5 de Março de 2026 archive
Mar 05 2026
Renovar com 53,4 anos
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Mar 05 2026
Reserva de Recrutamento 41 / Reserva de Recrutamento Concurso Externo Extraordinário 3 – 2025/2026
Estão disponíveis para consulta as listas definitivas de colocação, não colocação e retirados da 41.ª Reserva de Recrutamento 2025/2026 e as listas definitivas de colocação e não colocação da 3.ª Reserva de Recrutamento do Concurso Externo Extraordinário 2025/2026.
Aplicação da aceitação disponível das 0:00 horas de sexta-feira, dia 6 de março, até às 23:59 horas de segunda-feira, dia 9 de março de 2026 (hora de Portugal continental).
SIGRHE – Aceitação da colocação pelo candidato
Listass – Reserva de Recrutamento n.º 41
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Mar 05 2026
Ensinar Não É Substituir o Sistema: Professora no Seu Limite…

Os professores encontram-se, de forma generalizada, num estado profundo de cansaço físico, emocional e profissional. A exaustão acumulada resulta de um sistema educativo que, progressivamente, tem vindo a desvirtuar a essência da função docente, impondo aos professores responsabilidades que extravasam claramente o âmbito da sua formação e das suas competências profissionais.
Urge proceder a uma revisão séria, responsável e urgente do Estatuto da Carreira Docente. Os professores não podem continuar a ser chamados a desempenhar, em simultâneo, o papel de educadores, pais, mães, avós, psicólogos, assistentes sociais, secretárias e técnicos administrativos. A nossa missão central é ensinar, planear, avaliar e promover aprendizagens significativas — não substituir falhas estruturais de um sistema que insiste em transferir responsabilidades para quem já se encontra no limite.
A realidade das salas de aula é cada vez mais complexa. Não é humanamente sustentável exigir a um único professor a gestão pedagógica e emocional de turmas com 23 alunos, incluindo crianças com Perturbações do Espectro do Autismo e outras necessidades educativas específicas, sem os recursos humanos, técnicos e especializados adequados. A inclusão não se decreta; constrói-se com meios, com equipas multidisciplinares e com respeito pelo trabalho docente.
Escolhi esta profissão por vocação. Frequentei um curso superior para ser professora, não para assumir tarefas administrativas que não me competem, nem para desempenhar funções para as quais não fui formada. Se o sistema entende que estas tarefas fazem parte do nosso dever profissional, então devem ser claramente definidas, reconhecidas e devidamente remuneradas.
É igualmente inaceitável que se normalize a observação de aulas entre pares como instrumento de controlo e desconfiança. Não fui formada para fiscalizar o trabalho de outros docentes, nem me considero legitimada para interferir na prática pedagógica de colegas. Esta lógica fere a ética profissional, fragiliza as relações nas escolas e desrespeita a autonomia docente.
Se este caminho persistir, os senhores diretores e o próprio sistema educativo enfrentarão um problema gravíssimo: a ausência de professores. Ninguém aguenta indefinidamente um modelo assente na sobrecarga, na desvalorização e na falta de escuta. Os professores estão cansados de dizer sempre “ámen” a decisões que não os respeitam e que ignoram a realidade do terreno.
Este desabafo não nasce da falta de profissionalismo, mas do excesso dele. Nasce da indignação de quem dá tudo à escola e aos alunos e, ainda assim, sente que a sua voz é sistematicamente silenciada. É tempo de ouvir os professores. É tempo de agir.
Exausta

Sandra Porto Ferreira
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Mar 05 2026
E as Vagas para o tal grupo de Educação Física do 1.º Ciclo?
No país das reformas educativas permanentes e das promessas sempre “já a seguir”, o apuramento de vagas para 2026/2027 chegou com a solenidade habitual, aquele ar de documento sério que decide destinos profissionais, vidas familiares e a estabilidade das escolas. Chegou, foi analisado e, como tantas vezes acontece na educação portuguesa, trouxe consigo uma pequena ausência que não é pequena coisa nenhuma. O grupo de recrutamento de Educação Física do 1.º ciclo simplesmente não está lá.
