Quem é que trouxe estes ídolos para o centro da vida dos adolescentes? – Alfredo Leite

Parece-me que há aqui uma pergunta central que muita gente evita porque dá mais jeito ter um alvo humano do que pensar com seriedade: uma diretora que fala de forma informal, com boa-fé, a sorrir como parte do seu modo de ser, deve ser crucificada em praça pública? Não. Isso não é justiça.

O caso dos influenciadores nas escolas é muito grave. A investigação tornada pública no início de março mostrou que, nos últimos dois anos letivos, dezenas de escolas receberam influenciadores associados a conteúdos sexualizados ou misóginos, no contexto de campanhas de associações de estudantes.

Depois disso, a Inspeção-Geral da Educação e Ciência abriu inquérito a diretores citados, e o Ministério anunciou um grupo de trabalho para definir orientações mais claras para a entrada de entidades externas nas escolas.

O problema existe e que não é pequeno.

Mas uma coisa é reconhecer a gravidade do problema. Outra, muito diferente, é transformar alguém no bode expiatório perfeito para alguns que  adoram lavar as mãos depois de deixar a porta aberta durante anos.

Pergunto:
Quem é que trouxe estes ídolos para o centro da vida dos adolescentes?

Foi a diretora?

Foi ela que lhes ofereceu o primeiro smartphone sem preparação, sem filtro, sem literacia digital, sem supervisão?

Foi ela que construiu plataformas que recompensam choque, sexualização, provocação e estupidez rentável?

Foi ela que meteu a internet inteira no bolso de crianças e jovens e depois fingiu espanto quando esse mundo entrou pela escola dentro?

Não nos enganemos. Os jovens não começaram a consumir estes conteúdos no portão da escola. Chegam já impregnados deles, moldados por algoritmos, por cultura digital agressiva e por um mercado que lucra com atenção capturada cedo demais.

A escola, muitas vezes, não tem ferramentas suficientes para acompanhar a velocidade com que surgem novos “ídolos” digitais…

E isso não absolve erros de verificação!!

Mas ajuda a pensar como adultos em vez de reagir como uma multidão excitada.

Outra pergunta:

Uma conversa informal, fora do registo solene, deve ser tratada como confissão pública de culpa?

Uma pessoa que sorri enquanto fala deve ser lida como cúmplice entusiasmada?

Desde quando um sorriso habitual passou a ser prova de perversidade?

E há ainda uma questão ética que merece ser enfrentada: se alguém entrou numa escola, ganhou confiança numa conversa informal e depois usou gravações ou excertos fora desse contexto para fabricar escândalo público, isso é jornalismo de elevação? Ou, no mínimo, um método que levanta sérias dúvidas de ética profissional?

Usar boa-fé relacional como armadilha não dignifica quem informa. Rebaixa-o. E rebaixa ainda mais quando se escolhe uma pessoa concreta para concentrar uma culpa que é estrutural.

Porque o sistema inteiro falhou.

Falharam famílias que entregaram acesso total ao mundo digital demasiado cedo.

Falharam plataformas que monetizam degradação.

Falhou uma cultura que trocou autoridade adulta por medo de desagradar.

Falhou o Estado ao não antecipar, com orientações claras, um fenómeno que já andava à vista de todos.

Falharam também escolas, algumas delas, por não escrutinarem suficientemente quem entra.

Mas quando todos falham, é intelectualmente preguiçoso esmagar apenas a cara mais visível do momento.

Defender a Diretora  não é dizer que nas escolas deve entrar qualquer pessoa. Não é relativizar a proteção das crianças e dos jovens. Não é desculpar ingenuidades institucionais. É recusar a selvajaria mental de confundir erro, contexto, informalidade ou até eventual excesso de confiança com malícia ou indignidade pessoal.

