A crise nas escolas não é surpresa, é o reflexo do nosso silêncio coletivo – José Pereira da Silva

A notícia da CNN Portugal não revela nada que já não soubéssemos. A falta de professores, a escassez de assistentes operacionais, a indisciplina, a burocracia excessiva e o desgaste da profissão estão identificados há anos. Podiam não estar totalmente quantificados, mas nunca foram desconhecidos. O problema não é novo, o problema é antigo e foi sendo normalizado.

E importa dizê-lo com frontalidade: a culpa não é apenas do Governo nem do Ministério da Educação. A culpa é, em grande parte, nossa. De uma classe profissional com cerca de 150.000 docentes, que tem peso social, eleitoral e capacidade real de mudança, mas que durante décadas optou pelo silêncio, pela resignação ou pela esperança de que outros lutassem por nós.
Fomos perdendo quase tudo nos últimos 30 anos:
reformas mais cedo;
reduções efetivas de horário a partir dos 40 anos; salários dignos e carreiras atrativas; autoridade pedagógica; menor carga burocrática;
reconhecimento social da profissão.
E enquanto tudo isso nos era retirado, comíamos e calávamos. Queixámo-nos na sala de professores, nos cafés, nos corredores…, mas sem ação coletiva, nada muda. A história recente prova-o.
Só começámos a recuperar, ainda que a conta-gotas, uma parte do tempo de serviço trabalhado quando nos unimos, quando fomos para a rua, quando fizemos greves, quando fechámos escolas e mostrámos força. Não foi por boa vontade política, foi por pressão, por luta e por união.
Por isso, não sejamos ingénuos, a grande maioria de nós tem hoje aquilo que permitiu que nos dessem. Enquanto acharmos que “assim ainda está razoável” ou que “outros resolvem”, continuaremos a perder. Nenhuma classe profissional se valoriza por silêncio ou resignação.
A crise nas escolas não se resolve com diagnósticos repetidos em reportagens televisivas. Resolve-se com consciência coletiva, mobilização continuada e recusa em aceitar migalhas como se fossem conquistas históricas.
A pergunta já não é: “o que está mal nas escolas?”.
A pergunta é: quando é que, enquanto classe, decidimos que basta?

José Pereira da Silva

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14 comentários

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    • Maria on 16 de Janeiro de 2026 at 14:33
    • Responder

    Exatamente, temos o que merecemos! Acrescento que até percebo o silêncio de muitos colegas, está à vista , até um cego perceciona o que se passa na realidade: a Inspeção não funciona, o importante é filiarem-se no partido.

      • HH on 17 de Janeiro de 2026 at 15:00
      • Responder

      Subscrevo.
      Nota: a inspeção está para os diretores como as SS estiveram para o fuhrer.

    • Ahhh! Ahhh! on 16 de Janeiro de 2026 at 14:43
    • Responder

    SUBSCREVO na íntegra!

    • Francisco Trindade on 16 de Janeiro de 2026 at 14:55
    • Responder

    Basta três palavras: “Completamente de acordo!”

      • Rosário on 17 de Janeiro de 2026 at 5:49
      • Responder

      Eu já saí do Ensino há uns anos atrás mas vou acompanhando o blog por de vez em quando ter o bichinho de voltar para Portugal e para esta profissão que apesar de mal remunerada e desrespeitada ainda dá um certo sentido de missão.

      Ora ontem numa bomba de gasolina em Milão, em conversa com um jovem português, camionista, para meu espanto fiquei a saber que ele tinha-se profissionalizado no GR 330 e que ao fim de poucos anos no Ensino também tinha desistido devido às condições que são apresentadas a quem quer que inicia a carreira hoje em dia.

