A cartilha do medo e o ruído em torno da carreira docente

Um texto Chato que vocês não querem ler…

A cartilha do medo é um fenómeno tão antigo quanto a própria organização das sociedades humanas e não nasceu com os debates recentes sobre educação nem foi inventada por políticos ou sindicatos contemporâneos. Ao longo da história, diferentes pensadores alertaram para a facilidade com que o medo pode ser usado para orientar comportamentos e capturar a atenção coletiva. Platão já descrevia o risco de manipulação das massas através de narrativas que exploram emoções primárias, Maquiavel reconhecia que o medo é uma ferramenta poderosa no exercício do poder, e mais tarde Orwell mostraria como a institucionalização do medo pode condicionar a liberdade de pensamento e criar conformismo social.

Quando hoje se ouve afirmar que está a ser preparado um golpe final contra os professores e a sua carreira, é inevitável reconhecer a repetição de um padrão antigo. A retórica da catástrofe reaparece ciclicamente sempre que se abrem processos negociais complexos, como sucede com a atual fase de negociação do Estatuto da Carreira Docente. O que se apresenta como uma ameaça absoluta é muitas vezes a dramatização de um processo público e conhecido, em que sindicatos e governo discutem modelos de progressão, avaliação e organização da carreira. A cartilha é velha e eficaz porque transforma incerteza em medo e medo em mobilização emocional, dirigindo-se sobretudo aos mais desatentos, àqueles que só se lembram de Santa Bárbara quando troveja.

Filósofos modernos aprofundaram esta reflexão. Descartes insistia na necessidade de submeter todas as ideias ao crivo da razão crítica, Rousseau advertia para o risco de a vontade coletiva ser manipulada por narrativas interessadas, e Hannah Arendt analisou como o medo persistente pode corroer o julgamento individual e normalizar comportamentos que, em circunstâncias serenas, seriam questionados. Horkheimer e Adorno, ao estudarem a cultura de massas, mostraram que a produção sistemática de receios pode funcionar como instrumento de controlo social tão eficaz quanto qualquer mecanismo formal de poder.

No caso português, a realidade é mais prosaica do que os anúncios de desgraça fazem crer. O Estatuto da Carreira Docente encontra-se em negociação aberta, com posições divergentes mas assumidas publicamente, e a carreira docente continua a ser reconhecida como uma carreira estruturada de nível elevado no contexto da administração pública. A existência de conflito negocial não equivale a um desmantelamento oculto da profissão, antes faz parte do funcionamento normal de um sistema democrático em que interesses distintos se confrontam e procuram compromissos.

A cartilha do medo segue sempre a mesma lógica, constrói uma narrativa de ameaça total, associa essa ameaça a intenções escondidas, sugere que apenas alguns estão verdadeiramente conscientes do perigo e desvaloriza a informação pública disponível. O resultado é um ambiente em que o ruído supera a análise e em que a emoção tende a substituir o debate informado. Contra isso, a melhor resposta continua a ser a participação crítica, a leitura atenta das propostas concretas e a recusa de aceitar profecias de desastre sem fundamento verificável.

Educar uma sociedade implica também educar a sua relação com o medo. Como sugeria Platão, a qualidade da vida coletiva depende da clareza com que se percebem as ideias que a orientam. A prudência de Maquiavel, o ceticismo metódico de Descartes e a vigilância intelectual de Orwell convergem numa mesma lição, o medo pode ser um poderoso dramaturgo, mas é um conselheiro fraco quando se trata de construir políticas públicas sólidas. No debate sobre a carreira docente, mais do que cartilhas antigas e anúncios apocalípticos, o que se exige é lucidez, informação e responsabilidade partilhada.

 

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1 comentário

    • Zabka on 10 de Fevereiro de 2026 at 19:57
    • Responder

    LOL! Mais um lírico.
    Sugiro aos estimad@s coleg@s que se informem sobre o Recap e depois falamos.

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