Os números recentemente divulgados pela PSP deviam obrigar-nos a parar e pensar. No ano letivo 2025/26 foram registadas 1.426 ofensas corporais e 920 casos de injúrias e ameaças no âmbito do Programa Escola Segura. As ofensas corporais atingiram o valor mais elevado dos últimos cinco anos.
Há uma parte deste problema de que se fala pouco, a violência também cresce quando é normalizada. Quando um professor é ameaçado ou agredido, e no dia seguinte, vai para escola dar aulas como se nada tivesse acontecido. Quando ouve que “não vale a pena apresentar queixa”. Quando alguém lhe diz que “é melhor não complicar”, que “é um aluno com xyz problemas”, que “foi só um momento”, que “temos de compreender o contexto familiar”. Quando uma ameaça/agressão é transformada numa simples “ocorrência disciplinar”. Quando a preocupação passa a ser mais proteger a imagem da escola do que proteger quem foi vítima.
É preciso dizer com toda a clareza que:
compreender não significa desculpabilizar; educar não significa aceitar a violência;
perdoar não significa apagar as consequências.
Apresentar uma queixa não significa querer destruir a vida de um aluno, significa, antes de mais, não aceitar que uma ameaça/agressão seja tratada como uma coisa normal.
Há também uma responsabilidade que não pode ser ignorada, a responsabilidade dos adultos.
Porque quando um professor é agredid, ameaçada ou humilhada e decide continuar a sua vida profissional como se nada tivesse acontecido, por vezes por medo, por pressão ou porque lhe dizem que é melhor deixar passar, pode estar a transmitir involuntariamente uma mensagem perigosa.
E quando isso acontece repetidamente, aquilo que começou por ser uma exceção pode transformar-se numa rotina.
Hoje é um insulto,
amanhã uma ameaça, depois um empurrão e mais tarde uma agressão.
Entretanto, todos se habituaram.
Não podemos aceitar que a escola se transforme num lugar onde a violência é relativizada em nome da “normalidade”.
Nem podemos aceitar direções que, em vez de apoiar inequivocamente o professor vítima de violência, procurem abafar os casos, desvalorizar os acontecimentos ou convencer quem foi agredido de que apresentar uma queixa criminal é “exagerado” ou “prejudicial para o aluno”.
A escola não deve esconder a violência, mas deve enfrentá-la e sobretudo preveni-la.
Não significa defender castigos cegos ou ignorar o contexto de cada aluno, significa responsabilizar o agressor e proteger as vítimas. Significa agir, deixar claro que há limites que não podem ser ultrapassados.
Os professores têm de perceber que o silêncio coletivo não é neutralidade.
Quando um colega é ameaçado ou agredido e os restantes fingem que nada aconteceu, a mensagem que fica para a vítima é devastadora, estás sozinho e a mensagem que fica para quem agride pode ser ainda pior, podes fazê-lo novamente.
Precisamos de mais prevenção, mais acompanhamento, mais mediadores, psicólogos, técnicos, bem como de mais apoio às escolas e às famílias.
Necessitamos também de uma coisa que não custa dinheiro, coragem para chamar as coisas pelo seu nome.
Uma ameaça é uma ameaça.
Uma agressão é uma agressão.
Uma escola segura não é uma escola onde não se registam ocorrências, mas sim uma escola onde, quando elas acontecem, ninguém as esconde, ninguém as relativiza e ninguém abandona quem foi vítima.
Normalizar a violência não resolve o problema, apenas prepara a próxima agressão.
José Pereira da Silva







