Cinco a quase tudo ou uma crónica sobre segregação escolar – João André Costa

 

No fim do Segundo Ciclo do Ensino Básico deram-me cinco a quase tudo, ou então fui eu quem fez por ter cinco a quase tudo e neste mundo ninguém dá nada.

Não há almoços grátis.

Uma sucessão de cincos alinhados na pauta como pequenos azulejos azuis numa cozinha antiga, excepção feita a Educação Física e Trabalhos Manuais mais o corpo e as mãos como objectos estranhos, selenitas, para não dizer alienígenas.

E pensar, raciocinar, deduzir e concluir sempre foram em tudo preferíveis a correr, à chuva e ao sol, à volta do campo de jogos e da aldeia dos macacos enquanto o professor apitava com o entusiasmo militar de quem acreditava ainda estar na tropa, para não dizer no ultramar.

Estava, sim, senhor.

Voltando aos cincos alinhados como azulejos, serviram para empurrar-me na direção da Escola Secundária onde descobri uma coisa extraordinária: a escola não é apenas uma escola, mas um sistema de castas.

Basta olhar para a minha turma, dentro da qual a esmagadora maioria dos alunos tinha pais licenciados.

E não, não disseram “esta é a turma dos filhos dos professores, dos engenheiros, dos doutores, das pessoas com grandes estantes lá em casa ao invés das tais lombadas”.

Não era preciso, bastando para tal olhar para os apelidos na pauta, para o tamanho do carro dos pais à porta da escola, as roupas de marca sempre de acordo com a moda daquele ano, para não dizer mês.

Como se o mundo fosse seu desde o parto.

Aquele mundo era seu.

Seu.

E eu sentei-me ao lado deles com a sensação de ter entrado por engano num daqueles restaurantes caros.

Sem convite.

No entanto, estes rapazes e raparigas, e com eles todos os professores, salvaram-me.

Porque os melhores professores da escola estavam ali. Os professores experientes, pacientes, incansáveis na explicação enquanto corrigiam redações atrás de redações, sem esquecer todos os testes e relatórios, ao Domingo e à noite.

Professores animados pelo sonho da universidade e o mundo inteiro à distância de um braço.

Lembro-me das reuniões de pais. Os corredores cheiravam a café e papéis. Os pais da minha turma falavam da faculdade como quem discute destinos de férias. Medicina. Engenharia. Direito. No meu bairro ninguém dizia estas palavras sem baixar a voz.

E eu, contaminado pela ambição, comecei a acreditar.

Um aluno de doze anos de idade passa a imitar o horizonte dos colegas. Se todos falam em universidade, a universidade passa a ser um destino normal e expectável.

Se todos falam em começar a trabalhar aos dezasseis, então a vida encolhe mais cedo.

E a vida encolhe mais cedo para o resto da escola.

A isto, a esta separação de alunos de acordo com a sua capacidade académica e origem sócio-económica, chamamos hoje segregação escolar, facilmente traduzível pela seguinte pergunta: quem merece aprender melhor?

Os melhores alunos progridem mais depressa, os professores planeiam sem ter de diferenciar, apenas debitar, e quem não toma notas fica pelo caminho.

Há menos interrupções, menos indisciplina, melhores resultados nos exames, sobretudo para quem vem já com metade das aprendizagens a partir de casa, e dentro de casa as explicações e os livros.

Todos os livros.

Hoje, gastamos o dedo nos écrans.

O Reino Unido usa um sistema semelhante, no qual os alunos são colocados em “sets”, “top set” e “bottom set”, ergo um aluno pode estar no grupo mais avançado a Matemática e noutro de nível baixo a Inglês.

Mas à escola não basta distribuir esperança, quando a escola deve agir como elevador social.

E colocar os melhores alunos numa turma apenas não é de todo inclusão, mas discriminação.

É favorecer ainda mais os tais um por cento em detrimento de todos os outros.

Um sistema onde um aluno distraído com pais licenciados é visto como promissor. Já um aluno distraído com o pai metalúrgico é um problema disciplinar.

Tivesse, por sorte, ou então azar, calhado noutra turma e talvez nunca tivesse almejado a universidade. Talvez estivesse noutro emprego qualquer, a descarregar caixas num armazém enquanto olho para os livros atrás das montras como quem olha para um aquário exótico.

Os livros, hoje, são aquários exóticos.

Penso nos rapazes e raparigas das outras turmas. Alguns, apesar de mais inteligentes, chegavam à escola depois de noites sem dormir, de casas pequenas e pais desempregados, casas onde todos gritam e ninguém tem razão, minto, as crianças têm razão e toda a responsabilidade apesar dos poucos anos.

E, contudo, aqui estou eu.

A escrever.

Produto de um sistema educativo desigual? Sobrevivente? Talvez cúmplice.

E se nunca pedi favores para não ficar a dever favores, a verdade é esta sensação de culpa a bater nas paredes da memória como uma janela mal fechada ao vento.

A culpa nunca foi, nem pode ser, de uma criança de doze anos de idade. A culpa será sempre dos adultos. E os adultos somos nós, hoje, de volta à escola.

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1 comentário

  1. Li o seu texto com o coração apertado pela familiaridade das palavras. Sou também professor, mas a minha pauta de vida começou em moldes muito semelhantes aos que descreve. Sou neto de analfabetos e filho de pais que apenas tiveram acesso à 4.ª classe, mas que possuíam a ambição inabalável de que o meu destino não passasse pela Agricultura, Construção Civil ou pela emigração. Ainda me lembro vividamente do dia em que o meu irmão mais velho, ao terminar o 2.º Ciclo, anunciou que não queria estudar mais. A resposta do meu pai foi curta e absoluta: ‘Quando eu voltar do trabalho, quero que já estejas matriculado’. Sem margem para discussão, a minha mãe levou-o à escola de motorizada e garantiu a inscrição no 3.º Ciclo. Hoje, o meu irmão é o primeiro a agradecer aquela ‘tomada de posição’ musculada dos nossos pais. Este episódio é presença assídua nas conversas de família, servindo de lição para que os nossos filhos e sobrinhos não deem o privilégio do estudo como garantido. Olhando para trás, com a clareza que o tempo nos dá, percebo que aquele momento foi a grande viragem no destino de duas crianças. O meu ,que frequentava a primária e do meu irmão que com 13 anos já tinha atingido a escolaridade obrigatória da época. Foi ali que o horizonte se alargou.
    Singrar, vindo de onde vim, dá-me hoje uma perspetiva que a educação familiar e escolar foi o meu passaporte, mas não esqueço as barreiras invisíveis que tive de saltar por não ter os ‘apelidos’ ou os ‘livros na estante’ desde o berço.
    Reconheço que a sorte — a família onde nascemos, a escola ou a turma onde somos colocados — desempenha um papel real, mas acredito firmemente que a sorte também se conquista. Tive de fazer a minha parte para chegar onde cheguei. Não podemos depositar toda a responsabilidade no sistema; se assim fosse, não encontraríamos alunos brilhantes em contextos desfavorecidos ou em escolas do Interior. Sem explicações particulares, movidos apenas pelo querer e por uma vontade férrea. Esta é uma verdade válida para o percurso escolar, mas, acima de tudo, é uma lição para a vida.

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