“A escola continua a ensinar como no século XIX e prepara crianças e jovens para um mundo que já não existe.”

Há pessoas que começam qualquer reflexão sobre educação com essa frase já gasta…

E eu sou dos primeiros a reconhecer que a escola precisa de evoluir, mas procuro fazer mais do que repetir essa evidência em palestras ou publicações: trabalho com professores, educadores, assistentes operacionais e diretores, conheço as dificuldades concretas que enfrentam e tento ajudá-los a construir respostas mais adequadas ao tempo em que vivemos.

Mas convém fazer uma pergunta: será a escola a única instituição que precisa de evoluir?

Você, que critica a escola a partir da sua empresa, da sua profissão ou da sua página nas redes sociais, qual foi a última inovação verdadeira que introduziu no seu trabalho? 

Começou a utilizar o ChatGPT como anteriormente utilizava o Google? 

Substituiu o PowerPoint pelo Canva? 

Gravou um vídeo vertical em vez de escrever um texto? Isso pode ser útil, mas trocar uma ferramenta por outra não é necessariamente inovar, muitas vezes, é apenas fazer a mesma coisa antiga com uma embalagem mais moderna.

Não digo isto para atacar ninguém, mas para devolver alguma honestidade à discussão, porque inovar no verdadeiro sentido da palavra implica alterar práticas, abandonar rotinas confortáveis, avaliar resultados, aceitar erros, reorganizar recursos e, por vezes, questionar aquilo que durante anos nos deu estatuto e segurança. 

Se essa transformação já é difícil numa pequena empresa, com poucas pessoas e decisões rápidas, imagine-se num sistema escolar enorme, regulado por leis, programas, avaliações, horários, expectativas familiares, desigualdades sociais e milhares de profissionais com experiências e condições muito diferentes.

Há ainda uma ironia difícil de ignorar: algumas pessoas criticam a escola por ser antiquada enquanto fazem essa crítica numa palestra igualmente antiquada, sentadas atrás de uma mesa ou escondidas num púlpito, a falar durante uma hora para uma audiência passiva, sem escutar, sem interagir, sem experimentar e sem sequer perceber se alguém aprendeu alguma coisa. 

Exigem metodologias ativas aos professores, mas comunicam como se o público fosse apenas um recipiente, condenam a resistência à mudança, mas não identificam uma única transformação relevante que tenham produzido no seu próprio trabalho.

A escola precisa de evoluir, evidentemente, e precisa de o fazer com urgência, inteligência e coragem. Todos precisando. Contudo, essa exigência deve ser acompanhada por respeito e humildade perante os muitos professores, educadores de infância, assistentes e diretores que, mesmo condicionados por estruturas pesadas e recursos escassos, procuram todos os dias ensinar melhor, comunicar melhor e responder a crianças que chegam à escola com necessidades que nenhum manual do século XIX poderia antecipar.

Criticar de fora é rápido,…transformar por dentro é lento, complexo e desgastante. Antes de apontarmos o dedo à escola por não avançar depressa, talvez devamos olhar para as nossas próprias práticas e perguntar se estamos realmente a abrir caminho ou apenas a exigir que os outros caminhem por nós.

Alfredo Leite

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2026/08/a-escola-continua-a-ensinar-como-no-seculo-xix-e-prepara-criancas-e-jovens-para-um-mundo-que-ja-nao-existe/

Deixe um comentário

Your email address will not be published.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Discover more from Blog DeAr Lindo

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading