Falamos, falamos, falamos, mas ninguém nos ouve…

Quem trabalha na Escola Pública conhece muito bem as enfermidades de que a mesma padece, uma vez que se confronta com elas praticamente todos os dias…

 

Quem aí trabalha, também sente, frequentemente, na medida das suas atribuições e competências, que dá a cara pela Escola Pública, de certa forma, respondendo por ela, às vezes, até, podendo pôr em causa a sua própria reputação…

 

Na realidade, empenha-se em defendê-la e em dar o seu melhor contributo para a manutenção de uma Escola Pública de qualidade que, em simultâneo, consiga responder às muitas solicitações que lhe são endereçadas…

 

Os profissionais de Educação também são aquelas pessoas que, no exercício das suas funções docentes ou não docentes, se vêm obrigadas a pôr em prática as medidas da política educativa que vão sendo emanadas por sucessivos Ministérios da Educação, mesmo que não concordem com as mesmas…

 

Os Governos vão passando, os Ministros da Educação sucedem-se, mas quem vai ficando, quase sempre, são os profissionais de Educação…

 

Mas os profissionais de Educação têm estado, na verdade, sozinhos nas suas demandas, ninguém ou muito poucos os ouvem ou os levam em consideração…

 

Em particular, não são ouvidos por aqueles que deveriam ser os primeiros a ouvi-los e que, já agora, por “coincidência”, são exactamente os que tutelam o seu exercício profissional… Na verdade, ninguém ou muito poucos com responsabilidades ao nível da Tutela os ouve ou leva em consideração…

 

E a maior prova do anterior é que, ao longo dos últimos anos, nada mudou para melhor na Escola Pública… Não se resolveram problemas de fundo, mas paradoxalmente criaram-se outros problemas… A Escola Pública esmorece cada vez mais, ora lesada por políticas educativas profundamente erradas, ora tomada por interesses iminentemente sombrios, quase sempre, com o conhecimento da própria Tutela…

 

Todos os problemas que afectam os próprios alunos e os profissionais de Educação no seu dia-a-dia continuam por resolver, desde a indisciplina até à burocracia, passando pela falta de professores e de condições físicas de muitas escolas ou pelo sucesso escolar ilusório e fabricado…

 

Confesso que estou cansada de elencar problemas e que também já não acredito em soluções… Soluções que nunca chegam da parte de quem tem responsabilidades tutelares ao nível da Escola Pública… Sob esse ponto de vista, o actual Governo tem vindo a revelar-se como uma monumental decepção…

 

Os sucessivos Governos e Ministros da Educação não têm dado tréguas aos profissionais de Educação, nem à própria Escola Pública…

 

Chegámos a um ponto em que a Escola Pública definha notoriamente e em que os profissionais de Educação expressam desilusão, desencanto, desesperança e, sobretudo, um “supremíssimo cansaço, íssimo, íssimo, íssimo cansaço”… (Alusão a Álvaro de Campos)…

 

A apenas quinze dias do final de mais um Ano Lectivo, alguma coisa mudou para melhor, no quotidiano das escolas? Não creio que tenha havido alguma alteração com resultados positivos, ao longo deste ano quase a concluir-se… Se houve, alguém, por favor, que o indique…

 

Até agora, houve alguma revogação dos principais normativos legais, que praticamente todos os profissionais de Educação desejariam ver anulados? Que se saiba, nenhuma…

 

Portanto, continuamos como estivemos ao longo dos últimos anos: enredados em insanidades várias, participantes em círculos viciosos, quase sempre dominados pela máxima “primeiro estranha-se, depois entranha-se”, mas no pior dos sentidos…

 

A verdade é esta:

 

– Falamos, falamos, falamos, mas ninguém nos ouve…

 

O actual Ministro da Educação, muito prolixo no envio de cartas aos profissionais que tutela, já demonstrou pela sua acção governativa que não existe correspondência entre essa aparente cordialidade e a capacidade de ouvir e de tomar em consideração quem dá a cara pela Escola Pública todos os dias…

 

Estaremos, muito provavelmente, perante uma estratégica de “marketing político”, que de nada tem servido à resolução dos muitos problemas existentes na Escola Pública… Escrever frequentemente aos profissionais de Educação até pode ser visto como uma forma de cortesia, mas, por si mesmo, não resolve qualquer problema de fundo…

 

Por outro lado, a presença assídua do Ministro em conferências, seminários, colóquios, palestras ou outros eventos semelhantes sobre Educação, em que alguns só afirmam aquilo que sabem que os outros querem ouvir, não conta como ouvir e tomar em consideração quem efectivamente está no terreno…

 

Porventura, as vozes dos que estão no terreno serão demasiado incómodas e inconvenientes para serem ouvidas e levadas em consideração…

 

Quantas palavras já foram escritas e faladas, por tantas pessoas, ao longo dos últimos anos, sobre os males que afectam a Escola Pública? Quantos alertas já foram emitidos, por muitas pessoas genuinamente preocupadas com a sobrevivência da Escola Pública e com a defesa dos seus Princípios?

