Opinião – Somos todos professores miseráveis – Estefânia Barroso

 

Somos todos professores miseráveis

Assumo que fiquei maravilhada com o brilhantismo da intervenção de Rodrigo Moita de Deus no programa “O Último Apaga a Luz”, na RTP3. Para contextualizar estas minhas palavras, destaco algumas das ideias chave deste senhor.

Segundo ele, “a greve só prejudicou as crianças”. Estou totalmente de acordo consigo, senhor Moita de Deus. Onde é que já se viu uma greve que prejudica alguém? Não basta os professores serem “prejudicados” (em função de uma causa em que acreditam), perdendo um dia de salário? Se a bendita greve tivesse sido marcada para uma sexta-feira, ou uma segunda-feira, lá teríamos as vozes sábias, como a deste senhor, a dizer que apenas se organizam greves para que os professores tenham direito a um fim-de-semana prolongado. Aquela cambada de inúteis faz tudo para não trabalhar! Mas, infelizmente para as vozes que já estavam prontas para atirar estas palavras venenosas, a greve foi marcada para uma quarta-feira. Não podendo afirmar que procuraram o fim-de-semana prolongado, atiraram para outro lado. “Tenham vergonha, estão a prejudicar as crianças!” Surgem-me algumas dúvidas: o direito à greve, consagrado na Constituição da República Portuguesa, foi revogado e eu não percebi? Todos sabemos que uma greve irá sempre ter como consequência pessoas prejudicadas. Acontece assim com os médicos, acontece assim com os enfermeiros, acontece em qualquer sector de actividade. Mas será que os professores, por terem os alunos como público, não podem fazer greve? Afirmações destas parecem-me quase pueris.

Outra pérola a reter foi aquilo que considero uma máxima a reter: “Os resultados miseráveis dos alunos devem-se aos professores miseráveis que temos em Portugal.” Mais uma vez terei que concordar com este senhor. Somos miseráveis em muitos aspectos. Miseráveis pela forma como somos tratados pelos sucessivos ministérios, miseráveis por cada vez menos dignificarem aqueles que se dedicam ao ensino, miseráveis por sermos obrigados a ser professores e burocratas, atolados em papéis e papéis, miseráveis por muitas vezes sermos obrigados a lidar com a violência por parte dos alunos, quando a mesma não chega por parte dos próprios encarregados de educação. Já no que aos resultados diz respeito, sublinho que colocar a culpa dos maus resultados apenas e só nos “professores miseráveis” é uma visão de quem não está no sistema, de quem não percebe do que está a falar e de quem apenas pretende pôr a culpa de tudo nos professores (maus resultados, défice e, quiçá, a seca). Desresponsabilizar os alunos nestes maus resultados é, mais uma vez, uma atitude pueril e pouco conhecedora.

Continuando na série de barbaridades ditas em tão pouco tempo, o senhor, que se afirma cansado de ouvir falar dos professores, declara que se vê na obrigação de colocar os seus filhos no ensino privado. E faz muito bem. Ouvi dizer que os professores que trabalham no ensino privado (contra os quais nada tenho a referir, note-se) se formaram todos eles nas universidades de Harvard e Cambridge. Deixando-me de ironias, questiono: afinal, em que universidades e/ou escolas superiores de educação estudaram os professores do ensino privado? Não estamos a falar da mesma formação de base? O que se passa depois da formação? A escola pública tem algum vírus que se propaga entre os professores do ensino público? Acredito é que, na visão de Moite de Deus, eles são de longe melhores profissionais do que a corja que trabalha no ensino público, uma vez que os mesmos não fazem greves em dias de semana e não incomodam, perdão, não prejudicam as crianças.

 

Ainda nessa intervenção se levanta a questão: afinal, para que serve todo o dinheiro investido na educação? De acordo com Moita de Deus, serve para benefício dos professores, que nem estão nas aulas e por isso enviam os alunos para as explicações. Pergunto eu: onde estamos nós se não estamos na sala de aula? É que, do trabalho que eu desenvolvo, nunca me foi retirada uma hora que fosse do meu trabalho lectivo para estar noutro local que não na sala de aula. Pelo contrário, muitas vezes me foram acrescentadas horas supostamente não lectivas, com trabalho em sala de aula, desenvolvendo trabalho com alunos. Para além disso, sim, trabalhamos muito fora da sala de aula. Muitas reuniões para pôr em prática projectos, planos, actividades… Um sem fim de reuniões para um sem fim de assuntos. Tudo em horário fora do que é considerado lectivo, como é óbvio.

Concluindo, o senhor Rodrigo Moita de Deus diz-se cansado das discussões apenas e só sobre professores: se eles estão ou não contentes, se estão satisfeitos com o rumo que a sua carreira está a levar, com o seu, digo eu, egocentrismo. Não perceber que o mau estar generalizado que se sente na classe dos professores é prejudicial a todos os agentes da educação, não perceber que somos uma classe com um nível elevadíssimo de síndrome de burnout, não procurar as razões para este nível elevadíssimo e limitar-se a declarar-se “cansado de ouvir falar dos professores” demonstra que esta intervenção, para além de desnecessária, não traz qualquer luz à discussão, limitando-se a um único objectivo: incendiar a opinião pública.