Uma diretora é hoje uma figura quase masoquista, como foi bem dito: responde por tudo, carrega a pressão toda, faz triagem, resolve conflitos, apaga fogos, tenta proteger a escola, e muitas vezes só descobre a total dimensão do problema depois de ele rebentar cá fora. Exigir rigor faz sentido. Exigir omnisciência é delírio.

Queremos mesmo proteger os alunos?

Então paremos de fingir que isto começou numa conversa de corredor.

Começou muito antes. Começou no momento em que uma geração recebeu um ecrã antes de receber critério. Começou quando a sexualização passou a circular disfarçada de humor, sucesso e influência. Começou quando demasiados adultos desistiram de estudar a cultura digital dos filhos e dos alunos,

Se alguns entregam a formação afetiva e sexual dos jovens aos algoritmos, depois têm o direito de fingir surpresa quando o caos aparece na escola?

Alfredo Leite

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6 comentários

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    • OraBolas on 11 de Março de 2026 at 7:36
    • Responder

    Tudo verdade.
    No entanto sabemos como são os jovens, sempre á procura de fazer asneiras.
    Quando por qualquer motivo um aluno sugere fazer algo como passar um filme escolhido pelo próprio, nunca permito, pq nunca sai nada de bom. A não ser que eu próprio já tenha visto o filme.
    Extrapolando,
    Nunca devem ser as associações a escolherem os visitantes das escolas, sem haver a devida verificação, isto é bom senso.
    Existe da parte dos diretores boa fé e muita ingenuidade.

      • Anónimo on 11 de Março de 2026 at 7:59
      • Responder

      Existe muita lambe-botice aos elementos dos Conselhos Gerais, isso sim!
      Os diretores são uns sabujos ordinários dos políticos. Vejo isso desde Milú.
      Partir do princípio que quem manda nas escolas e no país tem mais discernimento ético do que um miúdo da primária é um erro. Aliás, a maior parte das vezes são imensamente piores.

        • José Fernandes on 11 de Março de 2026 at 9:13
        • Responder

        Se não mostrasse atraso mental, teria uma resposta adequada – contudo, como denota que é um imbecil hediondo, pejado de ignorância, burrice e má-fé, que destila ódio por desconhecimento, primeiro deve procurar ajuda e perceber qual o seu trauma: complexos de inferioridade dão em comentários como o que fez!

    • Maria Lopes on 11 de Março de 2026 at 8:34
    • Responder

    Publiquem esse texto, por favor, nalgum jornal de tiragem nacional 👏

      • ECCT on 11 de Março de 2026 at 9:36
      • Responder

      Concordo, enviem para tudo que é jornalista, esta mania de crucificar pessoas têm que acabar, é importante uma reflexão coletiva, quem nunca foi ingénua? Habituei-me a responder automaticamente( espera, não, sim) a um filho que aproveitava para pedir quando eu estava muito ocupada “Posso…?” Isso permitia-me tempo para reflexão. Não esqueço depois de muitos pedidos e insistências para tomar café o ter deixado num sábado à noite. Consequência uma noite sem dormir, dele e minha, mas o fim da insistência. O cuidado de ver um filme que ele queria alugar e decidir que não era adequado à sua idade, no saudoso Blockbuster, nunca ele soube que o alugyei e vi. Ler um livro antes de lho dar para as mãos. Sempre “espiolhei” , não fosse ” o diabo tecê-las “.

    • José Fernandes on 11 de Março de 2026 at 9:43
    • Responder

    Raramente comento aqui porque, desafortunadamente, este é um espaço pejado de boçalidades de alguns energúmenos que me recuso a ver como docentes. Após este introito, quero dar os parabéns ao autor, pela clarividência demonstrada – o que devia ser óbvio e axiomático, é distorcido por quem quer palco e desconhece a realidade profunda do sistema de ensino português. A honestidade intelectual que demonstra é aquela que carece a grande parte dos “comentadeiros”, baseados em perceções, má-fé e gritante ignorância. A Educação é um assunto demasiado sério para ser conspurcada por imbecis. Parabéns!

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