8 de Março de 2026 archive

O ofício do cansaço: heróis do queixume e mártires silenciosos – José Manuel Alho

O cansaço verdadeiro é silencioso.
O falso cansaço é barulhento, teatral, dramático. O autovitimismo, chamemos-lhe assim, é uma forma muito conveniente de esconder a preguiça e a lei do menor esforço com um verniz de “sou tão dedicado que até fico exausto”.
Não são exaustos. São é pouco dados ao trabalho e muito dados à narrativa.

O ofício do cansaço: heróis do queixume e mártires silenciosos

A epidemia do cansaço performativo: quando o lamento suplanta o esforço

Há por aí uma nova epidemia, daquelas que não passa nos telejornais: a pandemia do cansaço performativo. Gente fresca, rosadinha, com ar de quem dorme oito horas, faz sestas ao fim de semana, vai ao brunch e ainda tem tempo para séries e ginásio, mas que abre a boca sempre com o mesmo refrão: “Estou tão cansado… Nem imagina…”

Cansadas de quê, exatamente? De mandar dois emails, ir a uma reunião e carregar no “enviar” do Teams? De terem um dia “cheio” porque tiveram de abrir três fichas em PDF e carregar num link? É um cansaço muito curioso: não lhes pesa no corpo, só no discurso. O cansaço virou credencial, crachá, cartão de visita. Não trabalham muito, mas cansam-se imenso… de falar sobre o quanto trabalham.

Depois há o outro lado. Os tipos que andam a funcionar à base de comprimidos para dormir, comprimidos para não desmaiar, cafés em série e uma agenda que não cabe em lado nenhum. Gente que trabalha até cair, que chega a casa arrastada, que passa noites a preparar coisas, a pensar em problemas, a resolver o que ninguém vê. Gente que, no dia seguinte, aparece: faz o que tem de ser feito, aguenta, segura o barco. Esses, regra geral, dizem só: “Vamos andando”.

É fascinante ver como o mundo aplaude os mártires de cartão. Os que dramatizam cada tarefa: “Foi um dia puxado…”, “Nem tive tempo para respirar…”, “Isto está impossível…”. Depois vamos a ver, e o “dia puxado” cabia num horário de part-time. A produtividade é baixa, o ruído é altíssimo. Trabalham pouco, mas cansam muito o ambiente à volta. Mas, curiosamente, são vistos como dedicados, empenhados, quase heróis do esforço.

O silêncio dos que seguram o mundo: os verdadeiramente exaustos não têm tempo para dramatizar

Já os que se levantam cedo, voltam tarde, vivem carregados de responsabilidades, carregam a casa às costas, a escola às costas, os miúdos às costas, o trabalho às costas, esses não têm tempo para espetáculo. Não se vendem como mártires, não se autofotografam em modo sofrimento, não fazem conferências de imprensa sobre o seu esgotamento. Engolem, em seco, tomam a medicação, respiram fundo e seguem. Sem medalha. Sem palmas. Sem post motivacional.

No fim, o que se vê é isto: o cansaço verdadeiro é silencioso.
O falso cansaço é barulhento, teatral, dramático. O autovitimismo, chamemos-lhe assim, é uma forma muito conveniente de esconder a preguiça e a lei do menor esforço com um verniz de “sou tão dedicado que até fico exausto”.
Não são exaustos. São é pouco dados ao trabalho e muito dados à narrativa.

Talvez um dia se aprenda a diferença entre estar cansado de fazer e estar cansado de existir.
Até lá, os que realmente se sacrificam vão continuar invisíveis, sem condecorações, sem discursos, sem palco.
Os outros continuarão a desfilar o seu cansaço cor de rosa, muito bem penteado, muito bem ensaiado.
E o mais irónico é isto: quando, um dia, os verdadeiramente cansados caírem, o mundo vai perguntar, muito surpreendido: “Mas estava assim tão mal?”

Estava. Só não andava aí a fazer disso profissão.

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A Hidra de Lerna entrou na escola – Carmen Garcia

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Feliz dia Internacional da Mulher

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A prisão de Verão – Alberto Veronesi

Há temas que regressam ciclicamente, como as marés teimosas. Um deles é o da escola que, em vez da casa de saber, se converte numa prisão de verão. Digo-o a propósito do prolongamento do calendário escolar para o pré-escolar e o 1.º ciclo até 30 de junho, essa ideia luminosa que talvez brilhe apenas à distância, lá onde o termómetro do real nunca toca o vidro da janela.
Escrevo, como sempre, a partir de quem esteve onde o quadro e a caneta se misturam com o bafo do calor. Foram mais de vinte e cinco anos ligados ao ensino, vinte deles em frente a uma turma. Há quem acredite que é fácil mitigar temperaturas quando as janelas, quando as há, não abrem, as cortinas, quando existem, não fecham e o sol de junho decide fazer da sala uma pequena estufa pedagógica. Para esses, deixo o convite. Venham experimentar uma tarde de 23 °C lá fora e 28 °C cá dentro, respirando o mesmo ar de vinte e quatro alunos. Talvez então compreendam o que é “ensinar com convicção”.
Mas admito! Compreende-se a leveza da opinião de quem fala sem o corpo presente, sem a pele no jogo. Quem nunca pisou uma sala de aula ou já dela se esqueceu tende a achar que o desconforto é detalhe. Mesmo quem mora em paragens mais frescas julga que o calor se vence com boa vontade, talvez com uma ventoinha e uma garrafa de água. O problema é que a realidade raramente se dobra à imaginação dos gabinetes.
Não falo por achismo, mesmo que queiram isso fazer entender. Há dados, estudos, evidências. Basta lê-los. O Parecer sobre organização do tempo escolar do Conselho Nacional de Educação (2017). O trabalho de Oliveira e colegas (2017) sobre condições térmicas em ambientes de ensino. Os relatórios da OCDE (Education at a Glance 2025) e o artigo de Cuartas et al. (2025) sobre o impacto do calor no desenvolvimento infantil. Até Gomes et al. (2012), no LNEC, mediram o óbvio e concluiram que o calor afeta o desempenho, a concentração, o bem-estar. Estes argumentos, para uns iluminados, é uma miséria intelectual. Para os que sofrem junho a dentro, miseráveis são os que comentam sem conhecimento de causa!
Por isso, se alguém se sente atingido por estas palavras, nada tema: é apenas porque a carapuça assentou.

