14 de Maio de 2025 archive

Eleições sem educação – Paulo Prudêncio

 

A educação está há muito excluída dos debates eleitorais. É indisfarçável. É um tema secundário ou incómodo para a generalidade dos partidos e fracturante nos que têm suportado os governos. Há choques de tendências e de interesses. Os grupos descomprometidos com as políticas educativas das duas últimas décadas exigem mudanças, mas prevalece a força dos aparelhos.

Eleições sem educação

Por outro lado, é um facto que as escolas abrem todas no início do ano lectivo. Por cá e em todo o mundo; incluindo nos países pobres. Basta que haja horários de turmas, de professores e de salas de aula. Se houver um adulto em cada sala de aula, até num apagão eléctrico se impõe a sensatez.

Além disso, nas escolas a vida da maioria recebe um selo de longo prazo. Não há urgências hospitalares e ninguém morre por falta de cuidados. As insuficiências salariais ou habitacionais só se evidenciam nos resultados escolares a médio e longo prazos. Ciclicamente, organismos internacionais recordam-no com dois países – a Finlândia e as Filipinas – consecutivamente dos extremos do PISA da OCDE. A escolarização com qualidade dos filipinos só se elevará quando viverem décadas com políticas inclusivas como na Finlândia, e associadas à educação a tempo inteiro (e não a uma escola a tempo inteiro que acomode insanos horários de trabalho) e à melhoria da qualidade das escolas e do ensino e da carreira dos professores.

Mas o que mais impressiona em Portugal no que levamos de milénio, é a desvalorização da educação na orgânica dos governos. Os governantes da educação “são” sub-secretários adjuntos das finanças. Só emergem quando cortam a eito ou anestesiam a contestação de rua em concertação com os “seus” sindicatos. Os barómetros de popularidade dos governantes espelham o fenómeno e esvaziam as oposições.

E nunca é excessivo repetir que entrámos no século XXI com 6,7% do PIB para a educação (6,9% em 2009) e que já vamos em 3%. Leu bem: 3%. O tema foi talvez o único que mereceu o teste de um polígrafo para as legislativas de 18 de Maio de 2025 (e, sublinhe-se, por causa da defesa): “se Portugal passasse a destinar oito mil milhões de euros à defesa (3% do PIB) – valor aproximado do que o país pagaria se duplicasse os custos neste âmbito (1,5%) – isso seria o equivalente a um Orçamento da Educação.” Com efeito, a redução da massa salarial dos professores – que será significativa até 2030 – tornou ainda mais escandalosa a não vinculação de professores contratados e “permitiu”, desde 2022, milhares de vinculações e pequenos ajustes em salários ou suplementos.

Mas o mais crítico – que é invisível para as bolhas política e mediática e que se acentuará no médio prazo -, é a desvalorização das aprendizagens e da escola democrática que respeita o ensino, os professores e os seus alunos. Fatalmente, uma generalizada imaturidade pedagógica colocou professores e encarregados de educação no mesmo patamar de decisão de alunos e educandos e no mesmo nível de deliberação no poder escolar. Foi mais um marco da crise do capitalismo democrático e, como se disse, da própria democracia.

Aliás, até o leitor menos versado com estes temas perceberá que tudo isso criou jovens (já eleitores) egoístas, invencíveis e ressentidos, e com baixa valoração da razão, da responsabilidade e da justiça. O efeito na sociedade foi equivalente ao que esteve na origem do nazismo (leia-se Hannah Arendt).

É uma crise também explicada pela mediatização de outra componente crítica: a falta estrutural de professores. Para além do interminável caos no tratamento de dados da educação, nem se mediatizou o que se sabe: quantos professores são necessários a cada momento (bastaria somar três variáveis: horários que ficam por preencher, horários preenchidos por quem adia a reforma – para elevar o seu parco valor – e horas extraordinárias em catadupa – note-se: desde 1998 que o sistema escolar tinha eliminado as horas extraordinárias -).

Mas não. O sistema da criança-rei viciou-se no número de alunos sem aulas e o caos dos dados acomoda a inacção de governos e oposições.

Em síntese, proclame-se que os professores são as traves mestras da consolidação da democracia e que as gerações mais escolarizadas de sempre (por cá e no resto do Ocidente) têm as suas elites alienadas por um triângulo perverso que responsabiliza incompetências governamentais: aplicações financeiras, aplicações aditivas para relações sociais e exacerbado individualismo monetarista. O grande desafio das democracias é recuperá-las para uma aspiração política que faça dos deveres cívico e ético os eixos de eleições com educação.

