A primeira coisa que me ocorreu foi que o carro não era o meu. Como nunca memorizei a minha matrícula, achei que, muito provavelmente tinha estacionado noutro local e olhei em redor. Claro que isso só serviu para perceber que o veículo pintado a giz com um gigantesco coração no capô e amorosas florzinhas na porta era… o meu.
Depois, aflorou-se-me um conjunto rebuscado de vocabulário criativamente emoldurado por maravilhosas metáforas obscenas, tipo “ah, maléficos descendentes de Messalina”, ou “animalesca cópula desenfreada”.
Aprendi esta interessantíssima técnica quando levei a única bofetada que minha mãe me deu, no seguimento de um tremendo palavrão por mim inadvertidamente emitido, era eu ainda gaiata. Furibunda, disse-me que aquilo era “vocabulário das obras, indigno de uma senhora”. Que, quando estivesse furiosa, me tornasse “respeitosamente criativa”.
Como nunca me explicou exatamente o que isso significava, acabei por criar intrincadas frases em substituição daquilo que poucas sílabas diriam de forma muitíssimo mais eficaz.
Porém, esta espantosa técnica sempre teve a grande valência de, quando acabo de pensar no conjunto metafórico acabado de conceber, pela imagética criada e pela intrincada extensão do mesmo, sinto-me significativamente mais calma e ponderada.
Desta forma, quando o Artur apareceu com a pastinha na mão e aquele desditoso sorriso troceiro, já não me ocorreu, sequer, mandá-lo para a “pata que o concebeu iluminado”. Estava tão pasmada com o magnífico sulco que o giz me desenhara no carro, que permaneci em silêncio.
Então, ele teve a magnânime ideia de sugerir que eu falasse com o diretor, cuja ausência me fez procurar o subdiretor o qual, deus querendo, há de levar eternamente com o calhau de Sísifo na cabeça cada vez que subir o monte.
Este proferiu imediatamente que a escola nada tinha a ver com o assunto, o estacionamento era exterior e que, se eu quisesse, que chamasse a escola segura.
E, claro, nessa altura pareceu-me que ele merecia realmente, além do calhau nos miolos, ser cognominado “herege descendente de Valéria Messalina”.
Mas, ao invés, optei por chamar os agentes que, gentilmente, tomaram nota da ocorrência, alertando-me logo que, muito provavelmente, a queixa acabaria no fundo de uma gaveta. Mais valia que tentasse, entre os meus alunos, descobrir o culpado, sensibilizando-os a bem.
“Animalesca cópula desenfreada” correspondia exatamente à minha profunda indignação, mas coibi-me de a proferir, não fosse tornar-se óbvia a sua oculta significância.
(E, confesso, por esta altura comecei a ter pena de não ter sido concebida pelas nobres gentes do Norte – no meu íntimo, suspeito que, vivesse eu nessas bandas, de minha boca se abririam as palavras a Deus como os pássaros dão asas ao mundo. Um bafejo de soltura e leveza sombria.)
Optei antes por seguir à risca o seu conselho.
Como a minha ligeira suspeita recaía numa turma em concreto, aproveitei para dar uma palestra que fez chorar as pedrinhas da calçada. E o resultado, incrivelmente, não se fez esperar.
Quando a turma saiu, o Filipe voltou atrás. O miúdo mais franzino da turma teve um rebate de consciência e confessou-me a culpa.
Na verdade, quisera apenas fazer-me uma surpresa. Eu era a sua professora preferida e gostava muito de mim, mas não tivera coragem de o dizer de outra forma.
Senti o coração pequenino e estrangulado. Ali estava uma terna declaração de amor. Um afeto daqueles que temos quando somos adolescentes e um professor qualquer nos arrebata o coração de sonhos e ideias.
Mas, subitamente, a realidade derrubou-me com a fúria de uma locomotiva descontrolada.
O Filipe é um jovem institucionalizado. Portanto, a responsabilidade do estrago, imberbe gesto imponderado, ficará mesmo por minha conta.
Ante a explícita incompreensão do meu juvenil interlocutor, dei apenas por mim a berrar descontroladamente: “CARVALHOS FIRMEMENTE PLANTADOS NO CHÃO!!!!”.
Infelizmente, desta vez não me senti nada, mas mesmo nada, mais calma e ponderada…





2 comentários
Desculpe, colega, mas fartei-me de rir da sua desgraça… Infelizmente já me aconteceu algo semelhante. mas usei os piores palavrões possíveis, não consigo ser tão elegante. Se calhar é porque sou mulher do norte… 😉
Esta colega vive mesmo no País da Maravilhas… É muita ficção naquela cabecita!
Espero que vá passear com o Benny Bunny e que volte (muito) mais tarde a este blog.