Não é intencional que este texto seja lamechas, mas se calhar é lamechas… Se for, paciência… Afinal, até as miríficas e indispensáveis Cartas de Amor serão “ridículas”, intuindo-se que também sejam lamechas, nas geniais palavras de Álvaro de Campos…
Além de lamechas, também é possível que este texto possa ser julgado como um bocadinho chato… Mas, em minha defesa, lembrem-se que Edmund Husserl continua a ser lido, e até idolatrado, por muitos “ devotos fiéis”, apesar de também haver quem o considere como “o maior de todos os chatos”, com uma mensagem iminentemente indecifrável e ininteligível para o comum dos mortais…
Agora que já me desculpei, ou pelo menos tive esse intuito,obviamente à procura de justificações que possam levar à“absolvição”, cá vai:
Na Escola Pública, cada vez mais, se finge que está tudo bem, cedendo-se, amiúde, à toxicidade da “ditadura” dos afectos positivos e da felicidade impingida, onde dominaa falácia das aparências optimistas e a contenção dos sinais exteriores de desânimo ou de infelicidade…
Implicitamente, chega-se, até, ao cúmulo de correlacionar (in)felicidade com (in)competência:
– Quem não é feliz, quem não se mostra feliz, é porque é incompetente…
Mas a realidade, por vezes dolorosa e frustrante, de difícil admissão para muitos, encontra-se frequentemente pontuada por problemas e dificuldades muito concretos, impossíveis de serem ignorados ou escamoteados…
Há uns dias atrás, ouvi alguém, afirmar o seguinte:
– “Quem fica calado, esconde melhor a sua dor”…
Quem fica calado, esconde melhor a sua dor? Talvez…
Ainda que também se comunique pelo silêncio, ficar calado acaba mesmo, muitas vezes, por ser uma forma de esconder a dor, de dissimular ou omitir o que realmente se sente…
O silêncio de quem fica calado, nem sempre é sinónimo depaz interior, de serenidade ou de apaziguamento… Muitas vezes, essa aparente e ilusória tranquilidade decorre do sentimento de vergonha e do medo de mostrar certos estados emocionais, em particular os que possam ser interpretados como “fragilidades” ou “fraquezas”…
Quanta tristeza, quanta solidão, quanta vergonha, quanto desânimo, poderão estar aprisionados no silêncio dos que ficam calados?
Nas escolas parece existir muito silêncio dos que escondem a sua dor, sobretudo motivada pelo desânimo e pela exaustãofísica e psicológica…
Tantas vezes se clama por Liberdade, tantas vezes se enaltece a Liberdade, tantas vezes se diviniza a Liberdade, mas tantas vezes não a praticamos connosco próprios…
Suponho que, por vezes, tenhamos medo e vergonha de praticar a Liberdade connosco próprios… Talvez tenhamos medo e vergonha da possibilidade de ficarmos “desnudados”, demasiado expostos e à mercê dos julgamentos e do cinismo alheios…
Opta-se, então, muitas vezes, pelo fingimento e também pelos sorrisos forçados…
E não estou sequer a falar daquele fingimento com um sentido intencionalmente perverso, destinado a enganar terceiros porvia da falsidade…
Estou a falar de um fingimento mais “ingénuo”, de certa forma também menos doloso, que costuma enganar, em primeiro lugar, aquele que o pratica…
E, tantas vezes, se finge tão bem e se é enganado pelo próprio fingimento…
Parece, até, haver exímios praticantes da “arte do fingimento”, aparentemente capazes de o elevar ao mais alto patamar, chegando mesmo a “fingir que é dor, a dor que deveras sentem”, assim à laia de um poeta fingidor como o de Fernando Pessoa…
Mas com franqueza, que se lixem os julgamentos e o cinismo alheios!
Conseguir verbalizar e exteriorizar o próprio sofrimento ou os problemas que nos afectam, aparece frequentemente como uma impossibilidade: o medo e a vergonha, que nos levam a reprimir a expressão de tais contrariedades, ganham muitas vezes esse desafio…
Nessas circunstâncias, resta-nos a prisão do silêncio, ficar aturdido pelo som do silêncio ou cego pela escuridão do silêncio…
Mas por que raio havemos de ter medo e vergonha de expressar as nossas angústias, os nossos problemas? Acaso isso nos fragiliza? Acaso isso nos torna menores? Acaso isso não faz parte de nós?
Mas por que raio será tão difícil assumir o que nos preocupa, as nossas desventuras, as nossas inquietações ou as nossas inseguranças?
