Há pessoas que começam qualquer reflexão sobre educação com essa frase já gasta…
E eu sou dos primeiros a reconhecer que a escola precisa de evoluir, mas procuro fazer mais do que repetir essa evidência em palestras ou publicações: trabalho com professores, educadores, assistentes operacionais e diretores, conheço as dificuldades concretas que enfrentam e tento ajudá-los a construir respostas mais adequadas ao tempo em que vivemos.
Mas convém fazer uma pergunta: será a escola a única instituição que precisa de evoluir?
Você, que critica a escola a partir da sua empresa, da sua profissão ou da sua página nas redes sociais, qual foi a última inovação verdadeira que introduziu no seu trabalho?
Começou a utilizar o ChatGPT como anteriormente utilizava o Google?
Substituiu o PowerPoint pelo Canva?
Gravou um vídeo vertical em vez de escrever um texto? Isso pode ser útil, mas trocar uma ferramenta por outra não é necessariamente inovar, muitas vezes, é apenas fazer a mesma coisa antiga com uma embalagem mais moderna.
Não digo isto para atacar ninguém, mas para devolver alguma honestidade à discussão, porque inovar no verdadeiro sentido da palavra implica alterar práticas, abandonar rotinas confortáveis, avaliar resultados, aceitar erros, reorganizar recursos e, por vezes, questionar aquilo que durante anos nos deu estatuto e segurança.
Se essa transformação já é difícil numa pequena empresa, com poucas pessoas e decisões rápidas, imagine-se num sistema escolar enorme, regulado por leis, programas, avaliações, horários, expectativas familiares, desigualdades sociais e milhares de profissionais com experiências e condições muito diferentes.
Há ainda uma ironia difícil de ignorar: algumas pessoas criticam a escola por ser antiquada enquanto fazem essa crítica numa palestra igualmente antiquada, sentadas atrás de uma mesa ou escondidas num púlpito, a falar durante uma hora para uma audiência passiva, sem escutar, sem interagir, sem experimentar e sem sequer perceber se alguém aprendeu alguma coisa.
Exigem metodologias ativas aos professores, mas comunicam como se o público fosse apenas um recipiente, condenam a resistência à mudança, mas não identificam uma única transformação relevante que tenham produzido no seu próprio trabalho.
A escola precisa de evoluir, evidentemente, e precisa de o fazer com urgência, inteligência e coragem. Todos precisando. Contudo, essa exigência deve ser acompanhada por respeito e humildade perante os muitos professores, educadores de infância, assistentes e diretores que, mesmo condicionados por estruturas pesadas e recursos escassos, procuram todos os dias ensinar melhor, comunicar melhor e responder a crianças que chegam à escola com necessidades que nenhum manual do século XIX poderia antecipar.
Criticar de fora é rápido,…transformar por dentro é lento, complexo e desgastante. Antes de apontarmos o dedo à escola por não avançar depressa, talvez devamos olhar para as nossas próprias práticas e perguntar se estamos realmente a abrir caminho ou apenas a exigir que os outros caminhem por nós.
Alfredo Leite