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/05/eleicoes-sem-educacao-paulo-prudencio/

Eleições sem educação, por Paulo Prudêncio

Eleições sem educação

 

 

A educação está há muito excluída dos debates eleitorais. É indisfarçável. É um tema secundário ou incómodo para a generalidade dos partidos e fracturante nos que têm suportado os governos. Há choques de tendências e de interesses. Os grupos descomprometidos com as políticas educativas das duas últimas décadas exigem mudanças, mas prevalece a força dos aparelhos.

Por outro lado, é um facto que as escolas abrem todas no início do ano lectivo. Por cá e em todo o mundo; incluindo nos países pobres. Basta que haja horários de turmas, de professores e de salas de aula. Se houver um adulto em cada sala de aula, até num apagão eléctrico se impõe a sensatez.

Além disso, nas escolas a vida da maioria recebe um selo de longo prazo. Não há urgências hospitalares e ninguém morre por falta de cuidados. As insuficiências salariais ou habitacionais só se evidenciam nos resultados escolares a médio e longo prazos. Ciclicamente, organismos internacionais recordam-no com dois países – a Finlândia e as Filipinas – consecutivamente dos extremos do PISA da OCDE. A escolarização com qualidade dos filipinos só se elevará quando viverem décadas com políticas inclusivas como na Finlândia, e associadas à educação a tempo inteiro (e não a uma escola a tempo inteiro que acomode insanos horários de trabalho) e à melhoria da qualidade das escolas e do ensino e da carreira dos professores.

Mas o que mais impressiona em Portugal no que levamos de milénio, é a desvalorização da educação na orgânica dos governos. Os governantes da educação “são” sub-secretários adjuntos das finanças. Só emergem quando cortam a eito ou anestesiam a contestação de rua em concertação com os “seus” sindicatos. Os barómetros de popularidade dos governantes espelham o fenómeno e esvaziam as oposições.

E nunca é excessivo repetir que entrámos no século XXI com 6,7% do PIB para a educação (6,9% em 2009) e que já vamos em 3%. Leu bem: 3%. O tema foi talvez o único que mereceu o teste de um polígrafo para as legislativas de 18 de Maio de 2025 (e, sublinhe-se, por causa da defesa): “se Portugal passasse a destinar oito mil milhões de euros à defesa (3% do PIB) – valor aproximado do que o país pagaria se duplicasse os custos neste âmbito (1,5%) – isso seria o equivalente a um Orçamento da Educação.” Com efeito, a redução da massa salarial dos professores – que será significativa até 2030 – tornou ainda mais escandalosa a não vinculação de professores contratados e “permitiu”, desde 2022, milhares de vinculações e pequenos ajustes em salários ou suplementos.

Mas o mais crítico – que é invisível para as bolhas política e mediática e que se acentuará no médio prazo -, é a desvalorização das aprendizagens e da escola democrática que respeita o ensino, os professores e os seus alunos. Fatalmente, uma generalizada imaturidade pedagógica colocou professores e encarregados de educação no mesmo patamar de decisão de alunos e educandos e no mesmo nível de deliberação no poder escolar. Foi mais um marco da crise do capitalismo democrático e, como se disse, da própria democracia.

Aliás, até o leitor menos versado com estes temas perceberá que tudo isso criou jovens (já eleitores) egoístas, invencíveis e ressentidos, e com baixa valoração da razão, da responsabilidade e da justiça. O efeito na sociedade foi equivalente ao que esteve na origem do nazismo (leia-se Hannah Arendt).

É uma crise também explicada pela mediatização de outra componente crítica: a falta estrutural de professores. Para além do interminável caos no tratamento de dados da educação, nem se mediatizou o que se sabe: quantos professores são necessários a cada momento (bastaria somar três variáveis: horários que ficam por preencher, horários preenchidos por quem adia a reforma – para elevar o seu parco valor – e horas extraordinárias em catadupa – note-se: desde 1998 que o sistema escolar tinha eliminado as horas extraordinárias -).

Mas não. O sistema da criança-rei viciou-se no número de alunos sem aulas e o caos dos dados acomoda a inacção de governos e oposições.

Em síntese, proclame-se que os professores são as traves mestras da consolidação da democracia e que as gerações mais escolarizadas de sempre (por cá e no resto do Ocidente) têm as suas elites alienadas por um triângulo perverso que responsabiliza incompetências governamentais: aplicações financeiras, aplicações aditivas para relações sociais e exacerbado individualismo monetarista. O grande desafio das democracias é recuperá-las para uma aspiração política que faça dos deveres cívico e ético os eixos de eleições com educação.