 

Muitíssimas, muitíssimos… Muitíssimas, muitíssimos, mas sem qualquer efeito prático…

 

Tudo cai em “saco roto”, os destinatários dessas mensagens parecem não lhes dar qualquer importância, talvez mais interessados em acreditar em certos “séquitos de aduladores”, que não têm a coragem, nem a frontalidade, de afirmar que “o rei vai nu”, muito menos de denunciar ou de censurar a sua “nudez”…

 

Em troca de um “prato de lentilhas”, haverá sempre quem esteja disposto a abdicar da própria dignidade e do pensamento crítico, se necessário for, mostrando todo o esplendor da sua indecorosa conivência…

 

Mas enquanto não forem ouvidos e levados em consideração os contributos dos que efectivamente estão no terreno e que trabalham todos os dias directamente com alunos, continuaremos a ter uma Escola Pública de “faz de conta”, que omite e dissimula a realidade e que, justamente por isso, estará, muito provavelmente, a caminho do precipício…

 

Algumas palavras para o número de alunos sem aulas durante o presente Ano Lectivo, quase a terminar:

 

– Quando o Ministro que tutela a Escola Pública desconhece, ou se conhece não divulga, o número de alunos sem aulas durante um Ano Lectivo, algo de muito estranho se passará…

 

– Que justificação poderá existir para tal facto, deveras inusitado?

 

Há silêncios que ultrapassam todos os limites do razoável e do aceitável, tornando-se, por isso, insustentáveis… Este é um deles…

 

O que é posto verdadeiramente em causa por esta omissão, independentemente do que venha a ser apresentado para a justificar, acaba por ser a credibilidade do próprio MECI, minando-se, por aí, qualquer confiança que pudesse estar consignada à Tutela da Escola Pública…

 

Em resumo, muita efabulação em torno da Escola Pública, como nos Contos de Fadas, mas sem um final feliz… Ao longo dos últimos anos, quantas vezes já vimos “este filme”? Muitas vezes, demasiadas vezes…

 

Os profissionais de Educação continuarão dispostos a contentar-se, mais uma vez, com as “migalhas” que o Governo lhes queira dar?

 

Os profissionais de Educação continuarão dispostos a aceitar todos os malabarismos patentes nas ilusões de mudança, de que é exemplo paradigmático a alegada reforma administrativa do MECI, muitas vezes, ilustradas pela expressão “algo deve mudar para que tudo fique na mesma”?

 

Vá lá saber-se porquê, lembrei-me disto: “O tempo das verdades plurais acabou. Vivemos no tempo da mentira universal. Nunca se mentiu tanto. Vivemos na mentira, todos os dias”…

 

As palavras anteriores que, de resto, subscrevo, são da autoria de José Saramago, aquele escritor português agraciado com o Prémio Nobel da Literatura, mas que o actual Ministério da Educação pretenderá ignorar, ao que tudo indica, tencionando que o respectivo estudo deixe de ser obrigatório nas escolas portuguesas…

Se tal pretensão for consumada, estaremos perante um vil atentado à Literatura Portuguesa, absolutamente incompreensível e inaceitável, a contribuir, ainda mais, para a ignorância que já grassa na Escola Pública…

 

Mais uma vez, nada muda para melhor, mas medidas absurdas, típicas de quem manifesta um confrangedor preconceito ideológico, parece que estarão sempre prontas a poderem ser impostas… Vindo de um Ministro da Educação torna-se, ainda, mais grave e mais despropositado…

 

Claro está que este será mais um texto, a juntar a tantos outros, que não passará de uma evidência de que falamos, falamos, falamos, mas ninguém nos ouve ou leva em consideração…

 

Paula Dias

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4 comentários

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  1. Na realidade, seria muito simples inverter o estado de coisas só que não há ninguém com coragem de acabar, de vez, com o politicamente correto e dicidir algo como:

    ” A partir de agora, quem não tem, efetivamente, aproveitamento, reprova; quem não respeita, minimamente, um regime de assiduidade, reprova; quem infrige de forma grave e/ou sistemática as normas de comportamento é expulso imediatamente desse ato letivo.”

    Custa dinheiro? Custa votos? Custa ser alvo de críticas idiotas e Made in Woke extremistas?

    Com certeza que sim,
    mas…
    dos fracos não reza a história.

