Mude-se a escola para que regressem os professores
“Os professores portugueses são vítimas de uma organização de trabalho que os adoece. São, na Europa, os mais desgastados e os que mais preenchem burocracia inútil. Só os alunos lhes dão ânimo. São os melhores a adaptar as aulas às necessidades dos alunos. A pequena indisciplina coloca Portugal no primeiro lugar do tempo perdido para começar uma aula.”
O que acabou de ler são conclusões da OCDE, ou de organizações com estudos semelhantes, com menos de década e meia. Mas não há um documento dos serviços centrais do Ministério da Educação que conclua no mesmo sentido, nem sequer o mundo político se interessa pelo assunto. Há um manto de silêncio que ignorou o caminho que resultou na grave falta estrutural de professores e no tríptico de quem está em exercício: desgaste, mágoa e revolta contida.
Quando se lê um encarregado de educação a justificar a mudança do filho para uma escola particular e cooperativa porque na pública faltam professores e há desorganização, importa recordar que a precarização dos professores também começou quando os governantes aproximaram as públicas do modelo das particulares e cooperativas geridas por empresas com influência nas esferas governativas. Essa decisão asseguraria, dizia-se, a redução do orçamento da educação a par de oportunidades de negócio. Foi o que se sabe.
Por outro lado, relembre-se que a formação de professores mudou na década de noventa do século XX. Generalizou-se o “curso de professor”, já profissionalizado, a exemplo do que acontecia no pré-escolar, no 1º ciclo e em algumas disciplinas. Até aí, a maioria dos professores eram licenciados que estagiavam nas escolas. Só que os cursos de professores caíram numa infernal tecnocracia didáctica que os afastou das salas de aula. Perderam atractividade, contribuíram para o estado em que estamos e não são solução nos curto e médio prazos.
Portanto, se temos a geração com mais licenciados da história, mas que não inclui a ideia de ser professor, temos novamente potenciais candidatos que necessitam de formação pedagógica e profissional para acederem aos quadros do ensino.
Se isso acontecer, faltará o mais difícil: recuperar a escola como espaço saudável e apelativo, mudando quanto antes o que o excesso de ideologia sobrepôs ao equilíbrio, à sensatez, à modernidade e à leveza. Desde logo, cuidar dos professores que existem percebendo que não se foge de ser professor apenas por causa da remuneração. Claro que esse factor é determinante e sabe-se o que há a fazer na carreira e nos índices remuneratórios. Mas é insuficiente porque também se foge da insanidade e do atavismo. Até quem testa a possibilidade percebe de imediato os instrumentos de avaliação e gestão que favorecem a desconfiança, a exaustão, a parcialidade e a arbitrariedade.
E antes do mais, sublinhe-se que a organização da escola pública se emaranhou numa Babel. Como ao poder desconcentrado do Ministério da Educação em agrupamentos ou escolas se associou a descentralização com a municipalização, é nuclear uma clarificação com o reconhecimento de que os agrupamentos (não há na Europa modelo igual) são parte do problema. O aumento da escala ampliou os pontos mais críticos e já nem se pode argumentar com a redução da despesa para o exercício de cargos.
É crucial procurar soluções sustentáveis e um novo clima. Construa-se um organograma que busque a gestão democrática de proximidade à prova das nuances da municipalização ou regionalização.Discuta-se o seguinte sumário:
1. em vez de um conselho geral por agrupamento ou escola, crie-se apenas um por concelho (ou designe-se assembleia geral; ou recupere-se o conselho municipal de educação) e uma agência municipal, em rede com as escolas, para os assuntos administrativos da educação;
2. crie-se um conselho directivo (e não apenas executivo) – eleito de modo semelhante ao que existiu até 2009 – e um conselho pedagógico em cada escola com 2º e 3º ciclos e ensino secundário;
3. crie-se um delegado escolar concelhio – com sede no município e eleito pelas escolas do pré-escolar e do 1º ciclo -, um coordenador eleito em cada uma e um conselho pedagógico concelhio destes níveis de ensino.
Acima de tudo, trata-se de recuperar a confiança nos professores testemunhando-lhes um ambiente democrático e moderno em que a parcialidade seja novamente um substantivo intolerável.
Por outro lado, os tempos que aí vêm associam ao pós-pandemia a necessidade de antecipar os efeitos na democracia do “Século da Solidão” e da transição digital. Considera-se crucial reencontrar o caminho do espaço público e da nova organização do trabalho (e, já agora, de uma Europa livre de um autoritarismo que beneficia com o isolamento das pessoas), que é precisamente o percurso inverso percorrido pelas nossas escolas influenciadas pelo importado “taylorismo” (poucos pensam, muitos executam).
Recupere-se “A ideia de Europa” de George Steiner (2017) e procure-se o essencial. O autor escolhe o mapa dos cafés e das cafetarias como uma marca da Europa que a diferencia exactamente dos EUA e do Reino Unido. É uma distinção que explica a necessidade de libertar a escola sem qualquer complexo de superioridade ou inferioridade.
