Uso da IA pelos Alunos: Mais trabalho para os Professores…

 Foi divulgado, na última semana, um documento, que estará sujeito a consulta pública por trinta dias, emanado pelo EduQA, intitulado “Inteligência Artificial – Orientações para a utilização responsável da IA em contexto Educativo”…

 

Lendo o referido documento, percebe-se, de imediato, que existe um conjunto vasto de Orientações destinadas aos Docentes, nomeadamente as que versam sobre a utilização pedagógica da IA…

 

Analisando os procedimentos previstos em tais Orientações, espera-se do Professor a execução de várias acções junto dos Alunos, que deverão ser observadas durante todo o processo de realização de actividades com recurso a IA…

 

Depois de uma breve análise, é praticamente inevitável concluir-se que a utilização da IA pelos Alunos, resultará sempre em mais encargos, mais responsabilidades e trabalho acrescido para os Professores, pelo menos se forem respeitadas as Orientações presentes neste documento…

 

Entre requisitos legais e institucionais que deverão ser cumpridos, existem também vários “Semáforos” para a utilização pedagógica da IA, primordialmente da responsabilidade do Professor, a quem competirá realizar várias verificações, antes, durante e após a realização de actividades com recurso a tal tecnologia…

 

Em resumo, espera-se, obviamente, que o Professor tenha um papel central no que respeita à orientação e acompanhamentodos Alunos para uma utilização responsável e segura da IA…

 

Detenho-me neste ponto das Orientações Essenciais do citado documento:

 

– “Os resultados produzidos pela IA devem ser verificados.”

 

Nas condições actuais da Escola Pública, com muitas turmas superlotadas, será legítimo esperar que um Professor consiga salvaguardar o uso responsável da IA junto de todos os Alunos, de acordo com as directrizes agora propostas pela Tutela?

 

Numa altura em que a controvérsia sobre a utilização da IA pelos Alunos está instalada um pouco por todo o Mundo, sem que se tenha chegado a conclusões universais acerca das vantagens/desvantagens provenientes do seu uso, que lógica poderá ter o avanço para uma discussão pública sobre esta matéria, sobretudo quando existem tantos problemas prementes por resolver na Escola Pública, apenas dependentes da inteligência humana?

 

Ou será que esta discussão pública visará lançar alguma “poeira” sobre tais problemas, fazendo com que as atenções se dispersem por assuntos não prioritários?

 

Dada a gritante falta de acompanhamento parental, que se verifica aos mais variados níveis, esperar que a maioria dos pais/encarregados de educação participe, em articulação com a escola, activamente na promoção do uso responsável da IAem contexto educativo, como consta no documento agora publicado, não passará de uma quimera, de um pensamento baseado num desejo, sem correspondência com a realidadeobservada…

 

Se, depois da consulta pública, estas pretensões vierem a serimplementadas, ficaremos perante mais um descalabro na Escola Pública, com a maior parte dos Alunos a considerar que, finalmente, tem autorização para “copiar e colar” de forma indiscriminada… Escusamos de ter ilusões, a ideia que os Alunos reterão acabará por ser essa…

 

Para os Alunos, sobretudo os do 2º e 3º Ciclos do Ensino Básico e do Ensino Secundário, a utilização da IA será inevitavelmente associada à ideia de “facilitismo”… Lutar contra esse erro de pensamento, de certa forma, um pré-conceito, requer tempo e uma acção concertada e duradouraentre todos os Docentes de uma Turma… Tempo que não existe, dada a parafernália de tarefas atribuídas aos Professores e a “alucinação” diária a que estão sujeitos…

 

Quanto tempo, por Aluno e por actividade, terá que despender um Professor para concretizar a verificação dos resultados produzidos pela IA, conforme prescrito pelas citadas Orientações?

 

Do uso da IA no Ensino Pré-Escolar e no 1º Ciclo do Ensino Básico, parece óbvio que resultará num erro monumental, que muito dificilmente trará contributos positivos para as aquisições, conhecimentos e competências inerentes aos principais domínios de aprendizagem nesses níveis de ensino, com plausíveis consequências prejudiciais para os anos subsequentes de escolaridade…

 

Com a publicação deste documento, a Tutela parece prosseguir pelo caminho do lirismo e da inversão de prioridades, dando primazia ao folclore… Em vez de seresolverem problemas graves, criam-se ainda mais imbróglios, como se no dia-a-dia das escolas ainda existissem poucos…

 

E os Professores ficarão, mais uma vez, sozinhos e com um problema sério para resolver…

 

Se as coisas correrem mal, adivinha-se quem será responsabilizado por isso: Os Professores, obviamente…

 

O Ministro que tutela o trabalho dos Professores, por certo, não perderá essa oportunidade para os “queimar na fogueira”, como, de resto, tem sido seu apanágio nos últimos tempos…

 

Parece que alguém já se esqueceu dos resultados calamitososdos alunos portugueses no Estudo PISA 2025, consequência óbvia do sucesso escolar por decreto e do abaixamento das exigências ao nível dos conhecimentos dos alunos…

 

Parece que alguém acredita que a utilização da IA pelos Alunos será a panaceia, a solução milagrosa, para melhorar os seus resultados…

 

Isto não é sério, nem credível, nem sensato… Isto é mais um devaneio, sem justificação…

 

E também é mais uma “batata quente” atirada para as mãos dos Professores…

 

Paula Dias 

 

 

 

 

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