Sou pai de 3, licenciado em Psicologia, formador de professores e de pais.
E digo isto com clareza: há uma minoria que continua a cometer um erro grave. Confunde exigência com agressão. Confunde desconforto com injustiça. Confunde um adulto que pede mais com um adulto que está errado.
Não sou, nem quero ser, “adorado por todos os alunos”. Não sou o “gajo fixe”. Nem quero ser. Não vou à escola competir com o recreio, com o telemóvel ou com a lógica do entretenimento. Vou para trabalhar a sério com jovens. E trabalhar a sério implica, por vezes, pedir silêncio, postura, escuta, atenção e responsabilidade.
Isto tem de ser dito sem medo: educar não é agradar. Nunca foi. Um adulto que só procura ser aceite pelos alunos pode até sair aplaudido, mas não está necessariamente a formar ninguém. Há momentos em que crescer dói no ego. Há momentos em que pensar custa. Há momentos em que ouvir uma verdade, ou ser chamado à responsabilidade, incomoda. Isso não é violência. Isso é educação.
A psicologia do desenvolvimento explica isto muito bem. Crianças e adolescentes nem sempre relatam os acontecimentos com objetividade. Muitas vezes relatam-nos através do filtro emocional com que os viveram. Não contam apenas o que aconteceu. Contam o que sentiram sobre o que aconteceu. Isso não faz deles mentirosos. Faz deles jovens. E é precisamente por isso que o papel dos pais continua a ser tão importante.
Felizmente, a maioria dos pais percebe isso. Escuta os filhos, acolhe o que sentem, mas não transforma automaticamente a primeira versão numa sentença. Essa maioria merece respeito, porque sabe que educar também é filtrar, pensar, perguntar e distinguir entre “não gostei” e “foi realmente errado”.
Mas também é preciso ter coragem para pôr o dedo na ferida.
Há professores, coordenadores e equipas que organizam atividades, convidam profissionais, preparam sessões, tratam autorizações, horários, logística, articulação interna e riscos reputacionais. Fazem esse trabalho com esforço genuíno e quase nunca são protegidos como deviam quando surge a primeira queixa. E isso é profundamente injusto.
Quem organiza sabe o que isto custa. Sabe o trabalho invisível que está por trás de cada iniciativa. Sabe que basta uma frase retirada do contexto, um aluno contrariado ou um pai mais reativo para se instalar uma tempestade desproporcional. E, mesmo assim, continuam a tentar trazer qualidade às escolas. Continuam a tentar abrir horizontes aos alunos. Continuam a arriscar. Esses professores e organizadores merecem mais do que prudência institucional. Merecem respaldo moral.
Porque a verdade é esta: é muito fácil defender uma atividade quando ela é leve, simpática e consensual. Difícil é defender uma intervenção que exige, confronta e obriga a pensar. Mas é precisamente aí que se vê a fibra de uma escola.
E depois há o contraste embaraçoso com certos influencers. Muitos conseguem adesão imediata porque fazem exatamente o contrário do que um adulto formativo deve fazer. Baixam a fasquia. Dizem o que alguns alunos querem ouvir. Trocam exigência por aplauso rápido. Dão validação sem profundidade. E depois admiram-se que os jovens achem “brutal”. Claro que acham. Ser validado sem ser desafiado é sempre agradável. O problema é que isso pode entreter muito e formar muito pouco.
Nem tudo o que encanta educa. Nem tudo o que diverte estrutura. Nem tudo o que parece próximo faz crescer.
Por isso, quando se discute quem entra nas escolas, a conversa não pode ficar pela superfície. A responsabilidade não é só do profissional convidado. É também de quem convida, de quem autoriza, de quem avalia, de quem se cala e de quem só aparece para reagir quando há ruído. Direções, associações de pais, conselhos pedagógicos e famílias têm de assumir a sua parte. Uma comunidade educativa séria não pode funcionar apenas como central de gestão de queixas. Tem de ter critério. Tem de ter coluna vertebral.
A escola não pode tornar-se refém da popularidade. Se o critério para validar um adulto for o número de alunos que saem a dizer “foi brutal”, então desistimos da educação e ficamos só com performance.
A pergunta central é simples e ninguém devia fugir dela: queremos adultos que entretenham os jovens ou adultos que os ajudem a amadurecer?
Porque uma escola que só acolhe o que agrada pode acabar a rejeitar precisamente aquilo de que mais precisa: adultos consistentes, exigentes e suficientemente íntegros para não confundir ser aceite com ser útil.
No fim, o problema não é haver adultos que exigem. O problema é haver cada vez mais gente incapaz de tolerar que educar, às vezes, passa por pedir aos jovens mais do que eles tinham vontade de dar.
Alfredo Leite