PISA: o facilitismo das análises truncadas

PISA: o facilitismo das análises truncadas
Quem lê o relatório e tem literacia matemática sabe que as diferenças entre Portugal e a OCDE não têm relevância estatística.

PISA: o facilitismo das análises truncadas

A participação de Portugal nos vários estudos da OCDE tem constituído um importante instrumento de apoio ao desenvolvimento das políticas educativas nacionais. O PISA constitui-se como uma referência útil e fiável, por permitir comparações entre países numa base multifatorial e análises de tendências em séries longas de valor absoluto e relativo. Como esperado, o PISA 2022 reflete, a nível global, os efeitos da pandemia e continua a revelar uma tendência de 10 anos de abaixamento da média da OCDE. Pela sua importância, o PISA também se tem tornado arma de arremesso político-partidário por todo o mundo. Lemos os jornais internacionais da última semana e parecem uma cópia dos nossos. No contacto informal com ministros de vários países europeus, o retrato foi sempre o mesmo: as oposições (políticas e comentaristas) centraram-se apenas nos dados nacionais. Portugal não foi exceção e lemos e ouvimos a opinião (e relativa análise) muito marcada por um clima de pré-campanha eleitoral que já se sente.
Que fique bem claro: uma queda nos desempenhos é negativa em termos absolutos e relativos e deve convocar todos os esforços para os entender e agir sobre eles.
Todavia, o PISA não é um ranking de países, ainda que isto perturbe os entusiastas das seriações. É um conjunto bastante extenso de dados, de correlações, de cruzamentos de tendências e indicadores que merecem um estudo aprofundado, sistemático e racional. É uma prova de avaliação de competências, que avalia o desempenho dos alunos com 15 anos em tarefas de aplicação do seu conhecimento a situações reais.
Em muita opinião produzida, pudemos registar análises mal informadas, enviesadas, parcelares ou reducionistas, ainda que – quero acreditar – na boa intenção partilhada de respondermos melhor aos alunos. Em nome do rigor, importa clarificar alguns aspetos, para que nos possamos concentrar na análise fina dos resultados.
1. Em Portugal, tivemos uma evolução rápida na primeira década de 2000, contrariando a narrativa dos analistas da altura de que esta tinha sido a “década perdida para a educação”. Convergimos com a média da OCDE e esse tem sido o comportamento de Portugal, mesmo no contexto de queda. Obviamente, não nos contentamos em ser medianos e, por isso, o trabalho deve continuar.
2. Comparando a queda de Portugal com a da OCDE, construiu-se o argumento de que Portugal estava muito pior do que os outros países. Qualquer analista sério sabe que há diferenças significativamente estatísticas e outras que não são significativas. Quem lê o relatório e tem literacia matemática sabe que as diferenças entre Portugal e a OCDE não têm relevância estatística.
3. O argumento de que a queda no PISA é fruto da governação socialista dos últimos 8 anos só colheria se o PS tivesse governado em praticamente todos os países da OCDE.
4. O argumento de que a queda no PISA se relaciona com a abolição de exames no 4.º e no 6.º ano em 2016 colide com a realidade. A maior evolução de Portugal no PISA dá-se quando estes exames não existiam, tendo sido criados em 2012 e 2013, quanto aos 6.º e 4.º anos, respetivamente; o pico dá-se em 2015, quando participaram alunos que não tinham realizado estes exames, dado que quando estavam nos 4.º e 6.º anos não tinham ainda sido introduzidos tais exames; em quase todos os países de topo (por exemplo, Coreia, Canadá, Estónia) não existem exames no básico, apenas provas de aferição amostrais ou universais.
5. O PSD alegou que a média da OCDE desceu pela entrada de países com desempenhos baixos, evidenciando uma fraquíssima análise dos relatórios PISA, em que se mostra que as tendências são analisadas a partir de um conjunto fixo de países, para controlar esses efeitos.
6. O argumento de que a queda do PISA se correlaciona com a adoção de um currículo em que conhecimentos e competências estão interligados, em detrimento de uma legislação que tinha erradicado a palavra “competência”, colide com a realidade. De facto, num país como o Reino Unido, que tem um currículo estruturado apenas em conhecimentos, a queda foi muito equivalente à portuguesa. A Irlanda, com um currículo assente em competências na leitura na Irlanda, teve um desempenho elevado.
7. Seria fácil se houvesse uma correlação simples com a duração do encerramento das escolas. Acontece que a Suécia, país conhecido como tendo optado por não encerrar, teve uma queda semelhante à de outros países e a Itália, que teve um dos períodos mais longos de encerramento, não regista quedas que se diferenciem das de outros países.
Importa, pois, que haja seriedade nas análises. O PISA também tem dados positivos para Portugal, indicando-o como um país promotor de sentimento de pertença às escolas, em que os pais se preocupam com o dia-a-dia escolar ou em que os alunos reportam que comem uma refeição quente todos os dias.
Sejamos capazes de ler as recomendações da OCDE e encontrar vários dos caminhos que têm sido seguidos por Portugal (não apenas neste ciclo político): maior autonomia para escolas, investimento em apoio aos alunos em detrimento da retenção; promoção de competências de autonomia de estudo e de apoio socioemocional. O trabalho desenvolvido no currículo da Matemática ou os trabalhos em curso sobre a complexidade na leitura seguem de perto as práticas de países com performances de topo. Não lemos em nenhuma recomendação as soluções fáceis da exclusão, da retenção, da meritocracia simplista ou da implementação de exames o mais cedo possível. O verdadeiro facilitismo está nas análises truncadas e redutoras. O maior desafio de Portugal continua a ser a redução das desigualdades na e através da educação e isso não é simplista nem fácil, nem se alimenta de análises ligeiras.

