Eles não querem ser avaliados foi, nas bolhas política e mediática, a diminuição mais repetida sobre os professores e sumariza uma das causas da crise do capitalismo democrático. É da família da desistência das classes trabalhadoras no voto nos partidos de centro-direita e de centro-esquerda. Percebe-se melhor acrescentando uma adaptação de uma célebre síntese: é a humilhação, estúpido! Essa desistência é evidente nos EUA, alastra-se nas democracias ocidentais e faz temer pela sobrevivência dos regimes.
Eles não querem ser avaliados
Aliás, não seria a primeira vez que a democracia se apagava e é surpreendente como há quem o ignore ou relativize. Em 2020 e como exemplo, só em 2% das democracias é que 75% dos cidadãos estavam satisfeitos com o regime (é ler Martin Wolf). Em paralelo com esse crepúsculo, aumenta o número de territórios subjugados por autocracias e acentua-se o risco de o poder cair, paulatinamente, em despotismos e delinquências.
Mas sistematize-se o debate. Descrevam-se os pontos de contacto entre a desistência das classes trabalhadoras e a “fuga” estrutural de profissionais das administrações públicas, escolhendo os professores.
Resumam-se pontos inquestionáveis deste milénio, mas iniciados, na década de 1980, com a desregulação do capitalismo democrático: ajustados à inflação, os salários actuais das classes médias e baixa são inferiores aos praticados há 30 anos (ou mesmo 50 anos em algumas democracias); a trágica crise das dívidas soberanas – uma complexa associação de variáveis – teve um pico na crise financeira global entre 2007 e 2012, e as políticas de austeridade, que humilharam as classes médias e baixa – acusando-as de viverem acima das possibilidades -, caíram moralmente quando os partidos de governo, e as suas elites financeiras, se desacreditaram na ligação a falências bancárias, a casos de corrupção e a organizações não escrutinadas que capturaram os orçamentos dos estados.
Mas a humilhação é mais profunda. Nas classes trabalhadoras, há um ressentimento inultrapassável com a “tirania do mérito” (é ler Michael J. Sandel) resultante da “impossibilidade” de ascensão social e material sem um diploma de ensino superior. Os humilhantes programas de meritocracia Kafkiana para as massas dividiram as classes médias e baixa. Estimularam lutas de ódio e inveja social, burocratizaram a actividade sindical e instituíram a sociedade dos zangados.
Como a escola pública é um valor precioso da consolidação da democracia, detalhe-se o estado dos professores portugueses (um caso de sucessivos atrasos e ineditismos) e, se necessário, raciocine-se por indução para os outros grandes grupos profissionais.
Eles não querem ser avaliados sintetiza a humilhação dos professores e a sua falta estrutural. Se ensinar é difícil, exigente e complexo – e avaliado ao minuto dentro da sala de aula -, torna-se num desgaste diário insuportável sem uma retaguarda forte e civilizada. Impor, e fazer gala disso, farsas administrativas a avaliar o desempenho – sem qualquer “olhos nos olhos” e com quotas, vagas e pontuações até às centésimas – e em ambientes de autocracia, indisciplina e inferno burocrático, alimentou a vexação e a não atractividade do exercício.
Quem testou estes modelos abandonou-os de imediato. Os nórdicos nunca o fizeram. Classificaram-nos como aberrações e, de resto, resistiram aos efeitos do capitalismo desregulado e selvagem porque tinham classes médias maioritárias, escolarizadas e consistentes. Mas sempre avaliaram a sanidade dos professores e, quando necessário, requalificaram com civilidade.
Portugal, como se disse, tem-nos inamovíveis há quase duas décadas. Para esse atraso fatal, usou, até 2022, um inédito estado de negação da falta de professores. Depois daí, sucederam-se desesperos. Apesar dos salários não concorrenciais (ao contrário da década de 1980) que inviabilizam o regresso de milhares que desistiram, a queda da massa salarial – por via das aposentações – permitiu a recuperação do tempo de serviço (que é sempre um processo administrativamente tortuoso e que está longe de corresponder às perdas irreparáveis desde 2007), o aumento das vinculações nos quadros das escolas (que era escandalosamente baixo) e das remunerações na entrada na carreira. E aplicou-se, a um grupo profissional exausto e envelhecido – e que, em demasiados casos, padece da síndrome de Estocolmo -, horas extraordinárias a eito e suplementos remuneratórios no adiamento da aposentação.
E mantém-se a engrenagem diabólica supervisionada pelo marketing partidário. Por exemplo, a pressa na mediatização não rigorosa do milagre da multiplicação dos professores transmitiu a ideia de que, não tarda, há outra vez “professores a mais” (como em 2012) e recuperou a fuga aos cursos de professores.
Por outro lado, contratar a eito guardadores “uberizados” para que haja um adulto em cada sala de aula, é o jogo que interessa às gigantes tecnológicas da tele-escola 2.0, às tecnocracias, às plutocracias e às autocracias. E é demasiado arriscado para o futuro da escola pública e da democracia. E não é apenas porque os ricos sempre lutarão para reprimir a representação democrática dos pobres. É porque, de facto e em suma, a recuperação da democracia na escola e a elevação dos professores ainda estão ao nosso alcance. Não só atenuarão o desvario nas contratações nos curto e médio prazos, como agirão noutra trágica frente de batalha que será o pior dos legados desta geração que governa: escolas de qualidade para ricos versus “armazéns” para os restantes.



10 comentários
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De facto, não faz sentido avaliar os professores e muito menos nos termos do atual modelo de avaliação de desempenho.
