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Quem nunca se sentiu como um “idiota útil”? – Paula Dias

Os profissionais de Educação são aquelas pessoas que, no exercício das suas funções docentes ou não docentes, se vêm obrigadas a pôr em prática as medidas da política educativaque vão sendo emanadas por sucessivos Ministérios da Educação…

Metaforicamente, e por outras palavras, ao longo dos anos, os Governos vão passando em cortejos engalanados e os profissionais de Educação vão assistindo a esses desfiles, cientes de que, depois de os séquitos passarem, alguém terá que varrer o chão, limpar os despojos deixados por tais passagens e arrumar todos os apetrechos usados nasglamorosas festividades…

No âmbito anterior:

Quem nunca se sentiu como um “idiota útil”, no exercício das suas funções profissionais em contexto escolar?

No geral, existem dois tipos de “idiotas úteis”:

– Há os que desempenham esse papel, sem consciência da manipulação a que estão ser sujeitos;

– E há os que desempenham esse papel, conscientes de que estão a ser usados para finalidades que, muitas vezes, lhes levantam muitas dúvidas e reservas e que suscitam, até, a sua discordância…

No universo de profissionais de Educação, quantos já se sentiram na pele de “idiotas úteis”, com consciência de que estão a ser usados para finalidades de eficácia duvidosa ou até mesmo contrárias àquilo que consideram ser o melhor para a Escola Pública?

Quantas vezes, no exercício de funções docentes ou não docentes, se ajuda a credibilizar e a legitimar más medidas educativas, concebidas por terceiros?

Quantas vezes, no exercício de funções docentes ou não docentes, se ajuda a encobrir os problemas existentes em tantas realidades inconvenientes do contexto escolar?

Os profissionais de Educação andam, há anos, a “puxar mantas pequenas”, que deixam sempre alguém com os “pés de fora”; a tentar remediar os erros concebidos pela Tutela ou a “tapar os buracos” abertos pela mesma…

Muitas vezes, chega a parecer que a própria Tutela olha para os Profissionais de Educação como se os mesmos fossem “idiotas úteis”, postos ao seu serviço e sempre ao seu dispor

E quando é que deixaremos de ser vistos pela Tutela como “idiotas úteis”?

– Quando conseguirmos demonstrar que não somos manipuláveis, nem fantoches ao serviço de vontades políticasque vão mudando, conforme os Governos e ao sabor de muitas vaidades e de outros tantos egos inflados

Problema: Os profissionais de Educação, docentes e não docentes, estão “a milhas” de conseguirem alcançar a união de classe, necessária e imprescindível para conseguirem demonstrar que não são submissos, silenciosos, nemmanobráveis…

E, para mal dos nossos pecados, a Tutela sabe isso muito bem…

Portanto…

Passados cinquenta e dois anos desde o 25 de Abril de 1974, uma parte significativa dos profissionais de Educação continua presa e amordaçada, não em Caxias ou no Tarrafal, mas sob o jugo do conformismo, da apatia, do alheamento e da obediência acrítica…

Muitos desses profissionais de Educação parecem ter optado pelo conforto e pela segurança proporcionados pelo hábito, pelo ritual e pela acomodação, preferindo não se comprometer com qualquer ruptura, mudança ou progresso, adaptados que estão à previsibilidade das suas (agonizantes) rotinas…

 

O primado da sobrevivência sobrepõe-se, muitas vezes, ao da dignidade e é dessa forma que nas escolas se vai aceitando praticamente tudo o que vem da Tutela

 

Muitas vezes, sem acções conscientes e intencionais e sem pensamento crítico, os automatismos comportamentais sucedem-se e repetem-se, num círculo vicioso de trabalho insano que aprisiona e se mostra praticamente impossível de quebrar…

Passados cinquenta e dois anos desde o 25 de Abril de 1974, ainda nos deixamos anular e silenciar, aceitando, consciente ou inconscientemente, o papel de “idiotas úteis”…

(Ao longo de mais de vinte e nove anos no exercício da função de Psicóloga em contexto escolar, já me senti, algumasvezes, como uma “idiota útil” e confesso que também me sinto cansada de lutar contra isso, quase sempre pouco acompanhada).

Paula Dias