Público 20/11/2017

 

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11 comentários

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    • Contribuinte Indignado on 21 de Novembro de 2017 at 9:15
    • Responder

    .
    è obvio que estamos cansados dos professores como esta setôra.

    No ensino Público é uma balducha total.

    Os CONTRIBUINTES pagam este forrobodó….quer tudo ir para o Topo da Carreira.
    .

      • Alexandra Salgado on 21 de Novembro de 2017 at 11:20
      • Responder

      Com toda a firme certeza que o Privado contribui muito mais para o país que os funcionários públicos… Deve ser por não “poderem fugir” ou não serem empresários….etc e tal! E já agora, caríssimo…Quantos anos é que a Exa. lecionou no ensini público para fazer tal acusação com tanto afinco! ??? E já agora..não quer trocar comigo?? Salário, despesas, vida…etc e tal? É que mesmo não sabendo o que faz, como vê, as condições para quem estuda há 40 anos e anda “nisto” há 23, são tão boas, mas tão boas, que até trocaria já ás cegas!
      “Do que não se sabe o melhor é calar!”- Wittgeinstein- Aproveite a dica já que se satisfaz plenamente morrendo exatamente nas mesmas circunstâncias laborais em que se iniciou.
      Fique bem e já agora, estude!

      • Maria da Luz on 21 de Novembro de 2017 at 18:46
      • Responder

      Amigo, quem o ensinou a esrever e a dar opinião daquilo que não sabe e muito menos conhece…
      Dor de cotovelo dos professores? Muito…, pois está a mexer com BOA gente…

      • eduparra on 23 de Novembro de 2017 at 12:22
      • Responder

      As suas afirmações demonstram um total alheamento da realidade educativa bem como uma capacidade medíocre para generalizações grosseiras. Informe-se sobre a realidade docente, se quiser, e depois comente, caso contrário, abstenha-se… para não fazer triste figura.

    • Orquidea Selvagem on 21 de Novembro de 2017 at 12:21
    • Responder

    Ninguém quer ir para o topo de carreira, apenas e só, queremos o que nos é devido. O senhor com toda a certeza tem tido aumentos todos os anos. Eu estou no mesmo escalão desde 2005. Nunca mais vi um cêntimo de aumento. Aliás, o que vi foram cortes. E para os indignados, atentem numa verdade: Se estão aqui a escrever barbaridades só com o intuito de denegrir a nossa classe, é porque tiveram algum professor que os ensinou a ler e a escrever. E para quem trabalha no privado estar no blog há 3 horas é porque vive de subsídios, ou então vai para o emprego e não faz nada. Já pensaram nisso?? Eu por mim convidava todos os indignados deste país a irem assistir a uma ou duas aulas. Tenho a certeza que mudavam de opinião. Mas enfim…

      • Lope on 21 de Novembro de 2017 at 14:05
      • Responder

      O problema é se temos de devolver tudo em dobro. O risco é grande. É um disparate termos 130 mil professores no sistema. Ou deixam sair os que têm mais de 60 ou separam quem dá aulas de quem tem cargos políticos. Assim não vamos lá, basta fazer contas. 130000 mil? Ora, se forem 100 a cada um é, como dizia Guterres, é só fazer as contas. Claro que só os do início terão progressão os outros é só conversa, não há hipótese. E a razão é clara e simples: não há dinheiro, há dívida e grande.

    • Lope on 21 de Novembro de 2017 at 14:02
    • Responder

    Vale a pena espreitar o Blog e o que por lá se diz. É o blog mais lido por cá:
    http://31daarmada.blogs.sapo.pt/os-professores-e-a-decadencia-da-escola-6936767?thread=27363007#t27363007

    • defesa4 on 21 de Novembro de 2017 at 15:22
    • Responder

    Eu também vi e ouvi esse palerma, isso mesmo, palerma. Como é possível numa televisão pública, convidar e porventura pagar a um indivíduo para dizer tantos disparates. Eu não sou de violências mas este indivíduo é daqueles que só é inteligente quando leva umas bofetadas….

      • Orquidea Selvagem on 21 de Novembro de 2017 at 16:06
      • Responder

      E não viu o Júdice na TVI? Cada palavra, cada pérola. Vale a pena espreitar a entrevista para se indignar ainda mais. Esta gente que ganha balúrdios não pensa. Gostava de saber o rendimento do senhor. Ele que tanto mal falou de nós devia de saber como é que os magistrados progridem na carreira. Nunca nós teremos um salário semelhante!! E somos todos funcionários públicos! E todos temos pelo menos uma licenciatura. Então como é? Esta gentalha que é paga a peso de ouro esquece-se de quanto ganha???

    • José Bernardo on 21 de Novembro de 2017 at 18:53
    • Responder

    … as crianças são o que menos preocupa os professores quando a partir de 2012 deixou de haver dedicação a esta coisa que é educar… apenas se trabalha para garantir os serviços mínimos: é um estado de pré aviso de greve permanente! e o chinês sou eu!

      • Cristina on 21 de Novembro de 2017 at 19:45
      • Responder

      É chinês e distraído… caso contrário saberia que os resultados dos alunos melhoraram nos últimos anos, o que comprovam os teste PISA e até já ultrapassámos países como a Espanha ou a França.

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