A figura do professor sofreu uma desvalorização social enorme. Todos se lembrarão da imagem do professor preguiçoso, que trabalha pouco e falta muito, divulgada por uma ministra que, a reboque de tal imagem, retirou direitos aos docentes, aumentou-lhes o horário de trabalho e a carga burocrática.
Todos ouvem anualmente, nas notícias, o drama que vivem muitos professores, que chegam aos 50 anos de idade sem garantia de trabalho e sem estabilidade familiar, com a casa às costas de ano para ano ou de mês para mês. Atrás vem o drama dos filhos: a escola que vão frequentar, com quem ficam. Vem o drama da economia familiar: o baixo ordenado derretido nas viagens e, eventualmente, no aluguer de um alojamento.
E as diversas e indefinidas componentes do horário, cuja definição os professores têm vindo a exigir sem que a tutela lhes dê ouvidos? Falarei só da componente letiva e da não letiva. Esperar-se-ia que da não letiva estivessem excluídas as atividades com alunos, como, por exemplo, apoios individualizados, aulas de apoio ao estudo ou coadjuvação em sala de aula, mas tal não acontece. E assim, de forma mascarada, aumenta-se o horário de trabalho dos docentes e o seu consequente desgaste e diminui-se artificialmente a “necessidade” de contratação de novos professores.Impensável é também o que se perspetiva no Orçamento de Estado em discussão: a função pública terá as suas carreiras descongeladas no próximo mês de janeiro, após mais de nove anos de congelamento, sendo o tempo de congelamento contado para progressão com mecanismos de faseamento. Deste processo estão excluídos os docentes, a quem está destinado o apagamento de nove anos da sua vida profissional, com a perda salarial que tal implica. Dizem os responsáveis governamentais que tal sucede por a sua progressão se fazer apenas por tempo de serviço. Contudo, os professores só podem mudar de escalão se, cumulativamente, obtiverem Bom, no mínimo, na avaliação a que são sujeitos obrigatoriamente, e se tiverem frequentado, com sucesso, um mínimo de 50 horas de formação.
Já vai longa a lista de “contras” na hora de tomar a decisão de ser professor. Perante este caldeirão fumegante, os pretendentes afastam-se assustados. De resto, já não conseguindo a profissão docente mostrar-se tão sedutora como a Carochinha da nossa história, revela-se, no entanto, igualmente inatingível, rejeitando aqueles que a ela querem aceder. O último relatório Perfil do Docente, do Ministério da Educação, mostrava que, num universo de 104 386 docentes da escola pública, em 2015/2016, apenas 383 tinham menos de 30 anos. No 2.º ciclo de escolaridade, por exemplo, 48% dos docentes tinham 50 anos de idade ou mais e 34,6% estavam na casa dos quarenta. Quantas histórias de emprego precário e mal pago e de vida pessoal e familiar instável se encontram nos docentes que vivem os seus “quarenta”! (…)
Nov 12 2017
Armanda Zenhas – Quem quer ser professor?
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7 comentários
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Por incrível que se possa conceber existem colegas que, neste momento, ainda não se aperceberam nem tomaram consciência dos prejuízos que estão a ser infringidos nas suas vidas e carreiras, tanto a nível económico como profissional.
Só posso concluir que, até mesmo esses, estão bem na vida.
Deixem-se comer, até todos serem entubados.
País de gentinha miserável.
Revejo-me claramente no artigo.
Para que querem os jovens o ensino?
Tenho um filho que acabou o curso de engenharia há um ano e já ganha mais de 2000 euros por mês, efetivo, logo com estabilidade, e em Portugal…
Para não falar das condições de trabalho, que no caso passa por ter um ginásio na empresa, para além de outras condições.
Quando é que um professor pode sonhar com estas condições?
Hoje só vai para a docência quem tira cursos sem saída ou não é ambicioso.
Os mais velhos foram e continuam a ser enganados pela corja dos políticos e agora não têm outro remédio senão aguentar…
Esse filho é um sortudo.
Sou engenheiro eletrotecnico e valores desses só quem exerce funções de chefia. A minha empresa até paga acima do valor de mercado.
Pois ele tb é engenheiro Eletrotécnico e de computadores da FEUP e trabalha numa multinacional para onde entrou sem cunha.
Com o SR passa dos 2000 (ilíquidos claro) e ainda tem seguro de saúde.
De facto acho que ele é um sortudo…mas fico muito feliz por ele.
Só queria dizer que é raro. Os salários dos recém formados em engenharia, em Portugal, andam entre os 800 e os 1300 ilíquidos. Excluindo os casos absurdos de exploração. E há engenheiros que preferem ir para o sistema de ensino, recebendo como técnicos, a trabalhar no privado.
Sempre irão haver professores.
Contudo, a médio prazo haverão professores de primeira e professores de segunda.
O que me parece é que, no futuro, os professores do Estado passarão a ser os professores de segunda, para onde ninguém, com o mínimo de ambição, pretende fazer carreira.
Quer o Ensino Profissional particular quer o Ensino regular Particular procura professores com mais-valias.
Ou seja, a médio prazo a actividade de professor será regida pela lei da oferta e da procura, sendo as valias da qualidade pedagógica e da experiência adquirida uma mais-valia natural.
Em alternativa, a actividade docente muito provavelmente deixará de ser uma actividade a tempo inteiro. Só desta forma um docente poderá ter capacidade negocial junto de uma empresa vocacionada para a Educação.
A primeira consequência deste novo paradigma, a acontecer, será o fim dos sindicatos tal como os conhecemos;
A segunda consequência será o fim dos centros de explicações, que ganham a vida à conta dos maus professores e da ineficiência dos Sistemas de Ensino, quer Público, quer Privado.
E infelizmente, tal como a própria Autora o dá a entender, esta é apenas uma pequena ponta do grande e gigantesco icebergue de crimes e graves problemas que se vivem na Escola pública….