Futurismo

O seu rosto ilumina-se ao revelar-me a descoberta. Com apenas dois cliques encontrou a solução e apresenta-me o tema que quer trabalhar. Dois outros colegas assinalam que irão juntar-se a ela para obterem nota na disciplina. Noutra secção, outra equipa acabou de me enviar um trabalho representando a sua visão d’Os Maias de um ponto de vista cinematográfico – do tratamento estilístico do vocabulário ao levantamento visual, argumentam uma nova fórmula de interpretação do livro. Dois alunos mais atrasados comunicam que ainda se encontram a pesquisar e questionam-me quais os sites e obras prioritárias como apoio ao seu percurso.

A minha sala de aula é na escola, mas os meus alunos são, em algumas circunstâncias, virtuais. Marcamos aulas presenciais e organizamos a nossa aprendizagem em torno de áreas de interesse comum. A língua portuguesa que dou, já não se limita à gramática num pacote de fichas concentradas, mas à desconstrução prática de diálogos televisivos, à discussão de reuniões parlamentares, à reflexão sobre vocabulário desaparecido que Vieira legou. Com um clique mágico a sala compõe-se e estamos todos juntos aqui.

Sim, ainda estudamos os grandes clássicos, mas eles sentam-se à mesa com o uso interativo da língua, com a concretização de pesquisas que nos devolvem acontecimentos, artes, diálogos feitos de descoberta e amor. Falar o português é viver a portugalidade onde quer que estejamos. Na verdade, a minha escola não é diferente das outras que servem, sobretudo, para criar pontes entre professores e alunos que deambulam livremente por entre várias salas de porta aberta. O conhecimento é uma interseção de vários pontos, um espaço cartesiano onde os professores se movimentam como peças do xadrez, mas são os alunos quem decide como se movimentam as peças, que direção pretendem seguir, onde desejam chegar.

Antigamente, a escola era um espaço estanque. As salas quadradas delimitavam o futuro de cada cadeira e, portanto, de cada jovem que nela se sentasse. Na verdade, as escolas eram fábricas de pessoas. E os professores os maquinistas da engrenagem.

Não vivi nesse tempo, porém. Dizem que éramos outras pessoas, mais infelizes, mais ignorantes. Os professores caminhavam de escola em escola até ocuparem um lugar que diziam ser o dele. Aqui não existe um professor em cada professor. Existem muitos, que são o mesmo e o diverso, que sobem e descem escadas, que se abraçam e desenham futuros de mãos dadas. A cada obstáculo, um sorriso de encorajamento, é para isso que servem as reuniões semanais – ponderar soluções, criar ideias felizes, obter mais direções para o caminho.

Na cúpula educacional o ministro foi substituído pelo conselho educacional – vários professores, de várias escolas, abrem o livro dos sucessos e partilham os objetivos de cada escola com empresários, artistas, cientistas, sonhadores.

Trabalha-se para atingir a felicidade comum, trabalha-se na escola para criar um país mais rico, mais culto, mais soberano, mais transfronteiriço. Trabalha-se para que a felicidade de cada um, jamais atropele a felicidade dos outros. E para que, em caso algum, alguém fique para trás.

Com a mão afasto a página do livro virtual que se projeta tridimensionalmente na sala. «Por mais que da fortuna andem as rodas (…)/  Não vos hão-de faltar, gente famosa, / Honra, valor e fama gloriosa”. Assim sucumbe no escuro a voz da estrofe 74 do canto X e assim se lança o desafio do dia seguinte. Qual dos presentes conseguirá encontrar a sua própria voz na voz de Camões?

Que honra tenho de ter nascido nesta  época distante de outros dias enegrecidos em que os professores, maquinalmente, cruzavam a escola, maquinalmente assinavam sumários, maquinalmente preenchiam folhas de tédio e suor, enterrados em burocracias vazias e deprimentes.

Que sorte tenho de ser professora neste meu presente que lhes seria futuro se o tivessem querido agarrar mais cedo, se a sociedade lhes tivesse dado esse ónus de  ânimo leve.

Demorei 18 anos a chegar aqui, 18 anos de aprendizagem, de trabalho árduo, de domínio de tecnologias anualmente mais aliciantes e desafiadoras. E, no entanto, sinto-me profundamente humilde, curiosa, entusiasmada para continuar a aprender, ainda jovem na minha já experiente caminhada.

A escola regressou ao silêncio da partida. Agarro no meu pequeno conector interativo e guardo-o na mala, como outrora alguém guardava um pau de giz. Na sala silenciosa consigo vislumbrar diluidamente o professor do meu passado. Num gesto maquinal despeço-me dele e questiono-me: saberá ele descobrir no seu escuro presente uma candeia de felicidade e acreditar que, no futuro, também sorrirá assim?

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