25 de Maio de 2025 archive

Uma estreia em mais de duas décadas (e ainda me surpreendo)

Por Pedro Alexandre Franco

 

Sou professor de Educação Musical no 2.º ciclo do Ensino Básico há mais de duas décadas e já lecionei em quase trinta escolas diferentes. Dizer isto em voz alta é quase tão estranho como confessar que já tive alunos que agora têm filhos, e alguns desses filhos até já tocam flauta, coitados.
Durante todo este tempo, houve uma constante: mudava de escola todos os anos. Era quase ritual. Chegava, dava o meu melhor, envolvia-me com as turmas, decorava os nomes (às vezes com mnemónicas duvidosas), e no final do ano… lá ia eu para outra escola, com novo código da fotocopiadora, nova sala, e novos desafios — incluindo encontrar uma tomada que funcionasse à primeira.
Mas este ano, pela primeira vez, vou continuar na mesma escola. Não mudo de lugar, nem de colegas, nem sequer de secretária, que já range de um lado, mas tem personalidade. E esta novidade muda tudo.
É também a primeira vez que vou ter continuidade com as turmas. Os alunos que me ouviram este ano a explicar, com entusiasmo digno de festival, o que é uma síncopa ou uma clave, voltam para o ano. Já sabem os meus trocadilhos, as minhas expressões, e aquele olhar que diz “sim, eu sei que isso não estava no plano, mas vamos fingir que estava”.
E mesmo os que seguem para o 3.º ciclo ou para o secundário… continuarão a passar por mim todos os dias. A escola secundária é mesmo em frente da básica, e ali vão andar eles: mais altos, mais sérios, com mochilas que parecem malas de viagem, mas ainda com aquele brilho no olhar de quem, há pouco tempo, ainda pedia para tocar triângulo “porque é mais fácil”.
Já sei os ritmos, os rostos e, claro, as sopas da cantina. Todas excelentes. À quinta-feira, por exemplo, é a imperdível sopa de peixe, um clássico que já deveria ter estatuto de património alimentar da escola.
E lá está também a velha guitarra da escola. Aquela companheira que já sobreviveu a afinações apressadas, palhetas desaparecidas e alunos que pensam que “sol maior” é uma coisa que se apanha na praia. Não é uma guitarra de luxo, mas dá luta e, mais importante, ainda me dá “pica”. É com ela que se criam momentos, alguns quase musicais, outros apenas divertidos, e todos absolutamente genuínos.
É estranho, bonito, e inesperadamente reconfortante. Ver os alunos a crescerem, a mudarem, a construírem-se, e eu ali… sempre por perto. Como um marco. Ou como aquela cadeira que já ninguém tira da sala porque faz parte da paisagem e que, apesar de ter um parafuso solto, ainda cumpre bem a sua função.
De vez em quando, um passará por mim, sorrirá e dirá: “Olha, o prof de Música… ainda cá anda.”
Pois ando. E ainda bem. Porque, ao fim de bem mais de vinte anos, descobri que ficar pode ser tão marcante como começar.

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A ansiedade antes da ansiedade dos exames

 

A ansiedade antes da ansiedade antes da ansiedade, a mãe da ansiedade e a avó da ansiedade, gerações inteiras de angústia debaixo da pele e a pele uma casa velha a ranger, a tremer, a ameaçar cair e cair de verdade, e a alma lá dentro a olhar pelas janelas como se alguém viesse salvar, alguém, quem, ninguém.

Antes do exame: os olhos em ti, os olhos dos outros em ti, os teus olhos em ti, os olhos no chão, a tropeçar no chão, a enrolarem-se no chão e o chão uma cama e tu um corpo sem força, sem chão. O corpo derrotado antes de lutar. A cabeça rendida antes da guerra. A vontade como um balão furado, a esvaziar-se devagar e sem barulho e desistir é tão natural como respirar.

E se estudámos. Dias, noites, horas coladas umas às outras como as peças de um puzzle por acabar, e a memória um espelho embaciado a repetir, a repetir, a repetir, como um papagaio a imitar sem saber quanto diz, sem saber porquê e a papaguear se fez o ensino Secundário.

Então porquê o medo, porquê a taquicardia nos corredores gelados da escola, porquê o suor nas palmas das mãos, porquê os dedos crispados e na verdade cada exame é uma guerra e cada pergunta uma bala.

Porque falhar é cair. Porque cair é desiludir. Porque desiludir é deixar de merecer amor.

E tudo isto antes dos dezoito anos. Ainda criança e já culpado, curvado e empurrado para uma glória sem glória. Os pais, coitados, a exigirem sem saber. A amar com culpa. A pressionar com medo. A quererem para nós quanto não tiveram. Uma vida melhor, dizem. E esta vida melhor é esta? Esta prisão de papel? Este campo de batalha de silêncio e dor e cotovelos apertados contra o peito para não chorar?

Brincar quando se cresce foi sempre uma perda de tempo e a felicidade é para os ignorantes e pobres de espírito se o principal objetivo é vencer e ser alguém.

Mas nós já somos alguém, repetimos entre clamores e apelos em vão e as mochilas pesam mais para além dos corpos e os corações cansam-se de arrastar as pernas. Fomos crianças com olheiras de adulto e rugas no pensamento. E a ansiedade a crescer como um fungo, invisível, pegajosa, mortal.

E antes de cada exame morremos um bocadinho, enterrados no medo e o epitáfio escrito a caneta azul no canto do caderno.

E ninguém fala disto. Só se fala do resultado, do número, da média, da nota, da estatística e nunca da dor, nunca da solidão, nunca da vergonha de não ser perfeito mais a raiva de quem tenta e falha. E a vontade de fugir para sempre.

E se crescemos entre promessas de nunca mais, nunca mais exames, nunca mais testes, nunca mais aquela humilhação, depois e uma vez adultos, repetimos, fazemos igual, exigimos igual.

O ensino é uma máquina e cada um de nós parte da engrenagem e para quê se não se derrubam governos e formas de pensar para a melhoria do bem-estar geral?

E de caminho admoestamos com a mesma régua e castigamos na mesma medida ou não continuassem os exames inamovíveis, seculares, desta feita não para nós mas para os outros num altar pagão onde se sacrificam os mais novos, os mais frágeis, os Zé-ninguém cheios de esperança, a mesma esperança, a nossa esperança apesar das eras passadas.

E eu, um dos sacrificados, fiquei pelo caminho, ainda a tremer com o cheiro do papel do exame enquanto olho para trás e não me lembro de quanto aprendi, só a dor, só o peso, só a ansiedade e eu não quero isto para os meus nem quero ser o carrasco de ninguém.

E se os exames medem alguma coisa, não é o saber, é a capacidade de sofrer para sempre e em silêncio.

João André Costa

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