A classe docente tem a nobre função de ensinar/educar e avaliar aqueles que ensina/educa. A moda de avaliar, trazida pela corrente do New Public Manegement, ao ser aplicada à classe docente, desvirtua o papel essencial que os professores têm na formação das novas gerações, na medida em que a cultura do “one-size-fits-all approach” não só se provou ser desadequada para a maior parte das administrações públicas de cultura europeia como também de aplicação muito forçada à classe docente.
Uma das melhores formas de redesenhar a carreira docente, no sentido de lhe reconhecer o prestígio que merece ter na sociedade, é permitir que todos progridam ao longo do tempo e atinjam o topo de carreira (ao fim de 36 anos de serviço por exemplo) e, ao mesmo tempo, introduzir fatores de incentivo a quem pretenda atingir esse topo em menos tempo (ao fim de 30 anos de serviço por exemplo). Esses incentivos devem constituir uma mais valia para a carreira do docente e para a organização onde está inserido e, em última anáise, para o sistema educativo do país. A melhor forma de incentivar o professor a conseguir essa redução do respetivo tempo necesário para atingir o topo de carreira seria começar por abolir a prestação de trabalho da componente não letiva, e em paralelo com as reduções do artigo 79º ECD, deixando à liberdade de escolha do professor usar esse tempo para realizar investigação na sua área de especialidade. Em função dos artigos científicos que conseguisse publicar em revistas indexadas, calcular-se-ia o tempo de serviço que lhe permitiria progredir mais rapidamente na carreira. Desta forma, criam-se incentivos, motivam-se os professores que assim queiram produzir investigaçao útil para a sociedade e para o sistema educativo, substituindo o atual modelo de avaliação que só causa desmotivação e conflitos relacionais, ou seja, causa tudo o que não se pretende numa organização escolar. Não admira que, no estado atual das coisas, os profesores digam que não querem ser avaliados.
Completamente de acordo consigo.
Tentei que me dessem uma sabática para acabar o mestrado. Nada. O sinistro Passos acabou com as sabáticas em nome da Troika. E até hoje. Com os nojentos PS.
Dispensa da não letiva para estudar na universidade,não é possível. O ECD não prevê. Só para a merda da formação que se faz nos centros.
Tudo o que fazemos de qualidade é à nossa conta e as nossas expensas.
País madrasto, padrastro,e vil para os professores.
Não nos merecem. Não voltarei a ser professor noutra encarnação. Never!
Gastámos com sacrifício,a nossa internet e o nosso computador ,no tempo da pandemia, para generosamente auxiliar as aprendizagens dos alunos, o secretário de estado Costa veio dizer que o que tínhamos feito não tinha valido nada! Pulha! Ingrato!
E agora este ministro mandou retirar nos o kit da internet. Mesquinho. Ingrato
Eu nunca mais vou responder a emails de trabalho em casa. Ou ter reuniões on line.
Reuniões todas presenciais. Resposta a emails só quando chegar a escola nos computadores da idade da pedra da escola. Se quiserem. Se não quiserem, devolvam nos o kit de internet.
Parabéns ao autor pela análise objetiva e contundente.
Aposentado há 14 anos, não conheço, pessoalmente, o Paulo Prudêncio, mas sempre apreciei as sua considerações. Parabéns por mais uma análise brilhante e assertiva
“Quem testou estes modelos abandonou-os de imediato. Os nórdicos nunca o fizeram. Classificaram-nos como aberrações e, de resto, resistiram aos efeitos do capitalismo desregulado e selvagem porque tinham classes médias maioritárias, escolarizadas e consistentes. Mas sempre avaliaram a sanidade dos professores e, quando necessário, requalificaram com civilidade.”
Paulo Prudêncio
Para a nojenta e ignorante população portuguesa,mais papista que o Papa, que nos insultou e humilhou na praça pública,alguns deles comentadores televisivos, outros professores universitarios da Fenprof, outros professores do secundário, nossos colegas, é dar lhes com um
pano encharcado nas ventas com este pedaço do texto do Prudêncio.
Vão estudar, pá! Antes de botar opinião.
Sempre considerei este modelo um nojo,. Os professores correm sozinhos, deixaram de trabalhar colaborativamente, competem pelas vis notas e menções. Uma escola não é uma empresa.
Somos muito ignorantes em Portugal, carago.
Obrigada , Paulo, por colocares alguma sanidade nesta gente mesquinha e ignorante. Só espero que te leiam. Coloca no Facebook aos pedaços , mastigado e vomitado. Que aí vão todos/ as.
Mas foi o vosso SOCIALISMO Sócrates, Milu, Lemos & Pedreira que perpetrou essas atrocidades!!!
Mas *vosso*, de quem? De toda a gente menos do Guilherme? De resto, recordo que os ministros do PSD também não foram grande coisa.
PS e PSD são a mesma coisa. Quando digo “vosso”, refiro-me ao Socialismo, à Esquerda, que é predominente (hegemónica!) entre o grupo profissional dos professores.
O PCP, tão querido ao blogger acima e aos comentadores, é ainda pior,obviamente, basta olharmos para os países comunistas. Mas o Comunismo nem deveria ser considerado. Comunismo é tirania.
É dar excelente a todos e aí a maldita avaliação implodia…com este sistema a esperteza portuguesa, a má língua e a lata de graxa são as armas. Os professores que investigam e evoluem como pessoas capazes de dar aos outros não são os mais valorizados. Formação de qualidade, nos centros de formação não há. Há é doutrinação à qual os frequentadores têm de fazer como a vaquinha do presépio: abanar com a cabeça à semelhança daqueles caezinhos que os velhotes traziam na parte de trás do carro.
Muito bom! Mesmo muito bom!