Professores: não percam tempo! – Joaquim Ruivo

Por estes dias dei despacho a caixotes de papelada, acumulados por mim e pela minha mulher ao longo de 40 anos, no nosso percurso de professores de História. Fiquei abismado e perplexo.  Por tanta “papelada” lida e produzida, incluindo as dos Ministérios (leis, orientações curriculares e pedagógicas, esclarecimentos, guias, normativos), a papelada de centenas de estudos sobre práticas pedagógicas, orientações curriculares, planos, currículos, testes, material de apoio, normas para avaliação, relatórios de alunos, atas, justificações, planos de recuperação, medidas de apoio, cadernetas de alunos, material de apoio às aulas, sínteses para exames, exercícios de apoio…

Professores: não percam tempo!

No fim de 40 anos de serviço, como docente, dou por mim a lamentar tantos dias perdidos a escrever, planeando, programando, avaliando, justificando. Dou conta que desperdicei grande parte do tempo da minha vida em tarefas inúteis e inconsequentes. Senti que dei ao desbarato alguns milhares de horas da minha vida de volta da “papelada”, desnecessariamente.

Dei por mim desiludido pelo tempo perdido em tanta burocracia educativa e pedagógica. Uma imposta, outra criada. E depois os manuais. Guardei os anteriores aos anos 80 e lancei na reciclagem todos os posteriores. Centenas de manuais, de várias editoras, profusamente ilustrados, numa confusão de imagens e textos, acompanhados de centenas de cadernos de apoio para alunos e professores. Cheios de questões, com propostas de exercícios, grafismos saturantes, cadernos com fichas de actividades, com fichas de remediação, com sugestões de leitura, com links para sites, com CDs e DVDs, PowerPoints, vídeos de apoio e de consolidação de aprendizagens…

E depois comparei com os manuais de há 40 anos e mesmo os anteriores, ainda do Estado Novo. Pedagógica e didaticamente eficazes. As sínteses essenciais, os documentos essenciais, sem imagens desnecessárias, sem grafismo feérico e distractivo. E, dando o desconto aos manuais do Antigo Regime claramente politizados, dei por mim um retrógrado! Vejam lá: a apreciar a capacidade de síntese desses manuais, nas matérias e nos conteúdos aí expressos, bem como a apreciar as bem estruturadas questões essenciais de aprendizagem.

Dei por mim um retrógrado a desejar voltar à singeleza dos métodos pedagógicos e à didática sóbria e eficaz. Ensinar o que deve ser ensinado, sem ruído, sem perturbação, sem excesso de multimédia, sem excesso de conteúdos.

Dei por mim a desejar a exigência do esforço da memorização, para que os alunos até à 4ª classe, possam saber, por exemplo, a sucessão de reis portugueses, as dinastias e os períodos históricos, de trás para a frente.

Dei por mim a desejar que a História possa preparar bem os alunos, nem que para isso se admita que há necessidade de corrigir as práticas pedagógicas, depurar os programas e dar sobriedade aos  manuais, exigir memorizar e exigir trabalho.

Dei por mim a desejar que os professores tenham tempo de ensinar.

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15 comentários

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    • FF on 4 de Dezembro de 2024 at 21:34
    • Responder

    Foi um prazer ler este texto.
    Infelizmente é uma fotografia perfeita da realidade.
    Creio que a papelada só acabará quando não houverem professores. Somos os maiores responsáveis pela produção de papelada e proliferação de tarefas inconsequentes e produção informação redundante e repetida. Quando não há, inventa-se.

    • Mainada on 4 de Dezembro de 2024 at 22:24
    • Responder

    Faz todo o sentido. Os ditos *cientistas* da educação são tudo menos cientistas, uma espécie de feiticeiros da aldeia. Quanto ao resto, tudo é simultaneamente tão complexo e tão vazio, com tantas provas dadas de não funcionar e, ainda assim, tão mais crescentemente pesado que não se consegue aguentar. A diferença entre nós é que eu não coleciono objetos satânicos.

    • Pedro António on 4 de Dezembro de 2024 at 23:39
    • Responder

    Posso concordar com algumas coisas, com a muita papelada que não faz milagres. Contudo, nem tudo é tempo perdido, se calhar, sem sabermos alguém ou muitos alunos ficaram mais bem formados, melhores pessoas, sei lá…, há no texto muito saudosismo e pessimismo…

    • Calves on 4 de Dezembro de 2024 at 23:47
    • Responder

    Foi com gosto que li o seu texto!
    Penso que muitos de nós nos revemos nele.
    Mas as novas gerações de professores já não vão ter de se desfazer de caixotes de materiais pedagógicos, manuais e livros que sustentaram as suas práticas, às portas da aposentação.
    O “caldo” em que se estão a formar é outro.