    • Maria Teresa Florentino on 12 de Junho de 2026 at 5:14
    • Responder

    Excelente texto não só pela forma como foi escrito, como pelo conteúdo. Há muito tempo que não lia algo que me fizesse ficar tão feliz. Na verdade, poucos escrevem tão bem e ainda menos os que transmitem tão bem a verdade do que se passa na escola pública. Muitos parabéns, magnífico!

    • Dejá vu on 12 de Junho de 2026 at 15:34
    • Responder

    Para quê tantas palavras?
    O que a Paula disse, dizia se em 2 frases.
    Não vale a pena bater mais no ceguinho. Já percebemos todos. E sentimos lo na pele todos os dias.
    Só nos ouvem quando vamos para a rua em manifestações expressivas. Aí, aí que eles existem! Os invisíveis! o professor da minha filha!

    Ainda não se convenceram que os professores fazem parte de um grande exército para morrer??
    Somos carne para canhão das políticas dos sucessivos governos. E mais nada.
    Voz? Rosto?
    Não temos!

    • José Bernardo on 14 de Junho de 2026 at 18:22
    • Responder

    Sá Carneiro, sim morreu!
    Ao transformar o aluno num cliente que avalia o agrado do serviço prestado, o professor
    perdeu a imunidade para impor a disciplina, exigir esforço intelectual ou contrariar
    tendências ideológicas vigentes. Qual é o impacto na autoridade do professor? A
    transformação do aluno em cliente e da educação num serviço de consumo desferiu um
    golpe profundo na autoridade do professor, desmantelando o seu papel tradicional de
    guardião do saber e da disciplina.Este fenómeno produziu quatro impactos devastadores na
    autoridade docente dentro e fora da sala de aula:
    I. Desobrigação do Esforço e a Culpabilização do Professor -O Impacto: A autoridade científica do professor assentava na premissa de que o
    sucesso exige esforço e que o docente é o juiz desse mérito. Quando o aluno passa
    a ser visto como cliente, o insucesso escolar deixa de ser uma falha de estudo do
    estudante e passa a ser interpretado como uma “falha na prestação do serviço” por
    parte do professor. -A Consequência: O professor perde o poder de exigir trabalho intelectual rigoroso.
    Se a matéria for complexa ou se o teste for exigente, o “cliente” reclama do
    desagrado do serviço, forçando o docente a baixar o nível de exigência para evitar
    constrangimentos administrativos.
    II. A Erosão do Poder Disciplinar e o Receio da Denúncia -O Impacto: A imposição de regras de conduta e de respeito na sala de aula passou
    a ser vista como uma ofensa à experiência do cliente. A pedagogia moderna, ao
    focar-se na satisfação do aluno, retirou ao professor os mecanismos punitivos
    céleres e eficazes contra a indisciplina. -A Consequência: Instaurou-se um clima de inversão de papéis. O professor hoje
    atua, muitas vezes, com medo de corrigir um comportamento disruptivo, sabendo
    que a contestação do aluno ou dos encarregados de educação (através de queixas
    à Direção) tem um peso burocrático imenso. A autoridade moral foi substituída pelo
    policiamento preventivo e pela condescendência.
    III. A Subserviência Perante a Gestão -O Impacto: As direções das escolas, pressionadas pelos rankings, pelo
    financiamento e pela necessidade de reter clientes (sobretudo no ensino público
    através dos contratos de autonomia), tendem a dar razão ao cliente para evitar má
    publicidade ou perda de turmas.
    -A Consequência: O professor perdeu o suporte institucional. Quando um docente
    tenta impor autoridade ou reprovar quem não trabalha, vê-se frequentemente isolado
    ou pressionado pela própria hierarquia da escola para rever a nota ou encontrar
    planos de recuperação alternativos que convertam a não aprovação em aprovação.
    A palavra técnica e soberana do professor deixou de ser a última instância.
    IV. Da Vulnerabilidade à Doutrinação e às Modas Ideológicas -O Impacto: Desprovido da imunidade que a sua autoridade científica lhe conferia, o
    professor fica exposto e indefeso face às pressões ideológicas exteriores e às
    tendências vigentes trazidas pelos alunos ou impostas por agendas políticas. -A Consequência: O docente perde a liberdade de contrariar narrativas dogmáticas
    ou simplificações históricas e científicas na sala de aula. Se o fizer, arrisca-se a ser
    denunciado pelo cliente por criar um ambiente desconfortável ou ofensivo, o que
    destrói a essência da escola como espaço de debate livre e eleva o conformismo ao
    estatuto de regra de sobrevivência profissional.
    Em suma, a transição para a Escola-Estado retirou ao professor o estatuto de autoridade
    legítima para o colocar na posição de um prestador de serviços vulnerável, cuja estabilidade
    depende da docilidade com que gere os desejos de quem devia, na verdade, orientar e
    avaliar.

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