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Redução Que Não Reduz: Deixem-nos Jogar

A redução da componente letiva prevista no artigo 79.º do Estatuto da Carreira Docente deveria ser, em teoria, um justo reconhecimento pelo desgaste acumulado ao longo dos anos. Um prémio, sim — mas um prémio que libertasse verdadeiramente tempo. No entanto, na prática, o que me foi aplicado está longe de ser uma redução: foi apenas uma substituição. Retiraram-me tempo de sala de aula, onde me realizo e sou mais útil, para me atribuírem tarefas de outra natureza, fora da minha área e muitas vezes desligadas da vertente pedagógica.
Aquilo que me deram, chamando-lhe “redução”, foi apenas mais uma forma de redistribuição. Em vez de estar com os alunos, fui deslocado para tutorias e tarefas administrativas. E se é para continuar a cumprir o mesmo número de horas na escola — mas afastado da docência — então prefiro, com toda a sinceridade, que não me deem essa “redução”. Prefiro continuar a dar aulas. Prefiro a fadiga de uma aula bem dada ao vazio das tarefas que não me dizem nada.
Foi para explicar esta frustração que recorri à metáfora do futebol. Porque, no fundo, o que sinto é que fui tirado do relvado e mandado para o bar, com um ar de favor institucional, como quem diz: “Isto é um direito teu!”. Mas, na prática, esse “direito” veio com sabor a castigo. E o que me apetece dizer é: deixem-me jogar.
Há jogadores que, ao chegar aos 50, ainda respiram futebol. Sabem o relvado de cor, pressentem o jogo antes de ele acontecer e têm aquela calma de quem já viu todos os cantos do campo. São úteis, experientes, apaixonados. Mas há uma regra, inscrita em ata, que dita outra coisa. Um artigo, o 79.º, aplicado com zelo e sem apelo.
Diz a regra que é altura de reduzir o tempo em campo. Menos minutos, menos esforço. Uma espécie de prémio. Não por um grande golo, nem por uma assistência decisiva, mas por se ter resistido ao desgaste do calendário. E então, em vez de tocarem na bola, os veteranos são colocados noutras funções. Nada contra a logística — o bar precisa de alguém que tire bicas com mestria — mas talvez não seja isso que o camisola 10 sonhava quando calçava as chuteiras todos os domingos.
Na verdade, ninguém lhe perguntou se ainda queria jogar. Tiraram-no de campo com um sorriso institucional e disseram-lhe: “Isto é um direito teu!” Um direito que não se pode recusar. Como aquelas chicotadas matinais que alguém, um iluminado qualquer, decide que são ótimas para a saúde. E quando se diz “não quero”, respondem: “Mas isto é um direito!” E lá vai o veterano, de volta ao bar, a servir cafés e a ver o jogo pela televisão do balcão.
No mundo da Educação, o relvado é a sala de aula. O jogo é o contacto com os alunos. E há professores que ainda vibram com o apito inicial, que entram em cada aula como se fosse um dérbi. Mas o artigo 79.º, esse substituto automático, tira-lhes a bola e dá-lhes reuniões, tutorias, apoios, vigilâncias e o equivalente burocrático a tirar cafés para o corpo técnico.
O mais estranho é que, ao comentar isto com colegas, poucos percebem. Parece que a maioria já prefere o banco. Ou o bar. Ou a bancada VIP. Tudo menos jogar. E isso, mais do que a regra, é o que dói. Ver que se perdeu o gosto pelo jogo, como se dar aulas fosse um suplício do qual se foge com qualquer papel assinado.
Mas há quem ainda queira entrar em campo. Mesmo com as pernas a protestar, mesmo que o regulamento diga o contrário. Porque há paixões que não se metem em prateleiras, nem se reformam por decreto. Há professores que querem continuar a jogar.
E talvez esteja na altura de os deixarem jogar.
Texto enviado por Pedro Alexandre Franco

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Aluno asfixiado com golpe de mata-leão

Menor hospitalizado em Santarém depois de sofrer golpe mata-leão. Escola de Salvaterra de Magos já abriu investigação.

Aluno asfixiado com golpe de mata-leão já teve alta hospitalar

O aluno do 7º ano na Escola Básica e Secundária de Salvaterra de Magos que terá sido asfixiado com um golpe “mata-leão” por um colega, durante uma visita de estudo a Santarém, teve alta hospitalar durante a manhã desta terça-feira, 13 de maio.

“Confirmamos a entrada da criança na Urgência Pediátrica, onde permaneceu em observação durante a noite, tendo recebido alta esta manhã”, disse ao CMfonte oficial da Unidade Local de Saúde (ULS) da Lezíria, que gere o Hospital de Santarém.

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