É uma ausência curiosa. Ainda há poucos meses o Orçamento do Estado para 2026 fazia eco de uma ideia que parecia finalmente entrar no domínio do bom senso. A Educação Física no 1.º ciclo, lecionada por docentes especializados. Uma medida que reconhece o óbvio. Que as crianças precisam de movimento, de aprendizagem motora estruturada, de hábitos saudáveis desde cedo e que isso, como tudo na escola, deve ser feito por quem tem formação para o fazer.
Parecia, portanto, que estávamos perante uma decisão política com tradução administrativa inevitável. Primeiro reconhece-se a necessidade, depois criam-se as condições. Primeiro escreve-se no orçamento, depois planeiam-se os recursos humanos. Uma sequência lógica, quase banal.
Mas a educação portuguesa tem um talento particular para baralhar a lógica mais elementar.
O apuramento de vagas surge e o novo grupo não aparece. Não há vagas, não há planeamento, não há sinal de que a medida esteja sequer a caminho da realidade. O que existe é o velho truque administrativo. Aprova-se a ideia, anuncia-se a intenção, aplaude-se a modernidade da política pública e depois, no momento em que o sistema precisa de a concretizar, instala-se um silêncio burocrático muito confortável.
Porque criar um grupo de recrutamento implica decisões concretas. Implica concursos, necessidades permanentes, integração no sistema. Implica assumir que a Educação Física no 1.º ciclo não é um adorno simpático nem uma atividade quando há tempo ou espaço no horário. Implica tratá-la como disciplina.
E isso, aparentemente, já é demasiado exigente.
Há algo quase fascinante na capacidade da administração educativa para produzir políticas que existem no papel mas não na realidade. É uma espécie de ficção legislativa. O país lê no Orçamento do Estado que haverá Educação Física especializada no 1.º ciclo. Os professores acreditam que o sistema vai preparar-se para isso. As escolas imaginam que finalmente haverá organização e coerência.
Depois chega o documento que deveria transformar a promessa em prática e… nada.
A Educação Física continua naquele limbo muito português em que todos dizem que é importante, mas o sistema age como se fosse dispensável. Discursa-se sobre obesidade infantil, saúde pública, desenvolvimento integral das crianças e estilos de vida ativos, mas quando chega o momento de estruturar a escola para responder a esses desafios, a prioridade evapora-se com uma facilidade impressionante.
Talvez alguém explique que ainda é cedo. Que está em estudo. Que será faseado. Que se trata de um processo gradual. São as palavras preferidas da burocracia quando o que existe, na verdade, é simplesmente adiamento.
Entretanto, o sistema educativo continua a produzir documentos impecáveis e decisões incompletas. Professores continuam à espera de concursos que correspondam às políticas anunciadas. Escolas continuam a gerir expectativas que não dependem delas. E o país continua a acreditar que a escola vai resolver problemas complexos com estruturas que raramente são pensadas até ao fim.
O curioso é que ninguém parece particularmente surpreendido. A educação em Portugal habituou-se a viver entre anúncios entusiasmados e execuções hesitantes. Entre reformas que começam antes de terminar as anteriores e medidas que aparecem no orçamento mas não aparecem nos concursos.
O apuramento de vagas para 2026/2027 é apenas mais um episódio dessa longa tradição.
No papel avança-se. Na prática espera-se. E no meio desta coreografia administrativa ficam, como sempre, as escolas, os professores e os alunos, a assistir a mais uma promessa que entrou no sistema educativo com grande entusiasmo e saiu pela porta discreta da realidade.
