… deixado aqui pela Sofia e que pode dar uma pequena ideia das condições de trabalho do IEFP.
Por exemplo, o ano passado tive meses em que o que ganhei não me deu para pagar a segurança social…
Vou tentar exemplificar.
Neste momento estou a pagar 311 euros de segurança social por mês (já reclamei, pois, de acordo com os rendimentos que tenho, deveria pagar muito abaixo disso, mas parece que se estão a regular pelo que ganhei em 2010!!!). Então pago 310 qualquer coisa por mês, arredondado, dá 311 euros; de combustível (e estou relativamente próxima de casa agora) gasto entre 180 a 270 euros por mês (a menos que esteja metade de um dia num local e metade noutro… ); sou obrigada a ter seguro de acidentes pessoais e de trabalho . por ano pago à volta de 120, 130 euros (o meu é dos mais baratinhos).
Não tenho subsídio de alimentação, deslocação, férias, 13º mês… nada. Se não trabalhar, não ganho. É muito difícil quando as entidades não pagam logo. Por norma, o instituto até é bom pagador. Paga durante o mês seguinte. Por exemplo, o de Janeiro irei receber durante o mês de Fevereiro, posso receber a 8 como a 28 (raramente se atrasam mais que isso, mas já aconteceu).
Por isso, posso dizer que para pagar só as despesas da profissão (segurança social + combustível) sem mais nada, preciso de… entre 500 a 600 euros por mês só para isso. Se somar o factor alimentação (e eu levo a comida de casa e aqueço nos cursos), fica em mais cerca de 100, 100 e poucos euros. Sinceramente, se o meu ordenado ilíquido for de 1000 euros, fico automaticamente com cerca de 500, por vezes 400… esses 400 euros têm de dar para o resto: alimentação, casa, filhos………. Sem contar que, nesse total já está incluída a parte do IVA que terei de pagar ao Estado. Bom mesmo seria ter MUITA formação e receber cerca de 1700 euros pois, dessa forma, já ficaria com cerca de 800 e tal para as despesas da casa e afins, mas receber esses valores hoje em dia é quase impossível…
Para compensar as poucas horas que tenho tido no instituto nos dois últimos anos tenho tido que dar para outras entidades, por isso, além do desgaste de ter um dia de formação, para não ter de pedir a ninguém para pagar contas, tenho de dar também formação à noite sempre que aparece (mas não acontece muitas vezes).
Para professores vinculados, penso que o contrato será outro… para os restantes, a recibos verdes (agora factura-recibo) sinceramente, não me parece vantajoso pois não há garantias de termos SEMPRE 30 horas semanais (pelo menos do que li, não consigo afirmá-lo nem o afirmaram na reunião) e temos a agravante de, mesmo sem formação nalguns dias, nem podermos dar horas noutras entidades no horário das 8 às 20h. Resumindo, ficamos presos a uma entidade que não nos dá mais do que agora e ainda nos impede de conseguirmos algo mais fora.
Sei que os formadores são muito mal vistos, mas seria bom as pessoas terem total noção do que fazemos e do sofrimento que é para que pudéssemos ser mais bem vistos e mais compreendidos.
Eu faço isto pois adoro ensinar e a via profissionalizante enquadra-se em tudo o que sempre pensei do ensino (e sim, sou professora profissionalizada e até com uma boa média, apenas optei por esta vertente para estar mais perto de casa, depois por motivos de saúde, para estar perto da família e porque gosto mais de preparar pessoas para a profissão e poder ministrar várias áreas e não uma em exclusivo).
O que eu sinto é que, quando há formação, tenho de dar o máximo para que, nos meses em que não há quase nada, ter dinheiro para as despesas. Nos últimos dois anos tem sido horrível em termos económicos. Eu já nem saio para lado nenhum, nem vou passear para ter dinheiro. Amor à camisola e ao que faço há e sempre houve, mas confesso que, passada uma década de instituto, estou completamente esgotada de fazer tantos kms diárias, de conseguir gerir tantos conflitos sozinha pois nunca há o apoio de funcionárias presentes como na escola… e afins. E, para ser muito honesta, desde que o MEC tem estado a intervir tão directamente com os programas / referenciais do IEFP, propondo impossíveis e exigindo pontos que não se enquadram aos públicos que temos, a formação tem-se tornado uma verdadeira desilusão. E quando deixamos de acreditar no que fazemos e o dinheiro já, por si só, constitui um problema…
(Mas tem pontos bons, claro, mas são muito em termos sociais e depende muito dos colegas que temos).



14 comentários
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Excelente descrição, colega. Mais claro, mas também mais sensível, seria impossível.
Obrigada.
