21 de Março de 2026 archive

98% dos professores do 1.º ciclo e educadores de infância estão exaustos?? – Alfredo Leite

Quando aparece uma notícia a dizer que 98% dos professores do 1.º ciclo e educadores de infância estão exaustos, indignados e sobrecarregados, a reação das pessoas costuma dividir-se.

E isso, por si só, já diz muito sobre o problema.

Há quem olhe para esta realidade e pense imediatamente: claro.

Basta entrar numa escola, observar a intensidade do trabalho diário e perceber que estes profissionais vivem no cruzamento de quase todas as pressões do sistema. Ensinam, regulam comportamentos, acolhem emoções, lidam com conflitos, adaptam estratégias, preenchem relatórios, falam com famílias, respondem a exigências institucionais e ainda tentam manter humanidade no meio disto tudo…

Para muitas pessoas, a exaustão destes profissionais não surpreende.

Mas existe também um segundo grupo, muito comum, que concorda com a ideia, embora a relativize. São aquelas pessoas que dizem: sim, estão cansados, mas hoje toda a gente está cansada.

É uma resposta meio empática, meio defensiva. Reconhece o problema, mas dilui-o. Como se o facto de haver cansaço em muitas profissões reduzisse a gravidade do que se passa na educação. Não reduz.

Porque no pré-escolar e no 1.º ciclo o desgaste tem uma particularidade: acontece precisamente nos contextos onde se constrói a base emocional, relacional e cognitiva !

Quando quem está a segurar essa base está no limite, o problema deixa de ser “apenas laboral”, passa  a ser social.

Depois há quem reaja com desconfiança ou até irritação, sabia?!

Este grupo tende a achar que os professores se queixam demais, que têm regalias, que têm horários melhores do que outras profissões ou que a profissão sempre foi exigente.

O erro aqui, a meu ver,  é olhar de fora para a escola, com memória de outros tempos.

A profissão mudou muito. Hoje, um docente é também regulador emocional, gestor de conflitos, mediador familiar, técnico de adaptação pedagógica, intérprete de comportamentos difíceis e, muitas vezes, alvo direto da frustração de um sistema que pede cada vez mais e organiza cada vez pior.

Olhar para esta profissão com categorias de há trinta anos é como avaliar um “telemóvel” atual como se ainda servisse só para telefonar.

Há ainda um grupo que vê nisto um sintoma de uma degradação mais ampla da sociedade. Estas pessoas não pensam que o problema esteja apenas na escola. Pensam que a escola está a pagar a fatura de várias falhas acumuladas: menos tempo de qualidade em família, menos consistência nos limites, mais ecrãs, menos tolerância à frustração, mais exigência emocional sobre os adultos, mais burocracia institucional e uma cultura geral onde tudo é urgente, tudo é sensível e quase nada é profundamente resolvido. Neste olhar, o professor e o educador aparecem como uma espécie de parede final contra a qual batem as insuficiências de todos os outros setores.

E depois há uma reação mais silenciosa…a de quem percebe que, se os profissionais que trabalham com crianças estão exaustos, isso é um sinal de alarme!

Porque no pré-escolar e no 1.º ciclo não se está apenas a ensinar letras, números ou rotinas…está-se a modelar atenção, linguagem, autorregulação, convivência, confiança e relação com o aprender.

Quando os adultos responsáveis por esse processo estão esmagados por tarefas, ruído e desgaste, a qualidade invisível da educação começa a cair. E a tragédia é que essa queda nem sempre aparece logo nas estatísticas. Aparece primeiro no clima. No tom. Na paciência. Na criatividade que desaparece. Na energia que já não chega para reparar, inspirar ou observar bem.

É por isso que a opinião pública fica dividida. Porque uma parte das pessoas vê o sofrimento destes profissionais e entende-o. Outra parte vê-o, mas banaliza-o. Outra desconfia. Outra usa-o como espelho de um problema maior. No fundo, a sociedade oscila entre empatia, incompreensão e resignação.

E esse é talvez, a meu ver, o aspeto mais inquietante: muita gente já aceita como normal que quem educa esteja profundamente cansado.

Ora, quando o esgotamento dos adultos que sustentam a infância começa a parecer normal, o problema fica dramático.

E você? De que lado se coloca?