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Mar 05 2026
Crianças em fralda, Pais em miniatura – José Manuel Alho

Crianças em fralda, Pais em miniatura
O mundo às avessas na cadeirinha
Na imagem, tal como no quotidiano de qualquer um de nós, já todos vimos, ainda que em sentido metafórico, um daqueles momentos em que um bebé de fralda domina a cena, enquanto a figura adulta encolhe, sentada na cadeirinha, como se fosse o brinquedo obediente que ele exige. É a analogia perfeita de uma parentalidade que abdicou da sua estatura moral. Quando os adultos trocam a autoridade pela ânsia de serem “melhores amigos” dos filhos, deixam de ser porto seguro para se tornarem reféns emocionais de pequenos estrategas, treinados num curso intensivo de chantagem afetiva e consumo imediato.
De pequenos ditadores a grandes problemas
A psicologia já batizou o fenómeno: “síndrome do pequeno imperador”, crianças que crescem convencidas de que tudo gira à volta do seu umbigo, habituadas a negociar cada regra, incapazes de suportar a mínima frustração. Sem limites claros, não nascem cidadãos livres, nascem tiranetes domésticos, prontos a exportar o seu reinado de birras para a Escola, para o recreio, para a sala de aula (Fraiman, 2022; Zolet, 2017).
Pais-democratas, filhos-autocratas
Quando a Escola herda o caos
A deserção política e o futuro em risco
O poder político, ocupado em legislar por cima das escolas e em prometer felicidade instantânea a famílias exaustas, tem contribuído ativamente para desautorizar quem ensina: relativiza regras, burocratiza sanções, desinveste em meios humanos e, sobretudo, recusa-se a dizer o óbvio: sem professores respeitados não há futuro coletivo minimamente decente. Num país que trata a Escola como depósito de crianças e os professores como serviço ao domicílio, o que esta fotografia anuncia não é uma graça inocente da infância. É o retrato antecipado de uma sociedade em que a infância comanda e os adultos, miniaturizados, se limitam a pedir desculpa por ainda existir.
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Mar 05 2026
Foi fatal proletarizar os professores – Paulo Prudêncio
Sucederam-se diversas campanhas eleitorais sem uma linha substantiva sobre a falta estrutural de professores. No essencial, o tema da escola pública e dos seus professores não existe eleitoralmente há quase duas décadas. Estabeleceu-se um crescente desprezo pelo assunto, directamente proporcional à consolidação da fatal proletarização dos professores.
Foi fatal proletarizar os professores
E se um professor romper publicamente com o marasmo, a poderosa bolha político-mediática classificá-lo-á como corporativo e alarmista. Foi assim na recente recuperação do tempo de serviço, e mais atrás com os avisos de que um dia faltarão professores ou que os eleitores se radicalizarão.
Aliás, para além dessa justa recuperação não ter criado qualquer convulsão na função pública, repita-se que a percentagem para a Educação no Produto Interno Bruto (2026) baixará, pela primeira vez desde 1973, do limite mínimo democrático dos 3%. Portanto, foi sensata a opinião de Pep Guardiola a propósito da recente hiper-mediatização de um alegado acto racista num jogo de futebol: “o racismo está em todo o lado. Paguem mais aos professores. Os professores e os médicos devem ser, de longe, os profissionais mais bem pagos da sociedade”.
Na realidade, as gerações que têm governado – dos políticos aos académicos e passando pelos lobistas viciados no financiamento do orçamento do Estado – são responsáveis por este trágico legado. Além de se terem tornado numa espécie de confraria de “bullies” dos professores, tutelam e asfixiam a democracia escolar há quase duas décadas. E não degradaram apenas a carreira. Afastaram preconceituosamente os professores do centro do poder escolar, com resultados negativos estruturais e diários.
A bem dizer, desvalorizaram teimosamente um conjunto de princípios vitais, que se resume em tristes afirmações de governantes: perderam-se os professores, mas ganharam-se os pais; há professores a mais e os excedentes devem emigrar; os directores são os braços direitos do poder que resolverão a falta de professores.