Aliás, e como escreve Steiner na página 44, “outras culturas e comunidades fizeram descobertas científicas e intelectuais. Mas só na Grécia Antiga se desenvolveu a busca da teoria, do pensamento especulativo desinteressado sob a luz de possibilidades infinitas. A dignidade do Homo sapiens reside exactamente nisso: compreender no que consiste a sabedoria, procurar o conhecimento desinteressado, criar beleza.” É precisamente essa a tendência da perda determinante nas nossas escolas. A obsessão com o individualismo e com o utilitarismo eliminou o contraditório e o espaço livre das ideias assente nos três vértices da intemporal e fundadora geometria da escola: professores, alunos e conhecimentos. Que se recomece.
Paulo Prudêncio



10 comentários
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Paulo
Obrigada pelo seu texto. Ainda há seres pensantes sobre educação com os quais concordo.
Lance um Manifesto com as suas ideias para que o possamos subscrever .
Com um preâmbulo onde justifica as suas opções do ponto de vista filosófico. Com os autores que refere e outros. E com as suas medidas.
Publique o na comunidade social e ponha o a correr na NET .
É preciso fazer um Movimento honesto e democrático pela escola pública portuguesa que faça as pessoas aderirem. Pais, educadores e todos o que o quiserem subscrever.
E o Paulo é capaz disso, como o demonstram as suas posições públicas.
Força. Estamos consigo
👏
Só o governo, os diretores e os vendedores da má formação que é dada aos professores para os enganar acerca do estado da escola publica tem interesse em mantar esta escola, gasta, esgotada e esgotante dos professores e alunos… Os políticos vivem num mundo à medida dos seus interesses a não olham para o interesse geral… Os professores querem, sobretudo, fazer o seu trabalho co0m honra e sentido do dever… Porque estas notícias não são divulgadas? Não abrem telejornais nem páginas principais de jornais? Pois …
Parabéns ao autor pelo exercício de reflexão mais aprofundado e problematizante, sem, contudo, descurar a objetividade e o sentido de concreção do panorama educativo. Congratula-se, também, pela organização do discurso, evitando resvalar para os habituais lugares-comuns, regra geral apensos à parafernália isenta de conteúdo que aqui, tantas vezes, se lê.
Não esquecer os “artistas” que chegam agora ao ensino, independentemente da sua idade, e que se auguram grandes pedagogos, não sabendo nada e aplicando ensinamentos que nada têm a ver com pedagogia, e ridicularizam e menosprezam os que andam nestas lides há decadas.
Estes, não vêm por bem, mas sim para rebentar ainda mais com o pouco que existe.
Só os alunos dão ânimo aos professores?
Esta é boa!
São aos milhares os delinquentes, mal educados, filhos do velho puttedddo português, que grassam pelas escolas.
Vai dar banho ao cão!
O autor levanta alguns problemas interessantes, mas no meu ponto de vista falha em abordar o que são para mim os problemas essenciais do ensino.
Estudar é em si um trabalho árduo e penoso, pensar e perceber o que se está a estudar exige muito do cérebro.
Ora hoje em dia nada se exige aos alunos, o grau de exigência é muito baixo baixo e por isso os resultados internacionais sobre a literacia são o que são.
Á falta de exigência, junta-se a falta de regras, a má-educação, a indisciplina e sobretudo a falta de qualquer tipo de punição para alunos mal-comportados.
Até a falta de estudo e falta de conhecimentos é recompensada uma vez que passam todos de ano.
Quem é professor, como eu acerca de 30 anos, sabe perfeitamente que os alunos passam em muitos conselhos de turma com 7, 8 ou mais negativas ás disciplinas, pois só no fim do ciclo de estudos é que se vai ver se o aluno atingiu as competências.
Pior que isto é haverem colegas que defendem tudo isto que já referi com unhas e dentes, são estes colegas a parte do problema.
É isto a escola inclusiva e a aplicação prática das teorias da educação.
Há aqui uma opção política e um caminho traçado pelos nossos governantes, passam todos para a estatística e para terem todos o 12ºano porque fica bem nos gráficos e nas folhas excel.
Reprovar um aluno fica muito caro, dizem, e traumatiza profundamente a criança..
Para não falar da escola a tempo inteiro, outra tretra.
Portanto a exigência e a boa educação têm de ficar para 2º plano.
Para disfarçar, temos então a burocracia excessiva, as tais folhas excel, para dar a ilusão de que está tudo bem.
Em cima disto tudo, temos, como é óbvio, as más condições de trabalho dos professores, a intervenção política dos municípios e os maus princípios de organização referidas pelo autor.
Do meu ponto de vista a Escola deve ser somente a Escola, os alunos que sabem devem passar, os que não sabem devem reprovar.
A indisciplina deve ser severamente e efetivamente repreendida.
Os restantes problemas que os alunos têm, e que infelizmente são graves, como familias disfuncionais. pobreza, fome e sabe-se lá o que mais devem ser tratados noutros locais por pessoas mais especializada, e que podem trabalhar em articulação com a escola.
Sendo claro que estes locais teriam de ser ainda criados.
Só uma ideia.
Ao órgão unipessoal – diretor! -, se deve boa parte da pior parte das escolas!!
Por todos os problemas apontados, urge rever o Regime de aposentação dos professores.
thank you 스포츠중계