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5 comentários

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    • Eu on 15 de Dezembro de 2023 at 11:52
    • Responder

    Este senhor fala em literacia matemática para falar sobre valores relevantes ou não e utiliza-os de acordo com o que lhe interessa: desvaloriza-os para o que correu (muito) mal no nosso país e valoriza-os quando quer comparar com outros países em pontos muito particulares. O que esse senhor não refere é que não adotou uma medida pedagógica decorrente dos DL-54 e DL-55 que não originasse em maiores facilidades para os alunos; não adotou uma medida pedagógica decorrente dos DL-54 e DL-55 que originasse numa continuidade ou maior exigência; não adotou uma medida que tornasse a carreira docente minimamente mais apelativa para os que consideram o ensino uma profissão nobre, antes pelo contrário, diminui as exigências para a docência. Enfim, um conjunto global de políticas (não só o socialismo) que vão TODAS no sentido inverso da exigência educativa. Claro que há alguma lógica na escola inclusiva mas é simplesmente uma falácia devido à falta de condições concretas e reais para que os alunos se sintam incluídos e produtivos numa escola que continua desenhada para o mesmo tipo de ensino que sempre tivemos. Aliás, a escola inclusiva teve como principal ponto negativo a diminuição do grau de exigência aos que podem produzir mais.

    • Luís Miguel Cravo on 15 de Dezembro de 2023 at 13:12
    • Responder

    É penoso o estado de negação e de efabulação de um homem há muito caído em desgraça. No entanto, não nos enganemos. Ele não omite aquilo que verdadeiramente defende: as passagens a martelo, o constante inflacionamento de avaliações, a digitalização em substituição da escrita, da reflexão, da crítica, o ódio que tem à meritocracia, à exigência, ao conhecimento sério e a sério, aos exames e não a provas fantoche (que um filho meu NUNCA realizaria!), as tais de aferição que para NADA servem….. Uma nódoa com 2 olhos e duas pernas.

    • ûlme on 15 de Dezembro de 2023 at 14:28
    • Responder

    é o descredito total deste homem
    so espero que a comunicação social comece a falar a verdade e nao seja papagaio deste ministro e do seu governo demitido

    • Pipocas on 15 de Dezembro de 2023 at 14:55
    • Responder

    Este senhor é primo do outro que desvaloriza os PIBs nacionais dizendo que não significam nada e que se não estão contentes, vão viver para a Roménia.
    É triste e medíocre a política que se faz hoje em dia. Isto é palha para as mulas da extrema direita pastarem.
    😞

    • Mário Rodrigues on 15 de Dezembro de 2023 at 16:07
    • Responder

    Enquanto os ministros da educação de outros países, após os resultados do PISA, decidiram mudar completamente a política deseducativa dos últimos anos, em Portugal temos este indivíduo a tentar enganar os portugueses com “explicações” que nada explicam, que não passam de demagogia!…

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