Há um dado que devia inquietar muitas famílias portuguesas, embora provavelmente passe despercebido entre notificações e ecrãs ligados à mesa de jantar. Um estudo recente indica que quase nove em cada dez crianças e jovens entre os 9 e os 17 anos em Portugal já utilizaram ferramentas de inteligência artificial, e que 85% recorreram a estas tecnologias apenas no último mês.
À primeira vista, a notícia pode parecer motivo de orgulho tecnológico. Jovens curiosos, ferramentas avançadas, criatividade digital. O discurso otimista é conhecido: a inteligência artificial pode apoiar o estudo, ajudar a organizar ideias, estimular a aprendizagem. Tudo verdade. O problema começa quando se olha um pouco mais fundo e um pouco mais para dentro das casas.
A empresa de cibersegurança ESET chama a atenção para algo menos confortável: muitos jovens não usam apenas estes sistemas para estudar ou pesquisar. Em vários casos, começam a tratá-los como interlocutores pessoais. Pedem conselhos, desabafam, partilham preocupações. Em suma, conversam com eles como se fossem alguém.
O fenómeno é fascinante do ponto de vista psicológico, e profundamente revelador do ponto de vista social.
Porque uma criança não procura um “companheiro digital” apenas porque a tecnologia existe. Procura-o porque há um vazio que precisa de ser preenchido.
Durante a infância e a adolescência, o cérebro humano constrói as suas competências emocionais através da relação com outras pessoas: ouvir, discutir, discordar, negociar, sentir empatia. Esse processo exige tempo, atenção e disponibilidade adulta. Não algoritmos.
No entanto, em muitas famílias contemporâneas, o tempo de conversa tornou-se um recurso escasso. Pais cansados, agendas cheias, telemóveis sempre presentes. O resultado é um paradoxo curioso: nunca houve tantos meios de comunicação e nunca tantas crianças se habituaram a falar sozinhas diante de um ecrã.
Quando um jovem recorre a um chatbot para pedir conselhos sobre amizades, ansiedade ou problemas escolares, o fenómeno não é apenas tecnológico. É relacional.
A inteligência artificial, nesse momento, está apenas a ocupar um lugar vazio à mesa.
Naturalmente, há riscos evidentes. Sistemas automatizados não compreendem emoções humanas no sentido real do termo; simulam respostas com base em padrões linguísticos. Para um adolescente vulnerável, essa simulação pode criar uma ilusão de compreensão que não corresponde a uma relação verdadeira. Ao longo do tempo, a preferência por interações previsíveis, educadas, disponíveis, sem conflito, pode tornar o contacto humano mais difícil e menos tolerável.
É precisamente isso que preocupa especialistas em comportamento: a possibilidade de alguns jovens começarem a privilegiar conversas com máquinas em detrimento das relações humanas, favorecendo formas subtis de isolamento social.
Mas talvez a questão mais incómoda seja outra.
A inteligência artificial não invadiu a infância portuguesa. Foi convidada a entrar.
Entrou nas mochilas digitais, nos quartos, nos telemóveis oferecidos cada vez mais cedo. Entrou muitas vezes sem regras, sem orientação e, sobretudo, sem adultos por perto para contextualizar aquilo que estas ferramentas são ou não são.
É fácil culpar a tecnologia. Mais difícil é admitir que, para muitas crianças, um chatbot tem uma vantagem competitiva clara em relação aos adultos da casa: está sempre disponível para ouvir.
A ironia é quase perfeita. Pais preocupam-se com o tempo que os filhos passam a falar com máquinas, quando a pergunta talvez devesse ser outra: quanto tempo passam os filhos a falar com eles?
Enquanto essa resposta continuar a ser desconfortável, a inteligência artificial continuará a prosperar no território mais silencioso da vida familiar, aquele onde deveria existir conversa.