Acaso estaremos rodeados de “semideuses”, invencíveis, perfeitos, imaculados, sempre virtuosos e acima de qualquer padecimento humano?
Cada um de nós, pelas suas características pessoais irrepetíveis, é um ser único…
Cada um de nós também é um ser inteiro… Quando se abdica de ser inteiro, implicitamente, perde-se a Liberdade, tolera-se a prisão e aceita-se ser coarctado…
Quem quererá viver assim?
No ideal, cada um de nós deveria ser capaz de viver a vida na condição de inteiro, sem necessidade de recorrer ao silêncio para esconder a dor, sem medo e sem vergonha de a assumir…
Sem medo, sem vergonha e, já agora, sem esquecer este imperativo:
– “Para ser grande, sê inteiro” (Ricardo Reis)…
Viver é preciso!
A morte, ainda que metafórica, é dispensável e pode esperar…
Que se lixem os julgamentos e o cinismo alheios!
Paula Dias



21 comentários
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Concordo, mas muita da culpa também pode ser atribuída aos psicólogos que embarcam em fantochadas pseudo-científicas para martelar a ideia que a culpa é do indivíduo que não se adapta e não do sistema que não funciona.
A autora deste texto é psicóloga e pelo que a própria escreveu não parece que embarque nas “fantochadas” aludidas por si, portanto quando refere “aos psicólogos” está a generalizar abusivamente. Nem todos os psicólogos embarcarão nessas “fantochadas”. E os professores? Embarcam ou não nessas fantochadas? Eu diria que alguns embarcam, outros não.
Os psicólogos são outra praga a mamar na teta da escola por cunha camarária! Generalis vulgo: só não vê quem não quer!
ADPTALL
Adapatite é a doença mais produzida e com diagnósticos versáteis de escolita em escolita.
O ditador defenso da sua “libedade” prossegue impune , culpando a govenança ausente e omnipotente. Será ele e só ele o maior incompetente .
O sistema é a soma de muita incompetência canalha que para sobreviver se mantém acéfala.
O problema é que quem se mostrar “negativo” incomoda toda a gente à volta. Mas todos gostam de quem sorri (se não for demais; a felicidade alheia também é incomodativa). Coitadinhos… É uma cultura de merda. Por acaso, espanta-me a quantidade de professores que expressam felicidades e sentidos do dever para com a comunidade escolar, nomeadamente “os nossos meninos” (mânfios preguiçosos e sem educação), de modo quase maníaco. O mundo está doente e a escola, no mundo, doente está.
Não há dinheiro neste mundo que pague a minha Liberdade. No entanto, tive de escolher entre ser livre e inteira ou adaptar- me ao sistema e ter uma catrafada de falsos acompanhantes. Nesta escolha, descobri, também, o meu apaziguamento interior, a minha saúde mental que me permite dormir 8h todos os dias, sem recorrer a drogas.
ADPTALL indeed the Best HIPOCRISIA DOENTIA
Durma 24/24 horas e vai resultar na merda melhorada para si e todos os que lhe evitam pensar como vossa mercê.
Pois é, Paula Dias, mais uma na “mouche”!
Não há como um psicólogo para falar de uma comunidade escolar. Ainda que estejam apenas para tratar dos problemas dos alunos também olham para os adultos e para o seu sofrimento.
As escolas deviam ter psicólogos para ajudar os professores nos conflitos com alunos e com os pares.
Não é aquele colega( geralmente nojento) que faz a instrução dos processos disciplinares dos professores, não ! A Dgest bem descartou esse trabalho a troco de zero. Então há um/ uma que se arma em doutor e que faz a instrução desses casos. Porque mediação é coisa que não sabe fazer. Enfim. Com MLR cada vez apareceram mais burros nas escolas com livros as costas.
A quantidade de pessoas que sofre calada nas escolas é enorme!
Algumas vão se embora assim que podem, rescindindo o contrato. As do quadro adoecem. Algumas morrem de repente sem aparentemente estar doentes. Já presenciei casos desses.
Outras suicidam se.
Mas ninguém se importa. As direções não se tocam.
Ninguém quer saber da saúde mental dos professores. Os professores estão completamente abandonados.
As escolas são organizações doentes. A precisar de serem analisadas. Deviam humildemente deitar se no divã e falar…
Boas, Para Francisco!
Daqui Papa Pio V.
Então mas tu não nasceste para sofrer?