Na verdade, quando Passos Coelho acusa a viciação de concursos públicos, é crucial sublinhar que não há sector da administração pública com a avaliação de profissionais mais viciada do que a Educação e com um concurso de dirigentes (nas escolas), seguido de eleição, mais contaminado por flagrantes irregularidades e parcialidades.
Efectivamente, as escolas são o último reduto do caudilhismo na administração pública, com dirigentes em funções durante quase duas, três ou quatro décadas, e com mandatos que podem chegar aos oito anos. E, a propósito, quem não se recorda dos dinossauros nas autarquias? Pois bem, a limitação de mandatos para cerca de uma década acabou com o flagelo e o recente comboio de tempestades evidenciou a importância desse princípio inalienável.
Mas o que se tornou mais surpreendente no desprezo pela escola como laboratório da democracia foi o desapreço pela aprendizagem. É que a democracia é uma aprendizagem diária, exigente e em permanente construção. Os adultos, a começar pelos professores, têm que ser sujeitos e objectos desse exercício. É crucial para a sua cidadania e um exemplo fundamental para os jovens e para os alunos como futuros eleitores.
Por essa razão, não foi surpreendente a declaração de Miguel Carvalho, autor do livro Dentro do Chega – A face oculta da extrema-direita em Portugal: “os ficheiros estão cheios de professores”. E a afirmação surgiu a propósito dos militantes, ou eleitores, desse partido não conhecerem a História, não acreditarem na ciência, serem seduzidos por desinformação ou protestarem pelo menosprezo profissional a que são votados.
Na mesma linha de erros imperdoáveis, a queda da democracia escolar também se espelha na desvalorização dos conselhos pedagógicos das escolas, com o argumento de que se perdia muito tempo a debater. Repare-se em três resultados:
1. há, no mínimo, 79 escolas que receberam influenciadores que fazem da sexualização das crianças “um negócio”;
2. há várias escolas e universidades que anglicizaram, naquilo que Paulo Guinote denomina por “Cosmoparolismo”, os nomes das actividades ou das organizações;
3. e como súmula dos pontos anteriores, o projecto Teach for Portugal, que não é sequer uma organização do ensino superior, entra nas escolas públicas e promete “carreiras” na linha da falhada e desqualificada privatização sueca da Educação na década de 1990 (os suecos concluíram, “muito tardiamente”, dizem eles, que o orçamento de Estado para a Educação não deve ser objecto de negócios que originem lucros privados).
Resumidamente, é notória a encruzilhada em que caiu a escola pública. Se está feito o diagnóstico da proletarização dos professores e a terapia exige coragem, é seguro que não se enfrentará a crise sem a sua mobilização. Para isso, é crucial devolver à escola o ambiente inteiro e limpo. Apesar do indisfarçável aumento dos custos com tantos anos de inacção, a mudança ainda está nas mãos das gerações que governam.
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Mar 05 2026
O Diretor, o Filósofo e a Caverna
Existe uma pergunta que Platão fez há mais de dois mil e quatrocentos anos e que, com perturbadora atualidade, poderia ser colocada hoje à porta de qualquer escola portuguesa: quem tem o direito, e a capacidade, de governar? Para o filósofo ateniense, a resposta nunca foi simples nem popular. Num tempo em que a democracia de Atenas colocava o destino da cidade nas mãos da maioria, Platão ousou afirmar que não basta viver numa pólis para a saber governar. Governar exige sabedoria. E a sabedoria, dizia ele, nasce da reflexão profunda sobre a justiça.
Em A República, escrita por volta de 380 a.C., Platão organiza a cidade ideal em três classes: os artesãos, os guardiões e os governantes. A cada uma corresponde uma virtude dominante, sendo a sabedoria a marca dos que governam. O governante ideal não é quem tem mais força ou mais popularidade, é quem possui a capacidade racional de ascender das sombras à verdade, do particular ao universal. É o filósofo-rei: aquele que, tendo contemplado o mundo real à luz do conhecimento, regressa à caverna para servir a comunidade, mesmo sabendo que será incompreendido. Este regresso não é opcional. É um dever ético. E é, também, a definição mais exigente de liderança que a filosofia ocidental alguma vez produziu.
