Há momentos em que um sistema não falha apenas nos resultados, falha na confiança que inspira. A polémica em torno da correção dos exames nacionais é um desses momentos.
Não se trata apenas de classificações, recursos ou critérios de avaliação. Trata-se da perceção, cada vez mais instalada, de que aquilo que deveria ser o momento de maior rigor e equidade da escola portuguesa acabou envolvido em dúvidas, contradições e comunicação deficiente. E quando a confiança vacila, todos perdem.
É importante separar duas ideias. Uma coisa é admitir que um processo complexo pode ter erros. Outra, bem diferente, é gerir esses erros de forma hesitante, alimentando a sensação de improviso. Foi aqui que “deu barraca”.
Num sistema que mobiliza milhares de alunos, centenas de escolas e milhares de professores classificadores, é inevitável que existam situações excecionais. O que já não deveria ser inevitável é a ausência de mecanismos suficientemente transparentes para explicar, corrigir e prevenir essas situações.
Também não faz sentido transformar os professores e as escolas em bodes expiatórios.
Por outro lado, também não ajuda fingir que tudo funciona bem.. Assumir não é sinal de fraqueza, é sinal de maturidade institucional. O país precisa de um debate menos emocional e mais técnico. Há perguntas que merecem respostas objetivas.
Reconhecer falhas, explicar o que aconteceu, corrigir o que correu mal e implementar melhorias concretas é muito mais eficaz do que insistir numa narrativa de infalibilidade em que já ninguém acredita.
No fundo, esta polémica pode transformar-se numa oportunidade. Não para alimentar guerrilhas entre professores, ministério, mas para reforçar um sistema que deve ser, acima de tudo, justo, transparente e credível.
Porque o verdadeiro problema nunca é um erro isolado.
O verdadeiro problema é quando um erro deixa de ser uma exceção e passa a gerar desconfiança.
Se desta polémica resultar um processo de revisão séria dos mecanismos, então alguma coisa de positivo poderá nascer desta “barraca”.
Caso contrário, estaremos apenas a adiar a próxima.
E isso, para um sistema educativo que vive da confiança de toda a sociedade, seria a pior classificação possível.



