Opinião – Francisco Queirós

Manifestação em Lisboa | 26 de Janeiro

 

Sob a capa de um relatório técnico do FMI, o governo acaba de apresentar a agenda para a educação nos próximos anos: despedir professores, reduzir salários, agregar escolas, aumentar os horários de trabalho e aniquilar o modelo de gestão pública das escolas.

Sobretudo, está de regresso a concepção ideológica que já nos levou a Lisboa 3 vezes – os funcionários públicos, em geral, e os professores, em particular, não produzem riqueza, são indolentes, gozam privilégios exclusivos e beneficiam da boa vontade dos outros portugueses que lhes pagam o salário.

Esta deriva conceptual teve efeitos brutais nos últimos anos: milhares de professores reformados espoliados das pensões a que tinham direito e para as quais tinham feito descontos de dinheiro que lhes pertencia; dezenas de milhares de professores contratados despedidos do emprego, à revelia das leis que o Estado aplica aos privados; quebra do vencimento real de 12%, entre 2002 e 2011, na diferença entre a actualização dos vencimentos e a taxa de inflação, quebra do vencimento real de 20%, em 2012, com o confisco dos subsídios e a taxa remuneratória, e perda da respeitabilidade profissional.

Porque não devemos renunciar ao exercício dos nossos direitos democráticos e porque a experiência ensina que a razão assiste apenas aos que a reclamam, é necessário voltar a Lisboa no dia 26 de Janeiro.

Está em causa o modelo de sociedade social-democrata ocidental, e não se aceita, por troca, a ordem social da América Latina.

Está em causa a distribuição geográfica equitativa do poder, e não se aceita, por troca, um Estado que concentra o poder todo em Lisboa.

Está em causa a honra no trabalho na função pública, e não se aceita, por troca, estatutos sociais menores e paternalistas.

Está em causa a escola pública, e não se aceita, por troca, modelos capturados por interesses obscuros instalados no “centrão” político que governa os nossos governos;

Está em causa o modelo de gestão das escolas, e não se aceita, por troca, a mega-gestão à distância – que o tempo, de resto, se encarregará de fixar como a distância a Lisboa;

Estão em causa o salário, o vínculo de emprego e o próprio emprego dos professores. Não se aceita que a contribuição de 1/3 dos nossos salários não seja mais do que o preço justo no pagamento do défice; não se aceita que chamem privilégios a direitos laborais que estão na reserva da nossa moral civilizacional; não se aceita ameaças de desemprego feitas de cálculos com números batoteiros e falsos.

Nós, professores, que diariamente ensinamos, educamos e influenciamos, temos o dever redobrado de defender um Estado social e justo. Ir a Lisboa, no dia 26, é não desistir, não vergar e não resignar.

Francisco Queirós

Professor da Escola Secundária de Paredes

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4 comentários

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    • mais um on 21 de Janeiro de 2013 at 15:42
    • Responder

    manifestação? só vou se for para exigir o fim da contratação de escola!

    • JCP on 21 de Janeiro de 2013 at 16:30
    • Responder

    Cada cabeça sua sentença. Há um colega na minha escola que diz que só vai se o Crato lhe der, antecipadamente, a chave do euromilhões.

    • Manel on 21 de Janeiro de 2013 at 19:06
    • Responder

    1º Deixaram fazer tudo à Classe. Esta por um prato de lentilhas vendeu-se por uma coisa de nada. Perdeu a DIGNIDADE, o RESPEITO. Possívelmente já é tarde, quando temos conhecimento que existem colegas com 10 e mais anos de contrato, quando sabemos que está previsto 50 mil profs serem despedidos, quando sabemos que este ano muitos colegas estão em casa …a grande maioria com filhos, com dividas, sem rendimentos, … mas que “mer…” é esta abandonaram-nos “cambada de CHULOS”. Enquanto a Classe Médica fícou os “pés” impozeram-se e ninguem lhes “cag…” na cara, estes não perderam a dignidade e o respeito. Enquanto nós vergamos por qualquer coisinha e agora pagam “todos” . Perdemos o respeito a dignidade por nós próprios.Só temos o que mereçemos.

    • Renato M on 22 de Janeiro de 2013 at 0:30
    • Responder

    quam tristis tali hebetudine… e lá continuam “estes” dos “ses”…

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