Para Platão, educar e governar são inseparáveis. A paideia, o processo de formação integral do ser humano, é o fundamento de qualquer ordem justa. A verdadeira educação é aquela que dá ao homem o desejo de se tornar um cidadão virtuoso, ensinando-o a obedecer e a mandar com a justiça como fundamento. Quem governa a cidade governa, em última análise, as condições em que os seus cidadãos se formam. E quem governa a escola governa as condições em que as crianças crescem como pessoas e como futuros membros de uma comunidade. Este elo entre liderança e formação é o que torna o pensamento platónico tão perturbadoramente relevante para pensar o papel do Diretor Escolar em Portugal.
A legislação portuguesa, nomeadamente o Decreto-Lei n.º 75/2008 e as suas revisões, define o diretor como o órgão de administração e gestão do agrupamento de escolas nas áreas pedagógica, cultural, administrativa, financeira e patrimonial. Exige formação especializada, experiência docente e a apresentação de um projeto de intervenção com missão, metas e linhas estratégicas. No papel, o modelo aponta para um líder forte, legitimado democraticamente e orientado para a comunidade educativa. Na prática, o que muitas escolas portuguesas revelam é um quadro bem diferente, e é aqui que a interpelação platónica se torna mais urgente.
O diretor escolar português vive hoje uma tensão estrutural entre aquilo que deveria ser, um líder pedagógico e reflexivo orientado para o bem comum, e aquilo que o sistema frequentemente o obriga a ser: um gestor sobrecarregado por exigências burocráticas que pouco ou nada têm de pedagógico. Os dados são inequívocos. Segundo um estudo da Federação Nacional de Educação divulgado em janeiro de 2026, 93% dos docentes considera haver excesso frequente de burocracia nas escolas e 62,9% gasta cinco ou mais horas semanais em tarefas administrativas. Um em cada quatro professores passa mais de sete horas por semana em trabalho que nada tem a ver com ensinar. Se este é o retrato do professor, o do diretor é, na maioria dos casos, ainda mais absorvente.
Platão teria uma palavra para este estado de coisas: injustiça. Não no sentido da malícia individual, mas no sentido estrutural, uma situação em que cada parte não consegue cumprir a função para a qual existe. O filósofo-governante que devia pensar sobre a justiça da sua comunidade passa o dia a preencher formulários. O diretor que devia ser o guardião do projeto educativo está preso, não por correntes físicas, mas por correntes burocráticas que o impedem de exercer verdadeiramente a sua função.
Há ainda uma tensão filosófica mais profunda no modelo português. A eleição do diretor pelo Conselho Geral é um ato democrático, e a democracia era precisamente o regime de que Platão mais desconfiava, argumentando que ela tende a colocar no poder os melhores oradores, não os mais sábios. O debate que persiste em Portugal sobre se o modelo de gestão escolar deveria ser mais unipessoal ou mais colegial é, no fundo, uma versão contemporânea desta tensão milenar entre mérito e representação, entre saber e legitimidade popular.
O que Platão nos deixa, acima de todas as divergências possíveis, é uma exigência: que quem governa pense. Que reflita sobre a justiça. Que não confunda a gestão dos meios com a clareza sobre os fins. O diretor que questiona, que tem uma ideia clara do que a escola deveria ser e age em conformidade, é herdeiro desta tradição. O diretor que meramente executa, que se escuda na norma para não decidir, permanece prisioneiro da caverna.
Se queremos escolas que formam cidadãos livres e críticos, precisamos de diretores que sejam eles próprios livres e críticos. Precisamos de líderes com tempo para pensar, e de um sistema que lhes permita fazê-lo. Platão dizia que quem é fraco no ato de pensar não é bom governante. Talvez o problema das nossas escolas não seja tanto que os diretores não pensem. É que o sistema não lhes permite fazê-lo. E isso, sim, é uma questão de justiça
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