98% dos professores do 1.º ciclo e educadores de infância estão exaustos?? – Alfredo Leite

Quando aparece uma notícia a dizer que 98% dos professores do 1.º ciclo e educadores de infância estão exaustos, indignados e sobrecarregados, a reação das pessoas costuma dividir-se.

E isso, por si só, já diz muito sobre o problema.

Há quem olhe para esta realidade e pense imediatamente: claro.

Basta entrar numa escola, observar a intensidade do trabalho diário e perceber que estes profissionais vivem no cruzamento de quase todas as pressões do sistema. Ensinam, regulam comportamentos, acolhem emoções, lidam com conflitos, adaptam estratégias, preenchem relatórios, falam com famílias, respondem a exigências institucionais e ainda tentam manter humanidade no meio disto tudo…

Para muitas pessoas, a exaustão destes profissionais não surpreende.

Mas existe também um segundo grupo, muito comum, que concorda com a ideia, embora a relativize. São aquelas pessoas que dizem: sim, estão cansados, mas hoje toda a gente está cansada.

É uma resposta meio empática, meio defensiva. Reconhece o problema, mas dilui-o. Como se o facto de haver cansaço em muitas profissões reduzisse a gravidade do que se passa na educação. Não reduz.

Porque no pré-escolar e no 1.º ciclo o desgaste tem uma particularidade: acontece precisamente nos contextos onde se constrói a base emocional, relacional e cognitiva !

Quando quem está a segurar essa base está no limite, o problema deixa de ser “apenas laboral”, passa  a ser social.

Depois há quem reaja com desconfiança ou até irritação, sabia?!

Este grupo tende a achar que os professores se queixam demais, que têm regalias, que têm horários melhores do que outras profissões ou que a profissão sempre foi exigente.

O erro aqui, a meu ver,  é olhar de fora para a escola, com memória de outros tempos.

A profissão mudou muito. Hoje, um docente é também regulador emocional, gestor de conflitos, mediador familiar, técnico de adaptação pedagógica, intérprete de comportamentos difíceis e, muitas vezes, alvo direto da frustração de um sistema que pede cada vez mais e organiza cada vez pior.

Olhar para esta profissão com categorias de há trinta anos é como avaliar um “telemóvel” atual como se ainda servisse só para telefonar.

Há ainda um grupo que vê nisto um sintoma de uma degradação mais ampla da sociedade. Estas pessoas não pensam que o problema esteja apenas na escola. Pensam que a escola está a pagar a fatura de várias falhas acumuladas: menos tempo de qualidade em família, menos consistência nos limites, mais ecrãs, menos tolerância à frustração, mais exigência emocional sobre os adultos, mais burocracia institucional e uma cultura geral onde tudo é urgente, tudo é sensível e quase nada é profundamente resolvido. Neste olhar, o professor e o educador aparecem como uma espécie de parede final contra a qual batem as insuficiências de todos os outros setores.

E depois há uma reação mais silenciosa…a de quem percebe que, se os profissionais que trabalham com crianças estão exaustos, isso é um sinal de alarme!

Porque no pré-escolar e no 1.º ciclo não se está apenas a ensinar letras, números ou rotinas…está-se a modelar atenção, linguagem, autorregulação, convivência, confiança e relação com o aprender.

Quando os adultos responsáveis por esse processo estão esmagados por tarefas, ruído e desgaste, a qualidade invisível da educação começa a cair. E a tragédia é que essa queda nem sempre aparece logo nas estatísticas. Aparece primeiro no clima. No tom. Na paciência. Na criatividade que desaparece. Na energia que já não chega para reparar, inspirar ou observar bem.

É por isso que a opinião pública fica dividida. Porque uma parte das pessoas vê o sofrimento destes profissionais e entende-o. Outra parte vê-o, mas banaliza-o. Outra desconfia. Outra usa-o como espelho de um problema maior. No fundo, a sociedade oscila entre empatia, incompreensão e resignação.

E esse é talvez, a meu ver, o aspeto mais inquietante: muita gente já aceita como normal que quem educa esteja profundamente cansado.

Ora, quando o esgotamento dos adultos que sustentam a infância começa a parecer normal, o problema fica dramático.

E você? De que lado se coloca?

PS: Parabéns à jornalista Manuela Micael, pelo artigo.

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2026/03/98-dos-professores-do-1-o-ciclo-e-educadores-de-infancia-estao-exaustos-alfredo-leite/

3 comentários

    • Isabel on 21 de Março de 2026 at 11:31
    • Responder

    Eu coloco-me do lado de todos os professores.
    Nao dou os parabéns a esta jornalista, pelo contrário, continuamos a alimentar a divisão entre os professores.
    Calada estava melhor.

      • Paula on 21 de Março de 2026 at 14:04
      • Responder

      a divisão ou ausência de equidade patente no ECD desde há 20 anos a esta parte alguma vez a incomodou?

    • Manuel, o impoluto on 21 de Março de 2026 at 14:18
    • Responder

    Concordo a 100% com a Isabel.
    Balelas. O 1.o Ciclo está sempre a chorar… O que fazem exatamente? Os miúdos chegam ao 5oAno sem saber ler, nem escrever e não sabem fazer contas. Tabuada? Nem pensar.
    A minha professora primária tinha as 4 classes na mesma sala e ainda preparava os alunos para exame final!

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