Colegas,
por ter escrito à pressa, não referi algo que pode não ser do conhecimento de todos. E é importantíssimo: a partir de 1 de janeiro de 2013 somos obrigados a fazer retenção de 25% para o Estado (IRS). Logo, ao total mensal temos de retirar esses 25%. Ou seja, se um formador receber 1440 euros (equivalente a 100 horas), vai fazer a seguinte conta: 1440 EUR *0,25 = 360 euros. Logo, a esse valor têm de retirar automaticamente os 360 euros (que não referi no relato que o Arlindo colocou aqui). Ou seja, desses supostos 900 euros que sobram, ainda teríamos de tirar esses 360 euros… Por esse motivo tenho comentado várias publicações indicando que se está a tornar impossível conseguir suportar os gastos com a profissão…
Por exemplo, quem receba 1000 euros: =1000 * 0,25 = 250; temos de retirar logo esses 250 ao total dos 1000 euros; logo = 750 euros; daí retiramos uma média de 250 euros para a segurança social (mas eu e muitos colegas estamos a pagar 311 euros mensais!!! devido a rendimentos de há 2 anos); ficamos com 500 euros. Se gastarmos cerca de 200 euros em combustível (eu gasto mais por mês e estou perto de casa!), ficamos com 300 euros… Isto não coincidindo com um mês em que se pague seguro de acidentes pessoais e de trabalho, seguro do carro…
É duro, mas já que é altura de falar, também posso afirmar que já por várias vezes imprimi cópias em casa por me ficar menos dispendioso do que ir gastar combustível para ir ao centro tirar cópias… 🙁
Faço minhas as palavras da Sofia. Tal e qual!!
Ai Sofia, como te entendo… e eu só levo 5 anos de instituto…
Pedro, mas basta-nos um ano para entendermos os sacrifícios, não é? Eu já levo quase uma década (9 anos e uns meses), optei por isto, deixei o ensino regular de lado, apesar de, na altura em que optei poder ficar colocada com algumas horas e agora: olho da rua sem sequer um obrigada, um agradecimento, reconhecimento, nada…! E custa-me muito acharem que não somos qualificados! Sou professora profissionalizado, tenho pós-graduação, mestrado pré-Bolonha, sempre com boas notas, já publiquei um artigo científico e… nada!!! Nada interessa! Não importa! Somos tratados pior que lixo pois nem nos reconhecem!
Olá Sófia… Desde já um agradecimento pelo esclarecimento. De certeza será útil para muitos colegas… Já agora só uma curiosidade, se for possível… Como é feita a contagem do tempo de serviço?
sofia, eu já estou no IEFP há mais de uma década e também desisti do público por paixão à formação embora com estes contras todos (seg social, iva, gasóleo…etc) e nunca nos agradecem estes sacrifícios
…
no publico, privado, IEFP, quando deixamos passar alguém numa porta ou passadeira… ninguém agradece nada a ninguém…
Após muitas dúvidas e informações contraditórias, decidi pedir aqui a vossa ajuda para alguns esclarecimentos:
Leio muitas informações acerca da oscilação da carga horária semanal. Ora no aviso de abertura para este concurso não está bem explicito que serão 35h semanais para docentes com vinculo, e 30h semanais para formadores/docentes qualificados? Em sitio algum li referência a que seriam ATÉ 35h/30h respectivamente. Alguém que já foi à entrevista pode comprovar? É que se for realmente um valor oscilante, o que à partida poderia ser uma boa solução passa a ser um buraco complicado;
Outra questão tem a ver com uma hipotética rescisão contratual (isto se vier a celebrar contrato) após uma (ainda mais hipotética) colocação a 31 de Agosto. Como não teremos hipótese de dar os 30 dias (ou 60 dias como já li algures) teremos de indemnizar num valor baseado em 10% das horas não ministradas nesse período. Ora aqui mais uma vez a questão da oscilação da carga horária. Para receber, somente teríamos direito às horas dadas, para indemnizar teria de ser taxado pelo valor máximo, neste caso as 30h semanais?
Por último, e nunca tendo estado eu colectado, mantêm-se ainda a isenção de Segurança Social nos primeiros 12 meses?
Saudações a todos os que “ainda” se mantêm nesta profissão
Obrigaado Sofia! Agora reconheço que possivelmente não perdi nada
Falei com uma amiga que trabalha num dos IEFPs, na parte administrativa, bem como com amigos que questionaram as direcções dos centros, uma vez que lá trabalham , Este concurso garante as 30 horas, se estas não forem lectivas, serão de outra índole, entrevistas a formandos, elaboração de contratos de formandos, ou seja, trabalho administrativo… Por semana, o IEFP tem de garantir 30 horas de serviço… Palavras dela.. também sei que todo este concurso foi feito em cima do joelho, já que o próprio IEFP teve 12 horas para calcular quantos formadores iriam precisar… E, eles foram apanhados de surpresa com tudo isto… Enfim é o ministério que temos…
Olá Tânia,
E em relação ao tempo de serviço? Sabe como ele é contabilizado? Será que poderemos continuar a concorrer na primeira prioridade? Há muitas formações fora do Centro?
Cumprimentos
Depois de ler este post e consequentes comentários ao mesmo a ùnica questão que tenho é a seguinte:
Alguém sabe se há algum tipo de sanção,estando desempregado, tendo concorrido a este concurso do IEFP e tendo sido chamado para a entrevista, não aparecer sequer lá?
Acho que os IEFP não são todos iguais!!! Tenho uma colega que dava formação, ao mesmo tempo aulas no ensino publico e por cada 5 horas tinha direito a 1 dia para a contagem do tempo de serviço…isto há cerca de 8 anos! Mas não podemos esquecer que nesta altura só era formador quem tinha cunha para isso….