A Futurália, feira da educação a decorrer na FIL, é uma mistura entre o plástico das canetas promocionais e a ansiedade adolescente, como se cada stand fosse uma pequena promessa de futuro.
E basta olhar em redor para ter a engenharia aqui, a enfermagem ali, um curso de videojogos mais adiante, e os rapazes e raparigas a passearem entre as bancas com sacos cheios de prospectos como quem recolhe mapas de países para sempre por visitar.
E de repente, entre universidades, escolas profissionais e cursos de línguas, um stand do Chega.
Um partido político numa feira de educação é como um vendedor de tempestades numa feira agrícola.
Não é totalmente estranho, dirão alguns, a política também educa, também ensina, também promete e promove futuros.
Não obstante, no balcão, entre bandeiras e panfletos, aqui estão os cartazes contra a imigração mais a “grande substituição”, essa teoria conspirativa segundo a qual as elites pretendem substituir a população europeia por imigrantes vindos de outros países.
Mas eles são a elite…
A ideia, popularizada por Camus, é um dos pilares retóricos da extrema-direita europeia.
Imagino um rapaz de dezassete anos a parar ali, não porque acredita em teorias conspirativas, mas porque a frase é simples, directa, individual: alguém está a roubar-te o lugar. É uma explicação rápida para quem cresce num mundo onde as casas são caras, os salários são baixos, o custo de vida vai para além do impossível e o futuro não é senão um espelho embaciado.
Os jovens gostam de frases curtas.
Os adultos gostam cada vez mais de frases curtas.
A política tradicional oferece relatórios, estatísticas, planos estratégicos para 2040. A nova política oferece slogans capazes de caber num TikTok. Entre um gráfico e a indignação, o cérebro, extenuado, escolhe a indignação.
Assim, este stand numa feira de educação não é apenas uma curiosidade, é um sintoma.
E a feira da educação já não é um mercado de futuros, mas um mercado de medos.
E se a escola ensinou aqueles miúdos a resolver equações, a distinguir um advérbio de um predicado, ao mesmo tempo olvidou algo igualmente essencial: como lidar com o medo de quem se vê num repente dispensável.
E quando aparece alguém a dizer “a culpa não é tua, a culpa é deles”, a frase entra na cabeça como uma chave mestra numa fechadura.
Porque no populismo a pertença, e digam lá vocês qual o jovem a querer priorizar o conhecimento quando pertencer é tão ou mais importante.
É mais importante.
E um stand de um partido político não é uma licenciatura, é uma tribo.
As universidades prometem carreiras, a política promete identidade. Entre a incerteza e a certeza emocional, votamos nas emoções e pelas emoções.
Porque um discurso feito de simplificações numa feira de educação, é como um megafone numa biblioteca.
Faz barulho.
E os jovens, ainda a aprender a distinguir entre ruído e argumento, ficam ali a ouvir.
Talvez passem e riam, talvez ignorem, talvez um ou dois levem um folheto para casa.
Não há problema: a política habituou-se a trabalhar com pequenas probabilidades, bastando um punhado de conversões por dia para moldar uma geração inteira.
E assim nascem as sociedades. Esta sociedade.
Não com grandes revoluções, súbitas e sangrentas, mas com pequenas infiltrações, uma banca aqui, um discurso ali mais esta ideia a crescer como uma erva daninha entre as pedras da calçada.
E quando estes jovens chegarem aos trintas com as duas mãos cheias de nada, lembrar-se-ão daqueles cartazes e de quem, supostamente, roubou-lhes o futuro.
Resta uma pergunta: quem autorizou um stand do Chega numa feira da educação?
E neste texto a armadilha de sempre quando um partido político é mestre em propaganda: não interessa falar bem ou mal do Chega, conquanto se fale.
Mas quando o silêncio rima com consentimento, as palavras não são apenas canções, são armas, e é urgente lutar.
https://www.publico.pt/2026/03/12/sociedade/noticia/feira-educacao-acolhe-stand-chega-cartazes-antiimigracao-associados-teoria-substituicao-2167609