      Contudo, para ligar este ponto ao texto, ele explicou-me que durante algum tempo ele ainda acreditou que com a falta de professores, o governo eventualmente teria de melhorar os salários nos primeiros escalões. No entanto, ao facilitar excessivamente a entrada de pessoal não qualificado no Ensino através dos CEEs e até a falta de fiscalização nas OEs ao compadrio de Direções que colocam gente sem licenciatura em cargos docentes, a nossa classe já erodida cada vez mais parecia-se com a dos motoristas de pesados, cujos salários estagnaram completamente (apesar de menos do que os dos docentes) devido à importação em massa de trabalhadores oriundos de outros países dispostos a tolerar mais abusos e a trabalhar mais por menos dinheiro – o que, como seria de esperar, semeou a discordia nessa antiga classe e destruiu qualquer sentimento de união pela procura de melhores condições.

      O nosso caso, como docentes, é ligeiramente diferente no sentido em que a nossa ausência não pára a economia de um país nem instala o caos como se viu na greve dos motoristas há uns anos atrás e, como tal, a lógica da oferta e procura não se enquadra bem com a fakta de dicentes no Ensino. O que interessa é manter is miúdos ocupados e longe de casa ebquanto os pais trabalham (ou não) e ter algo a mostrar a nível da escolaridade da população para os índices de desenvolvimento humano e estatísticas da OCDE. Será que realmente é preciso um mestrado profissionalizante e uma classe unida para exclusivamente tomar conta de crianças?

      São textos destes e encontros inesperados com ex-docentes como esse jovem camionista que me relembram porque é que não devo voltar para o Ensino.

    • TOP on 16 de Janeiro de 2026 at 15:25
    • Responder

    Um gajo simplifica e lateraliza e passa frente…
    Mal esariamos de se cumpriasse tudo o que e pedido…
    Se fossemos alemaes sim…. mas somos portugueses.
    Deixa cair…. e abre a rasgar…

    • António Alves on 16 de Janeiro de 2026 at 17:52
    • Responder

    Os professores continuam a serem roubados e mal tratado e para muitos é como se nada passasse …
    Eu estou no 7ºescalão e deveria estar no 9ºescalão (perco mais de 300€ por mês).
    Já perdi a conta às greves que fiz (a última foi a Greve Geral no passado dia 11 de dezembro).
    Temos que continuar a lutar e a exigir o que temos direito!

      • Luluzinha! on 17 de Janeiro de 2026 at 13:23
      • Responder

      E pela maneira como escreve, nem no primeiro escalão deveria estar!

    • FRI on 16 de Janeiro de 2026 at 18:03
    • Responder

    Não concordo. Não me calei, mas fui alvo de silenciamento. Portanto, a escola que temos é fruto do silêncio imposto (por políticos centrais e locais, diretores, ministério, imprensa, alguns blogues usurários, sindicatos e fraca formação académica dos portugueses).

    • AEA on 16 de Janeiro de 2026 at 19:38
    • Responder

    Interessante é os diretores não dizerem nada acerca da subjetiva, insipida, ordinária e corrupta avaliação docente que mina a paz nas escolas e cria tanta conflitualidade e revolta…Parece que da avaliação docente gostam… Alimentam as clientelas, subserviências e sentem-se deuses…

      • João on 16 de Janeiro de 2026 at 23:53
      • Responder

      Na mouche. Uma hipocrisia gritante.
      É muito mais do que salários. É poder exercer uma profissão com gosto e dignidade .
      Não há ponta por onde se lhe pegue. Por mim Chega – e já há algum tempo.

      • Acordem, porra! on 17 de Janeiro de 2026 at 16:09
      • Responder

      Onde vive você, Marte???!!!
      Que quer que digam os diretores, se a ADD é a ARMA DELES!!!!
      Queriam/querem, mesmo, 2 ou 3 ADD (todos os anos, ou de 6 em 6 meses, se possível!)!
      O problema dos professores é exatamente esse…
      Vou ser simpático, “ignoram o óbvio”…

    • Pardo on 16 de Janeiro de 2026 at 22:00
    • Responder

    Culpar os professores pelo estado da educação é um desplante que ignora que a nossa voz foi asfixiada desde o tempo da Maria de Lourdes Rodrigues, em que fomos amordaçados por direções autocráticas e traídos por sindicatos que preferiram assinar acordos de rendição em vez de darem luta.

    • Luluzinha! on 17 de Janeiro de 2026 at 13:24
    • Responder

    Concordo, integralmente, com o autor.

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