PS: Parabéns à jornalista Manuela Micael, pelo artigo.

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Por trinta euros – João André Costa

 

Havia uma criança, mas isso é de somenos importância, como se as crianças fossem uma espécie de poeira pousada ao de leve algures na vã memória dos adultos, e visível apenas quando a luz incide com um certo e determinado ângulo.

Trinta euros, indagaram, com a indiferença de quem põe de lado outras tantas migalhas, e a palavra “prazo” tombada sobre a mesa desde a Sexta-feira passada, a data limite para requerer duas semanas de refeições gratuitas durante as férias escolares para esta família em apuros.

A Direção da escola, composta por vozes amestradas a falar em conjunto sem dizer nada, alinhou argumentos como quem alinha talheres.

Falaram de regras, de processos, formalidades, de rigor financeiro, como se o orçamento fosse uma flor delicada e, ao mesmo tempo, exigente, para de seguida falarem de desvios mais o pecado original das exceções.

E no papel, nas linhas, nos números organizados num orgulho silencioso, nada para encher o estômago vazio de uma criança.

Primeiro a escola, afirmaram sem precisar de afirmar, primeiro a estrutura invisível responsável por sustentar a ordem, depois, e só depois, se houver margem, se houver folga, se houver um milagre capaz de permitir um gesto, a criança.

Mas a escola, essa estrutura de paredes e papéis, não respira sem os corpos pequenos de quem por ela entra todos os dias.

A escola não existe sem estes passos incertos nos corredores mais os olhares de quem ainda não aprendeu a disfarçar a necessidade.

E, no entanto, ali estava ela, a criança, reduzida a um pedido fora de prazo, a um erro administrativo, a uma linha não coincidente com a data certa.

A criança em casa, durante as férias, diante de um prato inexistente, a abrir armários como quem repete um gesto inútil, na esperança de alguma coisa, e alguma coisa é, invariavelmente, nada.

Nada mudou durante a noite e não aconteceu nada.

E a escola de portas fechadas duas semanas inteiras sabendo estar do lado de lá um corpo pequeno entregue ao intervalo da fome, e as férias são para desfrutar e não para incómodos e aborrecimentos de pouca relevância.

Porque a escola não se pode dar ao luxo de parecer flexível, de falhar perante quem avalia de cima, de abrir uma brecha impossível de fechar.
A palavra “precedente” circula como um fantasma, um fantasma mil vezes mais assustador se comparado com a fome de um petiz apenas.

E por um petiz não pára o mundo.

Mas devia.

E se uma criança não é uma ameaça, as vozes a gritar de cima são uma ameaça, e uma ameaça concreta.

Por conseguinte, escolhe-se o caminho mais fácil e mais seguro: recusar, arquivar, e seguir em frente com a consciência tranquila de quem cumpriu o seu dever burocrático.

Não sei como é possível dormir à noite depois disto.

Trinta euros, repito, como quem testa a solidez de uma palavra, como quem espera ver o número crescer, engordar ao ponto de uma gravidade capaz de justificar a recusa.

Mas não, mantém-se mínimo, risível, uma quantia capaz de se evaporar no dia a dia de qualquer adulto, um almoço a correr, uma despesa sem memória.

E ainda assim, naquele momento, transformou-se numa fronteira, uma trincheira, uma guerra perdida à partida.

Imagino as férias desta criança, quatorze “não-dias”, quatorze repetições, manhãs iguais onde a carência se instala devagar. E do outro lado, adultos com discursos anafados, a ruminar regulamentos numa convicção tranquila, certos de como proteger o sistema é uma espécie de virtude.

E quando a escola se esvazia, quando as luzes se apagam e os corredores devolvem apenas o eco dos passos ausentes, sobra uma instituição impecável, sem falhas no relatório, sem desvios no orçamento.

Do lado de fora do portão sobra uma criança fora do prazo.

E ninguém parece escutar esta aritmética simples: sem a criança, sem esta e outras crianças, a escola é apenas um conjunto de quatro paredes inúteis, assim como inúteis são os nossos empregos e respectivos salários.

Sem crianças, ninguém precisa de professores e os professores são dispensáveis.

São pormenores administrativos.

No fim, pagaste os trinta euros do teu bolso. Esta não é a escola com a qual sonhaste.

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