Irmão tens uma ideia muito antiga da religião. Puderes ti viveste no tempo da inquisição e foste inquisidor.
Podias ter escolhido melhor nome., também te digo!
Eu vivo nos tempos modernos. Sou um papa atual. Venho da América latina, sou produto da teologia da libertação. Defendo os mais frágeis, vivi entre os mais desprotegidos, andava de autocarro, tinha passe e lancheira.
É com esses que me quero. E luto para que o mundo não seja de sofrimento. Que haja distribuição de riqueza e todas religiões se dêem bem pois todas têm um mesmo Deus. As que não têm só um , tem vários que encarnam valores positivos.
São no fundo todas muito parecidas. Não sei porque se guerreiam há tantos milhares de anos. Os homens podiam ser mais inteligentes mas só vêem a ganância. Olha porque é que o Trump ganhou as eleições. Economia. Que importam os valores humanos.
Nem me quero lembrar que vou ter de me encontrar com ele. Por que são estes americanos tão católicos? Se só praticam o egoísmo, a desumanidade com os imigrantes.
Enfim. Fico me por aqui, Pio.
As religiões têm muito que se lhe diga. E eu como deves calcular não posso dizer tudo, tudo.
Boa!!!
Deixem-se de fantochadas, sabem bem que estamos a ser escravos de um trabalho altamente desgastante a nível emocional, principalmente o DT, mais as horas e horas de burocracia e já nem me refiro ao intectual, quando nos dão 4, 5, 6, 7 ,8 níveis para leccionar.
Mas há alguém aqui nos ouve?
Eu sou daquelas que desisti de preencher os tais formulários. Mas, para quê? No início eram do meu sindicato, FENPROF, depois vi que, coordenado pela sr. dr. Raquel Varela não dava nem deu em nada, a ela só lhe interessa política contra a direita. A seguir, deixei de responder, porque essa srª não levava nada a cabo.
Agora, desisti, porque tanto faz falarmos como não, ninguém nos ouve, só ouvem os alunos do ensino universitário, coitadinhos, como se nós não tivéssemos passado por lá.
Em suma, como toda a gente nos ignora, não existimos, somos os tais “Invisíveis”, título, por acaso de um filme. Estamos iguais.
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Isto lembra-me o título de um filme “O silêncio dos inocentes”…
Na mouche, Paula.
Mas cada vez há mais “colegas” nas escolas insidiosos, falsos e manipuladores.
Vejo coisas inaceitáveis do ponto de vista ético. Gente nojenta. Canalha. Velhaca.
Mas ainda agora a procissão vai no adro.
Com o que está a ser feito à Educação desde há 20 anos para cá, desde há ano e meio que se está a assistir ao degredo final do sistema, com a entrada de gente vinda de mestrdos via ensino, que mais não são do que passagens administrativas de gentalha mal-formada, ignóbil e canalha. Não pensem que falo “dos mais novos”. Falo de todos os que entram agora no sistema, independentemente da idade.
Acreditem que, se não se fala, isto tudo vai acabar muito mal.
Aos sempre diligentes directores do blogue:
https://www.cmjornal.pt/portugal/detalhe/ministerio-da-educacao-investiga-diretora-do-agrupamento-de-escolas-de-terras-de-bouro
Excelente noticia. Grande mulher!.
Até que enfim que os funcionários das escolas abrem a pestana contra os diretores. Digo, ditadores !
E os professores deviam fazer o mesmo. Mas têm medo. São umas baratas.Deixam se humilhar, abalroar . Choram, etc.
Mas não fazem nada.
é simples parem de alimentar e financiar os lobis das escvmalhas…
Concordo, Paula. Falta(ou) chamar os bois pelos nomes. O clima irrespirável nas escolas é da responsabilidade dos diretor@s, profundamente tóxicos, e do modelo de gestão. Sem mas.
Fiquei muito tocado por essa reflexão sobre o silêncio. Muitas vezes, o que as pessoas não dizem é mais significativo do que o que falam.
Que texto poderoso, Paula. Tão honesto, tão cru, e ao mesmo tempo tão necessário. Vivemos mesmo numa cultura que idolatra o sorriso fácil e a positividade tóxica, esquecendo que a dor, a tristeza e o silêncio também fazem parte da existência — e são legítimos. Fingir bem virou quase um talento obrigatório… mas a que custo? Que bom que alguém teve coragem de dar voz a esse silêncio que tantos carregam. Que se lixe mesmo o cinismo alheio. Obrigado por este murro no estômago — daqueles que acordam.