A notícia da CNN Portugal não revela nada que já não soubéssemos. A falta de professores, a escassez de assistentes operacionais, a indisciplina, a burocracia excessiva e o desgaste da profissão estão identificados há anos. Podiam não estar totalmente quantificados, mas nunca foram desconhecidos. O problema não é novo, o problema é antigo e foi sendo normalizado.
E importa dizê-lo com frontalidade: a culpa não é apenas do Governo nem do Ministério da Educação. A culpa é, em grande parte, nossa. De uma classe profissional com cerca de 150.000 docentes, que tem peso social, eleitoral e capacidade real de mudança, mas que durante décadas optou pelo silêncio, pela resignação ou pela esperança de que outros lutassem por nós.
Fomos perdendo quase tudo nos últimos 30 anos:
reformas mais cedo;
reduções efetivas de horário a partir dos 40 anos; salários dignos e carreiras atrativas; autoridade pedagógica; menor carga burocrática;
reconhecimento social da profissão.
E enquanto tudo isso nos era retirado, comíamos e calávamos. Queixámo-nos na sala de professores, nos cafés, nos corredores…, mas sem ação coletiva, nada muda. A história recente prova-o.
Só começámos a recuperar, ainda que a conta-gotas, uma parte do tempo de serviço trabalhado quando nos unimos, quando fomos para a rua, quando fizemos greves, quando fechámos escolas e mostrámos força. Não foi por boa vontade política, foi por pressão, por luta e por união.
Por isso, não sejamos ingénuos, a grande maioria de nós tem hoje aquilo que permitiu que nos dessem. Enquanto acharmos que “assim ainda está razoável” ou que “outros resolvem”, continuaremos a perder. Nenhuma classe profissional se valoriza por silêncio ou resignação.
A crise nas escolas não se resolve com diagnósticos repetidos em reportagens televisivas. Resolve-se com consciência coletiva, mobilização continuada e recusa em aceitar migalhas como se fossem conquistas históricas.
A pergunta já não é: “o que está mal nas escolas?”.
A pergunta é: quando é que, enquanto classe, decidimos que basta?
José Pereira da Silva



14 comentários
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Exatamente, temos o que merecemos! Acrescento que até percebo o silêncio de muitos colegas, está à vista , até um cego perceciona o que se passa na realidade: a Inspeção não funciona, o importante é filiarem-se no partido.
Subscrevo.
Nota: a inspeção está para os diretores como as SS estiveram para o fuhrer.
SUBSCREVO na íntegra!
Basta três palavras: “Completamente de acordo!”
Eu já saí do Ensino há uns anos atrás mas vou acompanhando o blog por de vez em quando ter o bichinho de voltar para Portugal e para esta profissão que apesar de mal remunerada e desrespeitada ainda dá um certo sentido de missão.
Ora ontem numa bomba de gasolina em Milão, em conversa com um jovem português, camionista, para meu espanto fiquei a saber que ele tinha-se profissionalizado no GR 330 e que ao fim de poucos anos no Ensino também tinha desistido devido às condições que são apresentadas a quem quer que inicia a carreira hoje em dia.
Contudo, para ligar este ponto ao texto, ele explicou-me que durante algum tempo ele ainda acreditou que com a falta de professores, o governo eventualmente teria de melhorar os salários nos primeiros escalões. No entanto, ao facilitar excessivamente a entrada de pessoal não qualificado no Ensino através dos CEEs e até a falta de fiscalização nas OEs ao compadrio de Direções que colocam gente sem licenciatura em cargos docentes, a nossa classe já erodida cada vez mais parecia-se com a dos motoristas de pesados, cujos salários estagnaram completamente (apesar de menos do que os dos docentes) devido à importação em massa de trabalhadores oriundos de outros países dispostos a tolerar mais abusos e a trabalhar mais por menos dinheiro – o que, como seria de esperar, semeou a discordia nessa antiga classe e destruiu qualquer sentimento de união pela procura de melhores condições.
O nosso caso, como docentes, é ligeiramente diferente no sentido em que a nossa ausência não pára a economia de um país nem instala o caos como se viu na greve dos motoristas há uns anos atrás e, como tal, a lógica da oferta e procura não se enquadra bem com a fakta de dicentes no Ensino. O que interessa é manter is miúdos ocupados e longe de casa ebquanto os pais trabalham (ou não) e ter algo a mostrar a nível da escolaridade da população para os índices de desenvolvimento humano e estatísticas da OCDE. Será que realmente é preciso um mestrado profissionalizante e uma classe unida para exclusivamente tomar conta de crianças?
São textos destes e encontros inesperados com ex-docentes como esse jovem camionista que me relembram porque é que não devo voltar para o Ensino.
Um gajo simplifica e lateraliza e passa frente…
Mal esariamos de se cumpriasse tudo o que e pedido…
Se fossemos alemaes sim…. mas somos portugueses.
Deixa cair…. e abre a rasgar…
Os professores continuam a serem roubados e mal tratado e para muitos é como se nada passasse …
Eu estou no 7ºescalão e deveria estar no 9ºescalão (perco mais de 300€ por mês).
Já perdi a conta às greves que fiz (a última foi a Greve Geral no passado dia 11 de dezembro).
Temos que continuar a lutar e a exigir o que temos direito!
E pela maneira como escreve, nem no primeiro escalão deveria estar!
Não concordo. Não me calei, mas fui alvo de silenciamento. Portanto, a escola que temos é fruto do silêncio imposto (por políticos centrais e locais, diretores, ministério, imprensa, alguns blogues usurários, sindicatos e fraca formação académica dos portugueses).
Interessante é os diretores não dizerem nada acerca da subjetiva, insipida, ordinária e corrupta avaliação docente que mina a paz nas escolas e cria tanta conflitualidade e revolta…Parece que da avaliação docente gostam… Alimentam as clientelas, subserviências e sentem-se deuses…
Na mouche. Uma hipocrisia gritante.
É muito mais do que salários. É poder exercer uma profissão com gosto e dignidade .
Não há ponta por onde se lhe pegue. Por mim Chega – e já há algum tempo.
Onde vive você, Marte???!!!
Que quer que digam os diretores, se a ADD é a ARMA DELES!!!!
Queriam/querem, mesmo, 2 ou 3 ADD (todos os anos, ou de 6 em 6 meses, se possível!)!
O problema dos professores é exatamente esse…
Vou ser simpático, “ignoram o óbvio”…
Culpar os professores pelo estado da educação é um desplante que ignora que a nossa voz foi asfixiada desde o tempo da Maria de Lourdes Rodrigues, em que fomos amordaçados por direções autocráticas e traídos por sindicatos que preferiram assinar acordos de rendição em vez de darem luta.
Concordo, integralmente, com o autor.