Opinião – João Fernandes – Manuscrito encontrado nos escombros da Educação Portuguesa …

Manuscrito encontrado nos escombros da Educação Portuguesa …

Era uma vez um país , que bem conhecemos , onde um ministro tinha o fetiche dos exames determinando que possuíam o efeito milagroso de melhorar o sistema educativo . Tal efeito apontava para um sistema em que a aprendizagem e a sua consolidação era menorizada e substituída pelo treino sistemático numa corrida contra o tempo para preparar os alunos para a salvação , o dito exame . Esta ideologia substituía o papel essencial de uma aprendizagem respeitadora do ritmo dos alunos por uma corrida visando a obtenção de um bom resultado no exame .
Com a chegada de uma nova personagem ao governo desse país , o novo ministro apressou-se a mudar de paradigma e os exames foram abolidos . Os professores , os alunos e os encarregados de educação sentiram-se aliviados. Em sua substituição reapareceram as provas de aferição agora para os alunos do 2º e 5º ano a serem aplicadas neste ano letivo . O tempo foi passando sem surgirem novidades sobre a aplicação deste novo modelo de avaliação. A expectativa foi-se transformando em apreensão , até que um dia surgiram novas informações , o que antes era de aplicação obrigatória passava a transitório e no seguimento desta surpresa a decisão da sua realização era empurrada para os Agrupamentos , na figura dos Conselhos Pedagógicos e do Diretor .
Se pensavam que estas brilhantes novidades tinham terminado estavam enganados , pois como vivíamos o período pascal deu-se um milagre , as provas de aferição do 4º e 6º ano ressuscitavam . Acabaram os exames mas a pedido de algumas “ famílias “ os Agrupamentos iriam poder realizá-los , não se sabe bem para quê . Podiam dormir todos descansados porque não contavam para a avaliação dos alunos . Os governantes , tal como Pilatos , lavaram as suas mãos e os outros que tratassem do servicinho . Brilhante autonomia , produto de quem não decide e passa a “batata quente “ ao parceiro do lado para que assuma as consequências dessa decisão.
Volta a instabilidade e a confusão . Está aberta a porta para que , no escasso número de dias letivos que vamos ter neste 3º período, retorne a falta de serenidade tão necessária para terminar este ano letivo . Seria importante o retorno do bom senso e que se percebesse o que era melhor para os alunos, pesando as vantagens e desvantagens da realização destas provas no espaço curto de tempo que nos espera até o ano letivo terminar .
A decisão de realizar estas provas neste momento não contribui para a pacificação do trabalho pedagógico a desenvolver e reintroduz uma instabilidade desnecessária em todos os intervenientes .
As provas de aferição do 4º ano, a serem realizadas , só dependem do Ministério da Educação na matriz que fornece aos Agrupamentos , visto que a sua realização e correção será da responsabilidade dos professores indicados pelo Conselho Pedagógico . Estas provas realizando-se dentro deste enquadramento não serão muito diferentes daquelas que se realizam na avaliação interna , razão pela qual são dispensáveis e só acrescentam mais trabalho desnecessário. Não se constituem como aferição nacional porque teremos situações bem diversificadas de realização ou não das provas e muitos alunos não as irão realizar visto que não são obrigatórias . Estas provas, quanto muito , serão mais um registo diagnóstico de que uma aferição real .
Estas surpresas não acrescentam estabilidade ao processo educativo que as escolas desenvolvem e este esforço que se irá pedir às escolas e aos professores não acrescenta credibilidade , nem reforça uma avaliação que se pretende justa e adequada dos alunos com que lidamos dia a dia e com os quais construímos um processo permanente de aprendizagem . Para concluir se os Agrupamentos decidirem realizar as provas iremos ter de operacionalizar em dois meses ,numa correria desgastante , todo um processo que as estruturas educativas do Ministério realizam durante um ano letivo .
Esperemos que realmente o bom senso prevaleça a bem da Educação .

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