Fontaines D.C. – Romance
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Abr 05 2026
Mãe. Pai.
Parem de dizer que as férias são para eu “descansar” se me deixam perdido…
Eu não preciso de liberdade total. Preciso de direção.
Vocês chamam liberdade a deixar-me fazer o que quiser. Eu chamo-lhe abandono.
Deixam-me acordar quando calha, adormecer com um ecrã na cara, comer sem horário, passar horas em jogos e vídeos que nem me lembro depois… e acham que isso me faz feliz?
Não faz.
Excita-me. Distrai-me. Mas não me organiza.
Eu não sei regular isto sozinho. O meu cérebro ainda está a aprender. Se vocês saem do comando, alguém ou alguma coisa entra. E normalmente são os ecrãs.
E os ecrãs não educam. Programam.
Sabem o que é que eu preciso mesmo?
Que me parem.
Que me digam “não”.
Que decidam por mim quando eu ainda não consigo decidir bem.
Preciso de horas. De limites. De rotina suficiente para o meu corpo perceber o que vem a seguir.
Não para me controlarem. Para me darem chão.
E preciso de brincar. A sério.
Preciso de correr até me cansar, de cair, de me sujar, de inventar coisas, de estar aborrecido sem um ecrã a salvar-me a cada minuto.
O aborrecimento não é um problema. É o início do pensamento.
Quando me tiram isso e me dão estímulo constante, estão a roubar-me a capacidade de me organizar por dentro.
Depois chegam as aulas… e eu sou o “agitado”, o “distraído”, o “que não para quieto”.
Mas ninguém vê o que veio antes.
Não é só comportamento. É desregulação.
E agora vocês, professores…
Quando eu voltar… não entrem logo em modo “dar matéria”.
Eu não sou um computador que reinicia em setembro.
Eu venho de semanas sem estrutura, com o cérebro acelerado, com pouca tolerância ao esforço, com o corpo desorganizado.
Se me pedem foco imediato, vão perder-me.
Primeiro ajudem-me a voltar.
Criem rotina clara. Digam-me o que vai acontecer. Repetidamente.
Deem-me pequenas vitórias. Coisas que eu consiga acabar.
Mostrem-me que consigo antes de me mostrarem tudo o que ainda não sei.
Falem comigo como alguém que está a reaprender a estar ali… não como alguém que já devia estar pronto.
E sim, usem aquilo que sabem e usam bem quando não estão cansados.
Não é elogiar tudo. É reconhecer esforço real.
Não é ignorar o erro. É orientar sem humilhar.
Não é motivação vazia. É criar condições para eu sentir competência outra vez.
Se fizerem isso… eu volto mais depressa.
Se não fizerem… vão passar semanas a lutar contra um sistema que eu nem sei explicar.
No fundo, é simples.
Eu não preciso que me facilitem a vida.
Preciso que me organizem o mundo até eu conseguir fazê-lo sozinho.
E isso… começa muito antes de eu entrar na sala de aula.
Por favor, cuide de si. Também ouço as notícias do burnout dos professores. Sei que é muito difícil, mas digo de coração.
PS: Curioso como alguns adultos passam a vida a pedir autonomia… enquanto lhes retiram exatamente aquilo que a constrói: limites claros, estrutura estável e tempo real para serem crianças.
Alfredo Leite
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