Professor, 50 anos, 25 anos de serviço, 4º escalão, menção na ADD (quando terminar a avaliação em Julho) nunca mais de Bom. Destino: vagas para esperar o 5º…..
Conjunturalmente estou subdiretor do agrupamento em que sou professor de quadro de agrupamento e penso passar os 17 anos de carreira que me faltam (não nessa função, entenda-se, porque a limitação de tempo em funções é boa, até para mim).
Quem fale de carreira e avaliação de docentes devia fazer sempre a sua declaração de interesses.
O que fiz acima.
“És dos de cima ou dos de baixo?”
Queres melhorar a carreira para futuro, porque és do grupo que nunca vai estar no escalão certo, não passaste ainda do sexto ou és contratado e não tens escalão?
Ou estás no 8º, 9º ou 10º e com os 2 aninhos já a coisa ficou composta (ou até estás no escalão certo, que até foi criado de propósito) queres raspar-te para a reforma, com 60, e quem vier atrás que se lixe a penar, 2 ou 3 escalões abaixo daquele em te vais reformar, e esses com horizonte até aos 67 ou mais?
Saber isto ajuda a entender o texto porque é o “autor e a sua circunstância”.
Eu sou “dos de baixo”.
3 semanas a ouvir falar de avaliação, mérito, excelência, com poucas referências a justiça ou até misericórdia ou superação fizeram-me ir ao refúgio da filosofia.
Confesso que estou farto de ver gente que julgo, pelo convívio, que até evito, intelectual e profissionalmente medíocre, a esgadanhar-se para o “celente” ou “muita bom” porque quer mais uns mesinhos e uns troquinhos.
O sistema é mau e até imoral, mas é piorado pelo comportamento de quem age nele, que não busca mais nada que não o interesse próprio, até contra a lógica comum.
Tenho-me lembrado muito da frase de Marco Aurélio: o que é mau para a colmeia, não pode ser bom para a abelha. Aumentar a injustiça, mesmo num sistema de partida injusto, beneficiando alguém artificialmente, não dá justiça a ninguém e prejudica abelhas sem culpa nenhuma.
É uma forma muito portuguesa de meritocracia seletiva: batem com a mão no peito a proclamar que a excelência não existe, a diferenciação é inútil, mas se houver o excelente é sempre para quem enuncia e ele/a é quem deve ser diferenciado/a para mais.
E quem tem unhas toca guitarra e até há vagas de quota adicionais para criar.
Ver gente que diz que a ADD é uma encarnação demoníaca, mas que escreve páginas e páginas a enredar-se na discussão do seu suposto mérito pessoal e a reclamar que não lho emolduram, é divertido. E bom para filosofar.
Até porque ajudei alguns, de outros agrupamentos, a escrever. Contradições de quem acha que a solidariedade tem mais valor moral que o julgamento.
Mas sempre me ouviram, antes da ajuda, que se tivessem posto tanta energia nas lutas coletivas, que podiam ter feito a diferença na recuperação de carreira, não tinham a lutinha pequenina dos criteriozinhos e das reclamaçõeszitas para a vaguinha de quotinha adicional para não ir para a listinha do escalão. .
A ironia é até ver gente que não teve uns trocos para ajudar na greve às avaliações gastar, bem mais, no advogado para reclamar do bom (que, quem os conhece, acha que foi bem bom).
E sempre com reclamações que nunca descem ao sistema, mas ficam sempre no quintal do reclamante. Nunca vi nenhuma que, por exemplo, viesse discutir a invalidade jurídica das normas aplicadas ou por que são as normas da ADD regulamentos “inovadores”? Ou que discutisse as quotas com comparação das notas dos outros concorrentes nelas.
Isso era discutir o sistema não a nota.
E quando tal se sugere acaba tudo muito ordeiro e sem incomodar os colegas. Tudo muito pequenino e quase a pedir desculpa por incomodar. Venha a vaguinha adicional e fica o sancho pança bem servido.
Para quê encarar as velas cortantes do que nos mói?
Ajudando a agir, no tempo certo, tinham tido anos e tinham justiça.
Derrotado e traido pelos sindicatos da plataforma nessa greve e na ILC, tenho a boa memória pessoal dos atos, que tiveram muitos autores, e, no fim, vamos ser só bons na mesma e assentar arraiais na lista das vagas.
Se me passarem à frente, azar.
Já não são os primeiros.
A diferença é que eu escolhi.
E isso para mim vale muito. E não me estou a gabar. Só a informar, que quando falo de avaliação, me pus pessoalmente de fora. E até admito que haja quem não compreenda ou queira distorcer a decisão No regime em que estou, e podia não estar, não passo de Bom.
E digamos que, se tanta gente quer ser excelente e muito bom, também não era ilógico que me habilitasse à taluda.
Mas nem tudo o que é lógico é ético. E para mim, no meu juízo individual, porque a ética é pessoal.
Ficar de fora a ver o circo das vaidades e da energia de luta pelo puro interesse próprio é, além de tudo, educativo.
A meritocracia é uma ideologia e não deve ser “naturalizada”. É uma forma de darwinismo social e na natureza os ecossistemas não se baseiam só na predação.
A animação vale muito a pena e as víboras são um belo elemento gráfico.