ensino básico. É importante preparar os terrenos onde construir… e aí sim concordo com o que foi dito. Mas não esqueçamos que um profissional de excelência ou um verdadeiro mestre, não reúne apenas competências, mas valore é visão holística.. ..

      • Manuela on 23 de Dezembro de 2025 at 9:20
      • Responder

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