    • Alexandra Corte-Real on 5 de Dezembro de 2024 at 6:01
    • Responder

    Revejo- me totalmente no seu texto. O papel, a grelha,o relatório,e tantas outras burocracias assumiram e engoliram a alma da escola.Perde- se o essencial: o aluno e a arte de ensinar e de aprender.

    • Mic on 5 de Dezembro de 2024 at 12:21
    • Responder

    É uma pena que os nossos governantes e, principalmente, os “cérebros peregrinos da inovação escolar” não tenha a capacidade de ler textos deste teor.

    • Rui Filipe on 5 de Dezembro de 2024 at 14:49
    • Responder

    Bem sei! Já passei pelo mesmo…
    Ainda dizem que as vaquinhas causam poluição!…

    • Carlos Saraiva on 6 de Dezembro de 2024 at 9:11
    • Responder

    Menos papelada! Para poder ensinar mais? Para avaliar? Para poder encher de papelada os alunos com fichas, testes? Para poder ser mais eu comigo? Para ninguém ter nada a ver com o que faço, como e quando faço? Para apenas eu ter o direito a definir o que faço, como e quando faço com os alunos?
    É tudo uma questão de perspetiva.
    Mais do que a ‘papelada’, seria interessante questionar que papelada? Como é quando utilizar? É sobre isto, nada! Não vê nada! São 30 anos à espera! Continuarei sentado à espera.

    • NIKREL on 6 de Dezembro de 2024 at 18:21
    • Responder

    Meus caros amigos, para além de tudo o que já foi dito, por mim falta acrescentar que a escola como instituição de ensino, desde já há algumas décadas (o princípio dos sucessos escolares), deixou de ser um espaço para se ensinar, mas sim, para os pais depositarem os seus filhos e os professores passarem a ser os seus “babás”, ou seja, os professores é que ficaram com a responsabilidade institucional de cuidarem, educarem, ensinarem, tratarem dos problemas sociais, psicológicos, etc., etc. Mais, se as escolas funcionassem 24H, existem pais e encarregados de educação, que fariam da instituição escolar, um internato permanente para os seus filhos. A lei faz referência que os pais são responsáveis pelos seus filhos até estes serem maiores de idade. Actualmente, que responsabilidade legal é imputada aos pais e encarregados de educação, que não se interessam pelo percurso escolar dos filhos, ou cujos filhos são um poço de problemas dentro da instituição escolar? O professor é pau para toda a obra? E o que é que a actual sociedade considera “O sucesso escolar”, tanto referido e apelidado pelos sucessivos governos? É passar os meninos mesmo que estes não aprendam nada no percurso escolar? É criar novas gerações sem lhes incutir o pensamento crítico e estruturado? Afinal o que é a escola e para que serve? Na minha óptica, só serve para números políticos, desprezando e desrespeitando todos os que ainda hoje lutam pela dignidade que esta instituição merece. Sem ela, não temos uma sociedade forte, crítica e democrática. Mas o futuro mostrará os resultados dos sussevivos sucessos escolares implementados pelos sussevivos governos.

      • NIKREL on 6 de Dezembro de 2024 at 23:11
      • Responder

      Errata: onde está escrito sucessivos, é sucessivos. Ao escrever, o corretor da escrita do telemóvel fazia a alteração da palavra sem ter apercebido do facto. As minhas desculpas pelo erro.

      NIKREL

    • Ana Grave on 6 de Dezembro de 2024 at 19:24
    • Responder

    Como concordo consigo!
    Que bom era quando os alunos sabiam o suficiente de História para perceberem Os Lusíadas e reconhecerem as figuras que neles surgem!

    • NIKREL on 6 de Dezembro de 2024 at 23:11
    • Responder

    Errata: onde está escrito sucessivos, é sucessivos. Ao escrever, o corretor da escrita do telemóvel fazia a alteração da palavra sem ter apercebido do facto. As minhas desculpas pelo erro.

    NIKREL

    • NIKREL on 6 de Dezembro de 2024 at 23:14
    • Responder

    Errata: onde está escrito sucessevivos, é sucessivos. Ao escrever, o corretor da escrita do telemóvel fazia a alteração da palavra sem ter apercebido do facto. As minhas desculpas pelo erro.

    NIKREL

  1. Não acho que isso seja uma perda de tempo. O conhecimento que acumulou através de muitas páginas de livros foi transmitido a muitas gerações de estudantes. Pode não se aperceber, mas os seus alunos estão definitivamente a ouvir e a aprender algo valioso.

    • fuitee on 30 de Julho de 2025 at 2:58
    • Responder

    eggy car: thank!

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