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Sobre “influencers” e escolas – João André Costa

 

Há dias nos quais a escola mais parece o recreio de outros tempos, do meu tempo, quando o barulho das crianças subia pelas paredes como hera.

O barulho das crianças sobe pelas paredes como hera.

Isto porque agora é moda em Portugal termos as associações de estudantes a convidarem “influencers” digitais para animarem as eleições para as ditas associações.

E quando digo “influencers”, digo homens de corpo feito e, literalmente, tronco nu, cheios de música e abdominais diante de centenas de telemóveis mais milhares de seguidores, e uma biografia digital onde, entre muita dança e agitação, aparecem ligações para plataformas onde o corpo é para vender em parcelas, e quem diz parcelas, diz fatias, e fatias enormes devidamente iluminadas debaixo de néons duvidosos.

Imagino o pátio cheio, os adolescentes comprimidos junto ao palco improvisado, o eco das colunas a reverberar nas janelas da sala de História, e aquela figura ali em cima ainda ontem a filmar outro tipo de espectáculo para outro público, talvez num quarto alugado ou numa cozinha.

A escola, esta escola, em Portugal, mais parece uma casa com a porta escancarada por um sem número de tempestades, e com as tempestades, infelizmente, igual rasto de destruição.

A porta, meus caros, é para fechar a sete chaves e com uma palavra ao melhor estilo de um policial: DBS.

Disclosure and Barring Service, mais conhecido por DBS check, um organismo criado para verificar quem pode ou não trabalhar com crianças, um arquivo interminável de corredores e pastas cinzentas onde cada nome é sujeito às devidas perícias, desde o registo criminal à pegada digital.

Independentemente se quem entra é um putativo, literalmente, professor de matemática, um técnico de informática, um auxiliar de ação educativa, vulgo contínuo, ou um convidado da associação de estudantes.

A todos é requerido a apresentação do papel. Qual papel? O papel, o certificado, o requisito, a chave-mestra e invisível capaz de abrir esta porta, este emprego, esta sala, diante destas crianças.

Até porque sem o papel, a escola permanece fechada na serenidade obstinada de uma grande muralha, a da China de preferência.

Pode esta pessoa trabalhar com crianças?

Se o nome aparecer na lista de indivíduos impedidos de entrar em contacto com menores, a resposta é definitiva e óbvia. O mesmo quando a actividade digital é imprópria para menores.

Esta pessoa não pode ensinar, não pode organizar actividades nem fazer apresentações. Esta pessoa nem sequer pode estar à porta da escola.

Porque em primeiro lugar, e acima de tudo, está o bem estar físico e emocional das crianças com as quais trabalhamos todos os dias.

E para quem pode, e deve, trabalhar com os petizes, cabe a cada escola manter um registo destas averiguações, nomes de gente grande e séria com data, certificado e a autorização devidamente carimbada pela chefia.

Sejamos claros: o salário de um professor em Portugal é equivalente ao salário de um Teaching Assistant em Inglaterra. E em Inglaterra, não é preciso um curso universitário para se ser Teaching Assistant.

O custo de vida? É igual.

Nestes termos, exigir a um professor mil e uma tarefas administrativas e burocráticas não é apenas uma brincadeira de mau gosto. É um insulto. É uma bofetada todos os dias.

E até aqui, estamos todos de acordo.

A discordância surge quando o adulto diante destas crianças vem com o único propósito de angariar mais seguidores à custa de plataformas para maiores de 18 anos de idade.

E num repente os nossos alunos, jovens, influenciáveis, sequiosos de atenção, amigos, aceitação e seguidores, a emularem as mesmas actividades.

Só não vê quem não quer.

Ou quem não sabe.

Ou quem não quis saber.

E quem não quis saber tem a minha idade.

Peço desculpa pelo legado da minha geração.

Porque a fama não abre portas, o número de seguidores não é um certificado e a histeria juvenil não é um pretexto. É apenas histérica.

Ao mesmo tempo, a escola não se pode arrogar a abrir as janelas para deixar entrar o mundo inteiro quando o mundo inteiro são os algoritmos a dançar nos ecrãs.

É elementar.

E sim, em Inglaterra o mundo também entra, mas primeiro tem de mostrar a mala, confirmar a identidade, carimbar um papel.

Só depois se abre a porta.

E mesmo assim devagar, já sabemos bem a força do vento.

 

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